Os protestos dos enfermeiros que não querem ganhar menos atravessaram a Praça do Camões enquanto conversávamos com valter hugo mãe sobre o seu novo romance, a máquina de fazer espanhóis. Coincidiu com o momento em que o escritor nos explicava que na vida de um romancista é possível aproximarmo-nos da velhice e da morte sem sairmos derrotados.
De que modo é que acha que um sueco entenderá um romance português que se chama a máquina de fazer espanhóis? Que retrato tira de Portugal?
Um país de gente boa que atravessou dificuldades penalizadoras, que lida todos os dias com os estilhaços de uma mentalidade castradora mas que é um país de um povo que se vai safando e que tende a melhorar. Ciclicamente temos momentos de glória: foi o que aconteceu com o 25 de Abril. Evoluímos muito ao nível da miséria mental.
Como tratou a velhice enquanto facto concreto?
Misturei-a com os sentimentos. O meu processo de criação passa pela intensificação emotiva das personagens, tornando-as, dessa forma, reais. No arranque há uma ideia que depois é preenchida pela força das personagens.
Que memórias trazem estes velhos para o lar feliz idade?
Nós nunca nos lembramos de como as coisas se passaram: lembramo- -nos de como nos lembramos. A memória também é fantasia. E é por isso que eu, nos meus livros, entro em universos em que a realidade se desliga: sonhos, alucinações. As personagens ficam completas com estes delírios: abutres, cortinas brancas, janelas abertas, as máquinas que ensombram de noite os velhos, a personagem que neste livro sai directamente do poema Tabacaria de Fernando Pessoa.
E como é que consegue não perder o rumo?
A mim não me interessa a alienação pela alienação. Cada vez mais acho que os livros têm de humanizar o leitor.
Mergulhar no mal e conseguir sair dele? É isso?
O mal é o motor da literatura, mas nunca me esgotarei nessa auto-complacência. Até no Marquês de Sade há uma moral que se esconde por detrás do sadismo.
Acredita no triunfo da bondade?
Acredito nas pessoas. Acho que vale a pena ficarmos frustrados e magoados com algumas pessoas, se isso for a moeda de troca para acreditarmos nas outras.
Tem fé no homem. E em Deus?
Acredito na espiritualidade e nos ensinamentos cristãos, mas não me revejo na igreja instituição. Não me pode pedir esmola quando tem mais dinheiro que eu.
Ao aproximar-se, através destes velhos, do desaparecimento físico de alguém, não o frustrou não encontrar solução para este mistério que é o nosso fim?
Aproximei-me de um fim de ciclo: o nosso reino é sobre uma criança de oito anos, em o remorso de baltazar serapião o protagonista tem 19 anos, em o apocalipse dos trabalhadores dou voz a uma senhora de 40 anos, em a máquina de fazer espanhóis o antónio silva tem 84 anos. Este fim de percurso marcou-me enquanto homem e enquanto romancista. Lembrei-me sempre do meu pai, que não conseguiu ser velho. Sofri até chegar aqui. Por isso, sinto que agora pelo menos ganhei o direito a ter a liberdade de deambular.
Com este título, este livro é uma ajuda dos portugueses ao aumento da taxa demográfica espanhola?
O enfraquecimento persistente das nossas coragens frustra-me, aborrece-me. Identifiquemos o problema e decidamo-nos de vez sobre o que queremos ser, em vez de passarmos a vida tentados a dizer algo – “Quem me dera ser espanhol” – de que depois nos arrependemos e que nos obriga a lavar a boca a toda a hora. Eu fico do lado de cá.
terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

Veja também


O que pensa? Coloque a sua opinião