Foi num oitavo andar de um prédio em São Domingos de Benfica, a que Mário Zambujal chama o seu pombal, que percebemos como nasceu a paródia futurista Uma Noite não são Dias. O escritor já viu muitos futuros concretizarem-se na sua vida, e é isso que lhe dá a autoridade de imaginar mais um. Como programou esta máquina do tempo? Que contas fez para nos levar até ao ano 2044? Em dois tempos: primeiro decidi que os meus dois protagonistas, Anthony e James, iriam ter 35 anos. Depois pensei que eles tivessem um olhar retrospectivo sobre o tempo que os viu nascer, hoje. Contas feitas, chegámos a 2044. A partir daqui começa o divertimento: limitei-me a imaginar um universo, a cidade de Lisboa, onde algumas tendências actuais que já se manifestam fossem uma realidade, como a forma como as portas se abrem dizendo uma senha. Mas tudo isso é secundário, porque eu acredito que mudam os adereços mas a essência das relações humanas mantêm-se. A atracção e a traição por exemplo. Para além da brincadeira com os gadgets caricaturei tendências sociais: é por isso que no governo de 2044 são as mulheres que estão em maioria.
É curioso ser agora, com larga experiência de vida, que lhe apeteceu olhar para o futuro.
É natural. O tempo dá-nos a tranquilidade para perceber que só os brinquedos tecnológicos mudam, os homens nas suas qualidades e defeitos não se transformam assim tanto. É também por isso que a literatura do passado, no que à condição humana diz respeito, continua a caracterizar bem a alma humana. Basta ler Shakespeare.
Lida bem com máquinas?
Fascinam-me. Mas confesso que me é difícil lidar, por exemplo, com uma máquina que me vende uma sandes. Desde logo porque não lhe posso pedir que acrescente uma folha de alface.
Uma Noite não são Dias. O título remete para a noite como território da transgressão...
Sim. Embora para mim as noites fossem os dias de trabalho. Os jornais fechavam noite fora. Mas voltando ao título, ele surgiu como um trocadilho eficaz para caracterizar o comportamento de uma mulher afoita, que tudo arrisca.
Essa Lisboa nocturna dos seus dias de trabalho, com coração no Bairro Alto, é a Lisboa a que chamamos típica, castiça. Tem saudades dela?
Temos sempre saudades dos tempos da juventude. Embora a Lisboa nocturna de há 35 anos fosse uma Lisboa mais reservada, um território de adultos, coisa que hoje se alterou muito. A noite era o território sombrio. O melhor exemplo era o eufemismo para designar as prostitutas que eram então conhecidas como as mulheres da noite, contraponto das outras, as mulheres sérias, que só saíam de dia. Mas há diferenças entre ter saudade e ser saudosista: podemos ter saudades dos bailes do fim de tarde, ou dos salões de bilhar sem que defendamos que é necessário que agora regressem esses bailes ou abram 50 salões de bilhar em Lisboa.
E como reconhecemos Lisboa neste seu novo livro?
Eu acho que é através do ambiente e das atmosferas que fui criando. Aqui e ali há uma referência ao Tejo, a seguir uma outra sobre um episódio do passado. Mas só na medida em que sirvam de guia a um qualquer leitor mais distraído.
E não resiste a inventar mais um roubo de jóias. Foi um vício que ficou da Crónica dos Bons Malandros. É a sua marca de água?
É uma graça, um piscar de olho que ofereço aos meus fiéis. Para além de eu gostar sinceramente de distrair os leitores com uma paródia policial.
Por onde gosta de andar quando passeia por Lisboa?
Gosto de descobrir e de me perder em zonas por onde ando pouco. Ajuda e Marvila são bons exemplos. Quem entra, por exemplo, no Largo da Paz, na Ajuda, fica rodeado de velho casario que o transporta de imediato para a vida e a convivência típicas de uma aldeia. Gosto da ideia de que as cidades ainda se definem pela proximidade com o chão que pisamos. Em Lisboa, isso ainda é possível e por isso o triunfo da Avenida Vertical [uma torre de 98 andares imaginada no livro] ainda vai demorar.
terça-feira, 24 de Novembro de 2009

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