Discos, discos, discos. Carlos Manuel, melómano de Almada, tem muitos. Demasiados. Começou a coleccioná-los nos tempos de liceu, no início da década de 80. À medida que os anos foram passando, as idas à Feira da Ladra e a lojas especializadas tornaram-se mais frequentes e as rodelas de vinil preto foram ganhando cada vez mais espaço até que se acabaram as prateleiras e os caixotes, até que se acabou o chão. O que é formidável para nós, porque daqui a uns dias Carlos Manuel vai colocar uma parte substancial da sua colecção à venda.
No sábado, a partir das 14.30, a Oficina da Juventude do Miratejo vai ser uma espécie de Terra Prometida para os apaixonados do vinil. À procura de novo dono vão estar mais de cinco mil gravações de diversos estilos e épocas, com preços entre os cinco e os cem euros. Entre as preciosidades, Carlos Manuel destaca alguns singles e EPs de grupos como os Beatles e os Rolling Stones, bem como LPs de artistas inclassificáveis portugueses como os Tantra ou Petrus Castrus.
Alguns discos estarão expostos apenas para mostra (ou, suspeitamos nós, apenas para fazer inveja). É que Carlos Manuel pode estar cansado de uma série de títulos da sua colecção, mas está longe de se render ao digital: “continuo a preferir o vinil, sem dúvida. Pelos rituais intrínsecos e especialmente pela profundidade espacial da sua sonoridade”. Entre os discos dos quais não é capaz de se separar, destaca dois: Fun House, delírio garage-rock dos norte-americanos Stooges, “graficamente excepcional e com uma sonoridade electrizante”, e um álbum de Maria Callas “comprado em 1988 por 20 escudos na Feira da Ladra. Fascinou-me a capa grossa de cartão, dura como madeira, com um suporte metálico lateral que parece fazer parte de uma gaveta de arquivo. Guardo-o religiosamente e ouvi-lo é sempre um momento único.”
Numa altura em que, atraídos precisamente por esses particularismos do disco-enquanto-objecto, uma nova geração de musicómanos descobre a magia analógica do vinil, esta feira surge como uma oportunidade perfeita para começar ou completar discografias e, já agora, tentar encontrar aquela edição limitada prensada no Camboja de que apenas se ouviu falar. De qualquer modo, se encontrarem por lá o Desertshore da Nico, esqueçam: esse é para nós.
A venda de discos usados realiza-se no sábado, a partir das 14.30, na Oficina da Juventude do Miratejo (R. Adriano Correia de Oliveira, 8, Miratejo).
Manuel Poças
terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

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