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“Nunca fui um homem, sempre fui a Carla”


Bruno Horta entrevista Carla Antonelli, uma transexual com auto-estima à prova de bala.

Ainda é difícil olhar para a questão da transexualidade como um tema importante. Mas Carla Antonelli não desiste. Lutou em Espanha pela criação de uma lei de identidade de género (relativa aos transexuais). E esteve há duas semanas na Assembleia da República para se reunir com deputados e falar sobre aquela lei.

Militante do PSOE (partido socialista espanhol), é uma das transexuais mais conhecidas do seu país e autora do Diario Digital Transexual desde há nove anos (em www.carlaantonelli.com). Começou como uma página pessoal, mas ao fim de um ano tornou-se um site informativo. Tem mais de 65 mil visitantes únicos todos os meses. “Não havia e não há nada igual em Espanha”, garante a autora. Mulher de garra, muito expansiva e enérgica, só não gosta de dizer a idade. “Tenho quarenta e muitos. Ou então escreva que eu disse que tenho uma idade incerta. Já está”, responde. E depois ri-se.

Porque é que nunca revela o nome que tinha quando era um homem?

Porque nunca fui um homem, sempre fui a Carla. Posso ter nascido biologicamente de outra forma, mas o meu cérebro sempre me disse que eu sou a Carla. Só tive de adequar o meu corpo à minha mente. E depois precisei que o Estado me reconhecesse juridicamente.

Em que idade percebeu que era uma mulher e não um homem?

Aos sete, oito anos, já sabia que era diferente, mas não sabia porquê. Estamos a falar de uma época que a informação não circulava como hoje. Aos 12, 13 anos soube que era possível mudar o corpo através de hormonas. Aos 17 anos, prostituía-me numa esquina de Las Palmas... Vou-lhe dizer uma coisa: sou uma sobrevivente do franquismo, da ditadura, e sobretudo da vida. Cheguei a estar presa por ser considerada um perigo social.

Como se tornou activista?

Foi uma questão de sobrevivência. Toda a vida fui menosprezada. Foi a participação cívica e política que me levou a ganhar dignidade e amor-próprio. Hoje sei que tenho os mesmos direitos que qualquer cidadão, porque também tenho os mesmos deveres.

Como se aproximou do PSOE?

Foi em 1997, pela mão de Cármen Cerveira, que coordenava o grupo federal de gays e lésbicas do partido. E aí tornei-me responsável pela área transexual.

Porque decidiu vir a Lisboa falar com deputados?

Através de outros activistas portugueses, como a Jó Bernardo, marcámos reuniões com deputados do Bloco de Esquerda [José Soeiro] e do Partido Socialista [Miguel Vale de Almeida]. Eles mostraram-se interessados em receber-me para falarmos sobre a experiência da aplicação da lei de identidade de género espanhola.

Que lhes disse em concreto?

Transmiti-lhes a ideia de dignidade. O programa de governo em Portugal já fala sobre o fim da discriminação em função da identidade de género, o que é fundamental. Os homens e as mulheres transexuais precisam de um bilhete de identidade que não os humilhe e lhes atribua um sexo que sintam que é o seu. Só assim podem aceder livremente ao mercado de trabalho, viajar, arrendar uma casa, fazer a vida normal.

A lei de identidade de género em Espanha existe há dois anos. Chegou a ameaçar com uma greve de fome caso o seu governo não a aprovasse. Que aconteceu ao certo?

Quando Zapatero se tornou líder do PSOE [em 2000], comprometeu-se a aprovar uma lei de identidade de género. Mas depois foi eleito e a cerca de um ano e meio do fim da legislatura não havia nada. Achei que deveria ameaçar com uma greve de fome para pressionar o meu próprio partido. Enviei um comunicado de imprensa: se o governo não se comprometesse com a lei até Junho de 2006, eu iniciaria uma greve de fome. Fui apenas um detonador. Todas as associações LGBT espanholas se puseram ao meu lado. Zapatero acabou por se comprometer. A 2 de Julho de 2006 o governo aprovou a lei. E em 2007 já era uma realidade.

Considera-a a lei mais avançada do mundo nesta matéria...

Claro, porque não implica recorrer aos tribunais, apenas ao registo civil. E com esta lei não é necessário fazer uma cirurgia aos órgãos genitais para que o Estado reconheça a pessoa como pertencente a outro sexo. A maioria das pessoas transexuais nem faz a cirurgia.

Porquê?

Há muitas razões, mas repare: ser homem ou mulher vai muito além dos genitais. Se amanhã um homem tiver um acidente e lhe amputarem o pénis, deixa de ser homem? Claro que não. Consideraria absolutamente nazi o Estado obrigar alguém a deitar-se numa mesa de operações só para lhe poder dar um bilhete de identidade correcto.

Porque é que as questões dos transexuais ainda são tão pouco visíveis?

É preciso muito trabalho, ainda: acabar com preconceitos, ganhar visibilidade, normalizar a opinião que têm sobre nós. Como sempre, aquilo de que não se fala, não existe. Tanto quanto sei, só se começou a falar a sério de transexualidade em Portugal depois do assassinato brutal de Gisberta [no Porto, em 2006]. Mas não é só em Portugal que falta fazer isto, é em todos os países. O tema é global.

terça-feira, 29 de Dezembro de 2009



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