Este livro é mesmo um policial? De facto, de acordo com as regras definidas para o género, não é. A porta não se fecha quando o livro acaba. Não há um detective, mas as personagens do romance que procuram saber o que aconteceu a estas crianças assassinadas e largadas junto ao arame farpado do gueto, vivem momentos tenebrosos dignos de um filme de Hitchcock.
Porquê um romance sobre o gueto de Varsóvia?
Queria reencontrar-me com a memória e a história de muitos dos meus familiares que um pouco por toda a Polónia foram confinados a estes espaços. Por outro lado, tinha de perceber como é que os judeus reinventavam quotidianamente formas de sobreviver a um destino de morte lenta, provocado por doenças e falta de comida.
A criação de anagramas por parte dos judeus nos guetos era uma dessas armas de defesa?
Absolutamente. E o que é curioso é que, ao recorrerem à codificação de linguagem através da alteração de localizações precisas e identidades pessoais, puseram em relevo a ideia mítica judaica do poder da palavra. É poderoso quem decifra as chaves de cada palavra.
Também não é por acaso que a personagem principal, o caçador de verdades no livro, seja psiquiatra?
Claro que não. Interessava-me que o velho Erik, ao mesmo tempo que procura saber o que aconteceu à sua sobrinha, pudesse ir questionando a verdade do que ouvia, mas também se revelasse ele próprio na sua força e na auto-análise de como se defende sozinho num mundo adverso, e de onde emana a força que o ajuda a resistir.
Não está bem sozinho, é acompanhado por Izzy, um amigo de infância. A relação deles é especial.
Izzy é homossexual e está apaixonado por Erik. Este intimida--se com a situação mas não hesita, num determinado momento do livro, em lhe beijar a mão depois de uma discussão. E Erik vai mesmo sacrificar-se para salvar Izzy: é uma relação de amizade, de amor única e que só se pode compreender e definir à luz das adversidades por que os dois passam. É isso que molda a sua relação.
A memória sobre os guetos e o Holocausto pode trair a verdade? Será que Erik, que no livro narra a sua história a Heniek para que este a publique, não a está a recriar?
Há esse risco. Mas ao recriar factos, a memória pode dar também uma gama de sentimentos pessoais que estão ausentes dos meros factos descritivos. Estamos presos num só corpo mas os segredos que podemos esconder nele são infinitos. Por isso podemos alterar e reconstruir identidades. Basta saber usar o poder da palavra. Este livro também é sobre isso.
Rui Lagartinho (jornalista RTP)
terça-feira, 6 de Outubro de 2009

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