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José Carlos Fernandes passou uma temporada a ir a Bayreuth com Hitler e a caçar patos com Franco em duas biografias. E deixa um aviso: cuidado com os homenzinhos ridículos e medíocres.

Estique o braço direito num ângulo de 45º com a horizontal. Meta a barriga para dentro. Componha uma expressão determinada. Agora grite: “Heil Schicklgruber!”. Não funciona, pois não? Ainda por cima, Schicklgruber é um nome que, na Áustria e Alemanha, tem conotações rústicas, pouco condizentes com o líder de um Império de Mil Anos. Se o funcionário alfandegário Alois Schicklgruber não tivesse decidido, em 1876, mudar o seu nome para Alois Hitler, talvez o seu filho Adolf não tivesse ido mais longe do que as cervejarias de Munique e até nem tivesse rebentado a II Guerra Mundial.

Os primeiros 25 anos da vida de Hitler não deixam antever o que se seguiria: escassa educação formal (a meio da adolescência abandonou por sua vontade a escola, onde foi aluno medíocre), auto-educação rudimentar baseada em jornais populistas e romances de cordel e onde só destoa o fascínio por Wagner, rejeitado pela Academia de Belas Artes de Viena onde sonhara tornar-se pintor ou arquitecto. Desbaratado o dinheiro esmifrado à família em pequenos luxos e vogando num quotidiano de ócios e sonhos megalómanos, Hitler foi descendo os degraus da abjecção e tornou-se (por inércia, não por golpe do destino) um sem-abrigo na féerica Viena.

A I Guerra Mundial veio dar algum rumo à vida deste farrapo: a condição de carne para canhão (primeiro como soldado raso, depois como cabo) nas trincheiras da Flandres representou uma ascensão por comparação com os anos negros de Viena. Mas até 1919 nada indiciava que este “homem sem qualidades” incubava o líder de massas por excelência. É irónico que alguém que fora tão retintamente abúlico fosse imortalizado por um filme intitulado O Triunfo da Vontade.

Ian Kershaw, um dos maiores especialistas no III Reich, ergueu uma colossal biografia em dois volumes e 2000 páginas, a partir da qual extraiu esta versão “amiga do leitor” com “apenas” 850 páginas. A síntese é eficaz, retendo o essencial e descartando detalhes destinados a especialistas. Sente-se a falta do lado íntimo de Hitler – não é por aqui que fica a saber o que comia o Anticristo ao pequeno-almoço – mas a lacuna vem do original.

O caudilho

Passemos a um mais modesto mas não menos improvável tirano. “Caudilho pela graça de Deus” era o que podia ler-se junto à efígie de Franco nas moedas que este fez cunhar no final dos anos 40. Na ascensão de Franco, o papel de Deus é incerto, mas não lhe faltou sorte e matreirice.

A 14 de Julho de 1936, após as hesitações que eram nele uma segunda natureza, o general Franco decidiu juntar-se à revolta nacionalista. Estava em Tenerife e deveria dirigir-se a Marrocos para assumir o comando do Exército de África. Porém, o avião que o deveria levar fora forçado pelo nevoeiro a aterrar na Gran Canaria. E Franco, que acabara de vir da Gran Canaria, não tinha pretexto para lá voltar sem infringir ordens superiores. Com extraordinário sentido de oportunidade, o comandante militar da Gran Canaria, um atirador experiente, morreu num “acidente” na carreira de tiro, quando tentava desencravar um revólver. Franco apresentou-se no funeral do camarada de armas – e ala para Marrocos.

A 20 de Julho, o general Sanjurjo, designado Chefe de Estado pelos revoltosos, descolou do Estoril em direcção a Burgos mas não passou dos pinheiros ao fundo da pista. A causa apontada para o sinistro foi excesso de bagagem. A 20 de Novembro, José Antonio Primo de Rivera, líder da Falange, foi fuzilado pelos republicanos – dizem as más-línguas que Franco não se esforçou muito por obter a sua libertação. A 3 de Junho de 1937, o general Emilio Mola, líder da insurreição nacionalista, revelou séria falta de originalidade ao perecer num desastre de avião. E foi assim que o poder caiu nos braços de um baixote, pançudo e de voz aflautada, que ficara em 251º lugar entre os 312 cadetes do seu curso e nem quisera participar na sublevação. E não é que em Maio de 1967 a criatura ganhou um milhão de pesetas no Totobola? Se isto não é leiteira não sei o que seja.

Franco, a biografia de Michael Streeter, sintética e clara, é uma boa introdução a Franco – são só 190 páginas, mas bem preenchidas. Tem engulhos menores – a grande derrota germânica de Fevereiro de 1943 na frente russa ocorreu em Stalinegrado, não em Leninegrado (pg.113) – ficando os maiores a cargo da edição portuguesa, que mandou fuzilar o índice remissivo. O de Hitler foi compactado de 56 para sete páginas e serve de pouco.

terça-feira, 26 de Janeiro de 2010



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