David Sylvian teve uma desavença com a religião na sua forma mais institucional e o corte parece definitivo. “Small Metal Gods”, a canção que abre o seu extasiante novo álbum, é toda feita de versos como estes: “Small metal Gods/ From a casting line/ From a factory in Mumbai/ Some manual labourer’s bread and butter/ And a single-minded lie”.
Artisticamente, foi uma outra ruptura (com a Virgin, a editora que o publicou desde os dias dos Japan até ao início desta década) que serviu de ignição a uma brava nova etapa na sua carreira. Desde Blemish (2003) que Sylvian segue um caminho de libertação da linguagem pop. Um caminho de seguro abandono do passado, de despojamento sonoro, de música em equilíbrio precário; um caminho singular e que, por contraditório que isto soe, lembra cada vez mais o que Scott Walker, outro antigo ídolo mainstream na reforma, vem fazendo desde os anos 80. É proibido olhar para trás.
A maneira mais errada e redutora de apresentar Manafon, tal como Blemish, seria falar de um som “experimental” ou “abstracto”. Manafon vem cheio de canções arrebatadoras, desfiguradas mas, na essência, familiares. A voz de Sylvian tem o efeito de ondas de calor vindas do escuro; traz em si melodias que saem e vêem-se desamparadas.
Em seu redor não há mais do que ruídos a perturbar passageiramente o silêncio, piano e guitarra mexidos com hesitação, cenários industriais longínquos trazidos pelo laptop e pelo gira-discos, surtos de saxofone. O elenco instrumental de Manafon tem gente essencial da vanguarda musical dos últimos 40 anos: entre outros, John Tilbury, Christian Fennesz, Keith Rowe e, acima de todos, Evan Parker. A voz-âncora de Sylvian dá espessura aos farrapos sonoros. Os farrapos sonoros dão inquietude à voz-âncora. Ouve-se esta aventura sem se ver o chão que se pisa.
Jorge Manuel Lopes
terça-feira, 3 de Novembro de 2009

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