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Duelo de Castas (Bottleshock)


Há uns bons seis meses, a nossa crítica de vinhos, Odete Cascais, viu este Bottleshock num cinema americano. E esperou pacientemente que o filme chegasse a Portugal para lhe falar do assunto. Só se recusa é a dizer o título em português...

Com um bocado de sorte, os americanos ainda nos vão convencer de que o soufflé foi criado no Milwaukee e a tortilha vem do Massachusetts. É o que dá fazer filmes que o mundo inteiro vê e que põem os Estados Unidos na origem das grandes invenções da Humanidade. Bottleshock – o filme enófilo que esta semana se estreia em Portugal – podia perfeitamente ser um desses casos. Mas infelizmente, para todos os anti-americanos que nos rodeiam, o filme é mesmo baseado em factos reais. E isso, por mais que custe, faz os americanos serem grandes. Até no vinho.

Para além do lado ficcional (muito longe de ser brilhante), o que realmente interessa neste filme é a história quase inverosímil em torno de um acontecimento marcante no mundo dos vinhos : o primeiro frente-a-frente entre o vinho americano e o vinho francês. Um duelo em que os yankees não só estiveram à altura do Velho Continente, como esmagaram a concorrência.

Tudo aconteceu no ano de 1976 quando Steve Spurrier, um comerciante de vinho inglês fixado em Paris, decidiu organizar uma prova cega – registada nos livros como o Julgamento de Paris (vale pena ir à Wikipedia) –, em que os melhores vinhos franceses e os melhores vinhos californianos se defrontariam pela primeira vez em condições de igualdade. Ou talvez seja melhor dizer ‘semi-igualdade’, já que o júri era apenas composto por franceses e os únicos jornalistas presentes eram também franceses.

Como ninguém sabia o que estava a beber (ponto fundamental em qualquer prova de vinhos), os pontos dos primeiros classificados, tanto nos brancos como nos tintos, foram direitinhos para os vinhos de Napa Valley. O resultado, como seria de esperar, foi um escândalo. O filme mostra a surpresa com que os membros do júri ouviram o seu próprio resultado, mas talvez não dê ideia da polémica criada à volta do concurso, e que até levou um membro do júri, coberto de vergonha, a alegar falsificação dos resultados finais.

Entre os profissionais do mundo dos vinhos, no entanto, esta história é uma lição sobejamente conhecida. E fez com que muitos países do Novo Mundo – Chile, Argentina, África do Sul, Nova Zelândia... – se lançassem na produção de vinhos com o queixo levantado. Spurrier , o homem que criou este duelo e que se tornou famoso por isso mesmo, voltou a organizar o duelo 30 anos depois, em 2006, e (como se diz no final do filme) voltou a surpreender o mundo com o mesmo resultado.

Por tudo isto, Bottleshock é um filme pedagógico. Tem é de ser chamado pelo seu nome original, porque o nome português que lhe deram – Duelo de Castas – é a maior aberração de que alguém se podia lembrar. Como qualquer leigo percebe ao ver o filme, não há qualquer duelo de castas, mas sim de vinhos. As principais castas dos vinhos dos dois lados do Atlântico, aliás, até são as mesmas: chardonnay (nos brancos) e cabernet sauvignon (tintos).

O conceito de Bottleshock, caso os senhores que traduziram não tenham estado atentos ao enredo do filme, é o efeito que o vinho sofre logo após ser engarrafado, quando os elementos se confundem e demoram a adaptar-se ao novo habitat. Se nós, orgulhosos europeus, não sabemos isso, é porque não estamos preparados para o próximo duelo.

segunda-feira, 8 de Junho de 2009



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