Cúmplice de Camané e de Carlos do Carmo, José Manuel Neto sempre se manteve na sombra, mas esta sexta cabe-lhe inaugurar a série de cinco espectáculos “Sexta, Meia Noite e Uma Guitarra”.
Apesar de toda a fama que o acompanha, quando colocamos o seu nome no Google aparece uma página do MySpace, uma página do Facebook…
… e desactualizada.
… e desactualizada. E de resto só fichas técnicas, tipo: “na guitarra portuguesa, José Manuel Neto”.
É o que tenho feito toda a vida.
Mas porque é que faz questão de dar tão pouco nas vistas?
Eu sou um bocado fugidio.
O lado de solista nunca o atraiu?
Não é bem atrair, tem a ver com a quantidade de trabalho, com o gravar com muita gente. Mas acredito que vou começar a trabalhar mais nesse sentido. Até porque cansa fazer sempre a mesma coisa. Não tenho ainda material suficiente, mas estou a pensar gravar um disco só de guitarra portuguesa e viola.
Numa conversa com a Aldina Duarte ela disse-me que você lhe pede sempre a letra dos fados que vai tocar.
É fundamental um guitarrista conhecer as palavras que acompanha. Se não tivermos atenção à letra corremos o risco de estar a falar de dor e a fazer um ornamento na guitarra muito jovial. Não faria qualquer sentido.
Existe espaço para um guitarrista de fado criar enquanto acompanha?
Sim, existe. Mas é uma coisa muito espontânea. Tem tudo a ver com a vivência que temos do instrumento, com aquilo que sentimos na altura, e com a nossa criatividade, claro. Posso já ter tocado o mesmo fado 20 vezes com pessoas diferentes e toquei-o 20 vezes de forma diferente. Não há uma introdução igual, um separador igual, uma ornamentação igual, porque cada uma daquelas pessoas tem uma forma individualizada de cantar o fado. Nunca toco o mesmo fado da mesma forma duas vezes.
Como é que se deu a sua aproximação ao fado?
Da forma mais tradicional possível: a minha mãe [Deolinda Maria] era fadista. Tenho guitarra desde os 12 anos, mas na altura não tocava. Só que a minha mãe empurrou-me, pedia-me para tocar músicas na guitarra, e o bichinho foi ficando. Dizia sempre “ah, o meu filho toca tão bem”. E eu só sabia duas músicas, que tocava muito mal. Tinha imensa vergonha que ela dissesse aquilo ao pé dos colegas.
E depois?
Aos 15 anos comecei a tocar nos bairros, com regularidade, e por volta dos 16, 17 anos já estava a tocar em casas de fado, a fazer substituições de guitarristas quando eles não podiam aparecer.
Utiliza unhas artificiais para tocar guitarra?
Sim, claro. Mas no polegar não uso.
O que é que acontece se essa sua unha enorme se parte?
É uma desgraça. É preciso fazer uma unha de plástico. Mas é difícil e depende por onde ela quebrar. Se a unha partir mesmo rente é quase impossível substituí-la.
Bom, pelo menos tem uma óptima desculpa para não lavar a loiça em casa.
Pois tenho (risos). Aliás, tenho duas boas desculpas: a mão esquerda também não pode apanhar água, porque os calos dos dedos desaparecem e é uma chatice.
José Manuel Neto toca sexta-feira no São Jorge, tendo Camané como voz convidada.
terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

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