São clássicos, foram escolhidos por Ricardo Araújo Pereira e são os livros mais bonitos que andam pelas livrarias nestes dias. A colecção de literatura humorística da Tinta da China acaba de inaugurar e traz Charles Dickens e Denis Diderot como primeiro avanço.
A aposta pode parecer arriscada, num tempo de enxurrada de “novos autores”, mas clássicos são clássicos, e embrulhados num invólucro como este são clássicos que apetece ter na estante para reler enquanto os anos passam. A ideia de criar uma colecção de literatura humorística partiu da editora da Tinta da China, Bárbara Bulhosa, inspirada pela boa recepção que a colecção de viagens, coordenada por Carlos Vaz Marques, tem conseguido. Sabendo que Ricardo Araújo Pereira é um conhecedor dos clássicos do humor, a editora desafiou-o a escolher autores e títulos, coordenando um projecto que começa com Dickens e que ninguém sabe onde irá acabar.
Inaugurando com Os Cadernos de Pickwick, de Charles Dickens, fica garantido o tom do projecto, marcado pelo humor que apela à inteligência. E o autor inglês é um bom exemplo, com a linguagem a assumir um papel essencial na definição do cómico, algo que só uma tradução com o rigor da de Margarida Vale de Gato poderia garantir. Para assegurar que as investigações dos membros do Clube de Pickwick em torno dos costumes londrinos teriam o mesmo efeito cómico em português, foi preciso ponderar, como diz a tradutora na nota inicial do livro: “se a solução mais imediata que ocorre é uma troca de /v/ por /b/, esta acaba também por ser logo descartada, visto que é inimaginável um ‘pintas’ londrino falar ‘à Porto’.”
O segundo volume, já disponível, é Jacques, o Fatalista, de Denis Diderot, numa tradução de Pedro Tamen, prefaciada por Eduardo Prado Coelho. Enquanto divaga, a pedido do seu amo, sobre amores e desamores, Jacques vai entrecortando a narrativa com a aparição de uma série de personagens e episódios caricatos. E do acto de dialogar surgirão as situações cómicas que justificam a escolha de Diderot para o segundo volume. Para o ano, chegará uma antologia de Robert Benchley, um dos escritores da New Yorker, e as incomparáveis Aventuras do Soldado Schweik, do checo Jaroslav Hasek.
O aspecto dos livros não podia ser mais adequado. Com capas duras e cartonadas e um grafismo exemplar, os volumes têm ainda a característica de não possuírem lombada, deixando à vista as costuras, como se tivéssemos nas mãos um velho alfarrábio. Bárbara Bulhosa justifica a opção: “Estes livros foram pensados para se diferenciarem, transmitindo uma imagem clássica e recuperando algumas linhas gráficas e materiais que distingam a colecção, e que a apresentem como um todo. É essa ideia de colecção, que se perdeu há uns anos, que queremos criar, um pouco à imagem do que já fizemos com a colecção de viagens.”
A decisão acertou na mouche, e mesmo que a escolha dos materiais encareça o produto final, a sua distinção, extensível ao conteúdo, compensa o investimento. No vídeo de apresentação, disponível no YouTube, Ricardo Araújo Pereira explica o pormenor da lombada de um modo ligeiramente diferente: “É um aspecto gráfico que é também um manifesto: quer dizer que a comédia é o género mais humano, e por isso faz sentido que o livro apareça com as tripas de fora.” E depois de uma pausa, assume: “Eu acabei de inventar isto. Não foi nada disto que presidiu... nós queríamos que ficasse bonitinho, e foi por isso que fizemos assim. Mas era muito giro que tivesse sido por causa daquilo das tripas.” Mais do que giro, teria todo o sentido.
A colecção é apresentada este sábado, às 17.00, na Fnac Colombo, com a presença de Ricardo Araújo Pereira, Pedro Tamen e Margarida Vale de Gato.
terça-feira, 13 de Outubro de 2009

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