Depois do torpor do Natal e do fim do ano, precisávamos de um livro que apontasse ao futuro. A máquina de fazer espanhóis, primeiro acontecimento literário português de 2010, é uma excelente bússola. E valter hugo mãe consegue que nele acreditemos, não porque nos dá palmadinhas nas costas, mas antes porque nos deixa dobrados com alguns murros no estômago. Neste seu novo romance, um silva, que também é antónio, aos 84 anos, vive rodeado de muitos silvas numa espécie de armazém igual àqueles onde guardamos os silvas do país. A partir daí o silva safa-se – safa-nos – porque um dia acreditou no amor e tem disso memória. À medida que o protagonista deixa de ser bruma, reconhecemos Portugal mais do que qualquer outro sítio, embora se saiba que isto de ficar velho é coisa universal.
Este é o quarto romance do autor e há aqui um afinar de estilo, uma depuração que assusta por ser tão assertiva em relação às nossas fatalidades: “fomos sempre um povo de caminhos salgados. ainda somos um povo de caminhos salgados. isto é coisa para nos amargar o sangue…”
A máquina de fazer espanhóis é um livro de fazer lágrimas, mas também alguns sorrisos, pois só assim a catarse de um optimista se torna eficaz.
E valter hugo mãe é-o. Um romance que é um porto de abrigo e uma escala antes de nova partida. Útil para homens de escritório, poetas, marinheiros e todos os outros.
Rui Lagartinho
terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

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