Ok, as duas caixas com a discografia completa dos Beatles, saídas em Setembro, são uma preciosidade. Uma preciosidade que custa para cima de um balúrdio mas que contém, basicamente, o bê-á-bá da música ocidental pós-2ª Guerra Mundial. E os Beatles não têm ponta de responsabilidade por todos os macacos de imitação que vêm desbaratando este legado desde os anos 70. Com um timing imaculado, os Kraftwerk chegaram precisamente em 1970, o ano em que os quatro de Liverpool foram cada um à sua vida. Daí em diante, a conclusão é simples: praticamente todas as formas de música popular mais marcantes e familiares dos últimos 35 anos (a saber: o disco-sound, o electro, a pop mais ou menos sintética, o eixo hip-hop/ r&b, o tecno) não se aproximariam da forma adquirida e do rumo tomado sem a influência da banda saída de Düsseldorf e das cabeças de Ralf Hütter e Florian Schneider.
Daí que seja perfeitamente defensável a noção de que, em 2009, o caixote compilatório The Catalogue, dos Kraftwerk, represente um acontecimento mais urgente e diga mais sobre o tempo presente do que a 86ª catalogação da obra de McCartney/ Lennon/ Harrison/ Starr. E com evidentes vantagens estéticas e económicas. Por um lado, há a questão de o sumptuoso The Catalogue custar bem menos (anda à volta dos 90€) do que as urnas dos Beatles. E depois há a beleza do objecto em si, minimal e monumental: caixa em formato tipo colecção de discos de 12 polegadas, dentro da qual se encontram, remasterizados e com capas novas e/ou “actualizadas”, os discos compactos dos oito registos de originais lançados entre 1974 e 2003 (ficam de fora os três LPs da pré-história da banda e o duplo ao vivo Minimum Maximum, de 2005). Os respectivos livretos, esses foram concebidos do tamanho dos álbuns de vinil e são obras de arte que valem por si, extravagantes e de uma imponência modernista.
O que se ouve ao ouvir estes oito álbuns de uma assentada? Ouve-se uma banda internacionalista (dizem eles e prova-o a história) num lento mas ininterrupto work in progress. Onde o som e a própria apresentação física do quarteto se moldam a cada novo pulo tecnológico. Todos os álbuns dos Kraftwerk são álbuns conceptuais, o rigor acentuando-se a partir de Computer World, de 1981. Esse álbum e mais tarde Techno Pop (o novo nome de Electric Café, de 1986) e sobretudo Tour de France (2003) são, basicamente, uma longa canção que progride em várias direcções ao longo de distintas faixas.
The Catalogue não contém tralha. Nada de faixas extra, misturas alternativas, lados b, inéditos ou versões demo. Em entrevista ao sítio Dummy em 2006, Ralf Hütter (o único sobrevivente do núcleo clássico – Florian Schneider foi-se há um ano) explicava que “nunca tivemos como método de trabalho produzir 20 faixas e depois editar apenas as dez melhores. Gravámos muito pouco. Investimos muito tempo a pensar – e também a esquecer”. É o tipo de esquecimento que ajuda a tornar estes homens-máquinas inesquecíveis.
The Catalogue
Kling Klang/EMI
quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

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