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Possidónio Cachapa


Alice e o Rapaz-Coelho são os dois protagonistas do novo romance de Possidónio Cachapa. Nunca se cruzam. Deliberadamente. São duas faces de um mesmo universo frio, gelado pela paisagem onde a neve não pára de cair.

De onde vêm estes dois seres?

Alice chegou a este romance vinda do Sul. Traz consigo o calor da paisagem de uma seara acabada de ceifar. Mas depois o frio, interior e exterior, acaba por dominá-la. Alice está aprisionada às memórias de um tempo em que foi feliz. O Rapaz-Coelho é um alucinado. E essa alucinação é uma forma de sobreviver num mundo que se funde na neve. A sua bóia de salvação é a atracção que sente por Miss Turtle, a rapariga-manga. Alice e o Rapaz nunca se cruzam porque são duas janelas sobre o mesmo universo que é global.

Que metáfora é esta? É actual?

É uma metáfora em branco sobre um mundo que quando muito tem apenas um pouco mais de cor. Tentei escrever uma metáfora sobre um universo povoado por pessoas que evitam a todo o custo o confronto com qualquer realidade. As pessoas movem-se em círculo sem dele quererem sair e isso nota-se a nível social, económico e cultural. O branco representa nesta paisagem o nevoeiro que não te deixa ver. A neve é branca: pura mas também mortal. Quem se deixa adormecer na neve acaba por ser coberto por um manto fatal.

O Mundo Branco do Rapaz-Coelho está dividido em 35 capítulos com sugestões tão poéticas como “O musical das dores” ou “Em como por vezes basta pôr os pés no chão”. E alguns são quase contos que se podem ler autonomamente...

É verdade. Mas eu evitei uma escrita fragmentada. Concebi o livro como um todo. Sofro muito quando escrevo e nunca sei muito bem o que estou a fazer. Os títulos dos capítulos são uma forma de respirar fundo, fazer uma pausa.

Para onde? Quando chegamos ao fim, percebemos que afinal voltámos ao princípio…

Isso decorre da estrutura dos meus livros. Neles há uma série de peças de um puzzle que vão encaixando mas há também esta sensação de um círculo que nunca se fecha: lido o último capítulo podemos prosseguir voltando ao primeiro. Tem a ver com o meu sofrimento durante o processo de escrita e a dificuldade em assumir um ponto final.

E porque é que não há neste romance famílias felizes? Não acredita nessa possibilidade?

Não é uma fatalidade. Mas é o que tende a acontecer. E além disso há os códigos da repetição: já a Elis Regina dizia através dos poetas que escreveram para ela, que somos sempre filhos dos nossos pais. Muitas vezes falhamos, logo neste primeiro círculo íntimo, a felicidade possível. As minhas famílias imaginárias são assim…

Rui Lagartinho

terça-feira, 1 de Dezembro de 2009



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