Já se sabe quais são os procedimentos contra o contágio. Lavar muitas vezes as mãos. Evitar tocar nos olhos e no nariz. Manter alguma distância das pessoas contaminadas. A não ser que, sendo o vírus António Lobo Antunes, queiramos deixar-nos levar pela epidemia editorial que agora acontece em seu redor. Será talvez coincidência pura, mas numa altura em que se aproxima a atribuição do novo Nobel da Literatura, prémio para o qual o escritor português é um eterno candidato, vão estar nas bancas quatro novas edições que trazem na capa o nome António Lobo Antunes.
O mais assinalável destes momentos editoriais é o novo romance do autor, Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?. Mas há também duas edições comemorativas dos dois primeiros livros que António Lobo Antunes publicou, Memória de Elefante e Os Cus de Judas, e um livro-entrevista de grande fôlego pelo jornalista João Céu e Silva, Uma Longa Viagem com António Lobo Antunes.
Foi já há 30 anos, em 1979, que o jovem António Lobo Antunes publicou pela primeira vez. Foram dois livros logo no primeiro ano, aceites de braços abertos pela crítica e pelos leitores, o início de uma vida literária agora incontornável na história das letras portuguesas. Nada mudou em Memória de Elefante e Os Cus de Judas, a não ser a sombra de tudo o que se seguiu a eles. As duas novas edições, com um grafismo de capa a remeter para um espírito industrial, servem como marca no calendário, a garantia de que no momento em que o mais recente livro aparece, com as engrenagens mais do que afinadas, não há como esquecer os mecanismos que estiveram na origem de tudo. Uma tiragem de 2000 exemplares, 500 dos quais com autógrafo do autor.
O que pode ser curioso neste encontro entre o presente e o passado é o espicaçar de um contraste. Se estivéssemos a falar do Benfica, tema caro ao próprio autor, seria um pouco como espreitar um jogo dos tempos de Eusébio e Coluna e depois esperar para ver a próxima jornada.
Neste contraste estaria António Lobo Antunes a dizer que o futebol já não é o que era. Que antes era raça e agora é geometria. No contraste literário será ele também a dizer que antes era romance e agora é uma outra coisa. Já não é o que era também, o que para uns significa pior e para outros significa melhor.
Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? é um livro especialmente oportuno para servir de próxima jornada nesta comparação. É o próprio escritor quem defende, de cada vez que fala dos livros que ficaram para trás, que já rompeu com as estruturas tradicionais. E é de uma dessas afinidades com a ausência de estrutura que surge o invulgar novo título.
Começou com um sentimento forte, uma perturbação inexplicável, um verso apenas que comoveu António Lobo Antunes, confessado há uns meses numa das crónicas da revista Visão. Vitorino e Janita cantavam durante um almoço uma moda de Natal. Logo aí foi expressa a vontade de usar este verso como título. Logo aí, a história a diferentes vozes de uma família ribatejana, apesar de ter uma unidade narrativa superior a O Meu Nome É Legião, o livro anterior, garantiu a sua quota de fragmentação literária.
E depois de tudo isto, se a obra não chegar, há ainda para descobrir o homem que durante mais de um ano se abriu de forma inédita a João Céu e Silva. Uma longa viagem, transparente, que parece levantar o véu mais do que o próprio escritor se apercebeu de que estaria a levantar, numa altura em que ares românticos soprados do Brasil trouxeram para as páginas dos jornais um António Lobo Antunes versão popstar, pela primeira vez mais personagem do que criador.
terça-feira, 6 de Outubro de 2009

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