Há um ano, Ruben de Carvalho – autarca de Lisboa pelo PCP, programador da Festa d’O Avante e conhecedor profundo da música de intervenção, da canção de protesto e da folk britânica e norte-americana – dedicou o primeiro Ciclo Hootenanny ao bluegrass, a folk branca nascida nos Apalaches, inspirada na música irlandesa e escocesa e formadora de boa parte da country music. Em 2010, o destaque do segundo Hootenanny – que decorre na Culturgest durante esta semana e a próxima – vai para os blues, a grande música negra nascida no séc. XIX nos campos de algodão do delta do Mississippi. De facto, foi principalmente nos campos de algodão, mas também nas prisões e nas obras dos caminhos-de-ferro, que os escravos de ascendência africana começaram a desenvolver uma forma musical que ficaria conhecida como blues, género fundamental no nascimento e desenvolvimento futuro do jazz e do... rock’n’roll. Mas se os blues se desenvolveram no sul dos Estados Unidos, as suas raízes mais distantes podem ser encontradas no antigo império mandinga da África Ocidental, tal como provado no histórico livro The Roots of The Blues, de Samuel Charters. Mais propriamente na arte dos griots, os trovadores que serviam os reis tribais e, andando de aldeia em aldeia, transmitiam a memória dos seus povos.
Foi só mais tarde, já no século XX, que os blues se espalharam por outras zonas dos Estados Unidos. Robert Johnson levou o género a vários estados, saltando de comboio em comboio. Os temas foram editados por pequenos e grandes selos discográficos, recolhidos na origem por musicólogos como Alan Lomax, e sofreram a sua maior evolução em Chicago, electrificando-se. Tudo isto – e muito mais – está bem explicado no primeiro episódio da genial série The Blues (realizado por Martin Scorsese, também produtor de toda a série), que tem como protagonista... Corey Harris, o nome que inaugura este segundo Hootenanny e que actua, sábado, na Culturgest.
Nesse filme, vê-se Corey Harris a aprender os blues dos mais velhos, a viajar até ao Mali (onde fala, entre outros, com Ali Farka Touré) e a revelar o amor imenso que ele tem por este género musical. Um amor que, por ser tão grande, não se fecha nos blues, antes o levando a outras músicas que lhe são próximas: da África Ocidental ou, mais recentemente, da Jamaica. E é nesta nova vertente, acompanhado pelos The Rasta Blues Experience, que actua em Lisboa.
O ciclo continua na segunda-feira, com a apresentação de documentários e gravações de um dos nomes fundamentais dos blues, Josh White, devidamente enquadrados pelo seu filho – e outro nome maior do género –, o guitarrista Josh White Jr.; o mesmo que um dia depois dará um concerto em nome próprio, acompanhado pelo contrabaixista João Custódio.
António Pires
terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

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