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A Princesa e o Sapo


A Disney regressou ao desenho animado e Luís Salvado acha que já não era sem tempo.

Para além do seu valor intrínseco enquanto filme de animação, A Princesa e o Sapo chega às salas de cinema com uma bagagem suplementar: a de ter a obrigação de validar junto da indústria que o desenho animado continua a ser uma forma tão rentável de animação como a feita por computador. Ou seja, que numa era de Shrek e de A Idade do Gelo, ainda há espaço para filmes como Pinóquio ou A Bela e o Monstro.

E para fazer isso, o estúdio do rato Mickey não se poupou a esforços: foi buscar para a realização John Musker e Ron Clements, responsáveis por A Pequena Sereia e Aladdin, e regressou a duas das tradições mais fortes da casa, o filme de princesas e o musical de inspiração Broadway.

Dito isto, há que dizer que, apesar do que está em jogo, o estúdio não seguiu pelo caminho mais fácil. Por um lado, há a questão da raça: o filme passa-se em Nova Orleães a seguir à Primeira Guerra Mundial, durante a emergência do jazz, e a protagonista, Tiana, é negra.

Depois de terem dado à luz heroínas índias (Pocahontas), chinesas (Mulan), árabes (Jasmine em Aladdin) ou ciganas (Esmeralda em O Corcunda de Notre Dame), criar uma afro-americana não deveria ser muito problemático... se o filme não fosse norte-americano e a questão racial no que diz respeito aos negros não fosse por lá sempre tratada com mais pinças que todas as outras. Por outro lado, a história da princesa que beija um sapo que se revela um príncipe encantado não só tem muito pouco a ver com a popularizada pelos irmãos Grimm como dá uma reviravolta talvez demasiado grande ao original: aqui a heroína transforma-se em sapo ao beijar o príncipe e passam ambos o filme a tentar reverter à forma humana.

Finalmente, a fita arrisca dar um passo em frente no tratamento de temas mais complexos.

O tema do pedir o desejo a uma estrela como peça fundamental da concretização do sonho, tão simbólico da Disney, é aqui complementado com a necessidade de lhe acrescentar trabalho duro. Depois, a heroína não anseia por um príncipe ou uma vida noutro lugar mas sim por algo mais banal: ter um restaurante. A questão da segregação racial da época também não é deixada de lado e, de forma discreta, vemos que os negros se sentam na parte de trás dos electricos e vivem em condições precárias. E o próprio desenvolvimento final da personagem do besouro Ray é algo que exige uma boa dose de coragem.

O resultado disto tudo é um filme encantador mas não isento de desequilíbrios. Visualmente é magnífico e tem um colorido de entrar pelos olhos dentro, a animação é excelente, os número musicais são divertidos embora não memoráveis, e o argumento só perde pela duração excessiva que os protagonistas passam como sapos. Veremos se o tempo faz dele um clássico, mas para já é desanimador pensar que o penoso Alvin e os Esquilos 2 já facturou mais do dobro nas bilheteiras.

terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010



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