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800 anos de poesia num só livro


Jorge Reis-Sá e Rui Lage organizaram a maior antologia de sempre da poesia portuguesa. Sara Figueiredo Costa respirou fundo e confirmou a grandeza da viagem. José Carlos Fernandes ilustrou.

É um livro de fôlego, e não apenas pelo número de páginas: 2150, um verdadeiro tijolo. Mas um tijolo que se afigura imprescindível, se não para a edificação de casas, pelo menos para a leitura transversal da imensa produção que nos faz merecer o epíteto, tão gasto e abusado, de país de poetas.

Jorge Reis-Sá e Rui Lage organizaram aquela que é a mais completa antologia da poesia portuguesa, começando pelos cancioneiros medievais e terminando no século XX, com algumas intromissões do XXI. Entre o delinear do projecto e a edição da Porto Editora, a gigantesca tarefa levou dois anos a ser concretizada e surge agora como uma espécie de bíblia, acessível a todos os leitores, sem a carga do aparato crítico que uma edição académica exigiria e com a sucessão de nomes, escolas e movimentos bem perceptível na organização cronológica. De Pai Soares de Taveirós até Pedro Mexia, sucedem-se os nomes sonantes (D. Dinis, Camões, Florbela Espanca, Pessoa, Herberto Helder) e aqueles por quem só passámos na escola, muitas vezes sem grande memória futura.

Uma antologia é sempre um gesto arriscado. Peca-se por escolher, peca-se por deixar de fora, e há sempre quem aponte ambos os pecados. O facto de esta ser uma antologia tão extensa no tempo que abarca permite que as presenças se sobreponham às ausências, compondo-se um instrumento muito útil para uma visão extensiva, mais do que um programa sobre a importância de determinado poeta ou movimento. Apesar disso, Jorge Reis-Sá não esconde a dificuldade do processo: “Foi fácil começar por excluir, mas foi penoso ter de escolher. Explico: a exclusão inicial de um corpus com o triplo, quádruplo ou mais de poetas acabou por ser um processo natural que foi implicando a soma de critérios vários – históricos, literários, de gosto, etc. A dificuldade maior foi depois escolher quais os poemas a colocar. Há poetas – vários – que poderiam ter com muita facilidade o dobro dos poemas sem prejuízo da qualidade da antologia. E, claro, voltando aos nomes: foi complicado a certa altura ter de fazer algumas escolhas de exclusões de poetas que ficaram no limbo. As escolhas são sempre mais electivas.”

A grande novidade relativamente a anteriores antologias é a presença integral do século XX, o que justificou, por parte dos organizadores, critérios diferenciados. Se os séculos anteriores já foram várias vezes representados em escolhas similares, o século que há pouco terminou nunca tinha surgido integrado numa visão tão ampla como esta, o que justifica o desequilíbrio numérico: 143 poetas do século XX para 124 de todos os séculos anteriores. Pode parecer que encerrámos, entre 1900 e 1999, a nossa melhor colheita poética de sempre, mas Jorge Reis-Sá explica de outro modo a predominância dos últimos cem anos: “O critério baseou-se mais na inexistência de uma antologia representativa do século XX – sendo esta a primeira, como dizemos na introdução – do que em critérios judicativos nesse aspecto.” Quanto à excepcionalidade do século que leu Pessoa ou Cesariny pela primeira vez, o antologiador não tem estados de alma: “Acho que há séculos melhores e séculos piores, como há poetas melhores e poetas piores, como há movimentos ou facções melhores e piores. Tudo pode ser visto dessa maneira, claro. Mas não é nossa intenção fazer esse juízo sobre séculos, autores ou movimentos.”

Para além das escolhas de Reis-Sá e Lage, a antologia conta com a participação de mais de duas centenas de críticos, académicos e especialistas que assinaram os verbetes correspondentes a cada um dos autores, contribuindo para o carácter didáctico e de referência que o volume assume e que os leitores podem conferir através da longa viagem que as suas páginas encerram. Da próxima vez que ouvir falar do país de poetas, socorra-se do tijolo: está cá quase tudo.

Poemas Portugueses: Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI
Organização de Jorge Reis-Sá e Rui Lage
Porto Editora, 60€

terça-feira, 19 de Janeiro de 2010



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