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Nascido para acompanhar


No meio do fado toda a gente diz que o guitarrista José Manuel Neto é “o” acompanhante. Haverá outros mais virtuosos – como Ricardo Rocha –, mas nenhum acompanha o fado com tanto requinte, imaginação e contenção.

Cúmplice de Camané e de Carlos do Carmo, José Manuel Neto sempre se manteve na sombra, mas esta sexta cabe-lhe inaugurar a série de cinco espectáculos “Sexta, Meia Noite e Uma Guitarra”.

Apesar de toda a fama que o acompanha, quando colocamos o seu nome no Google aparece uma página do MySpace, uma página do Facebook…

… e desactualizada.

… e desactualizada. E de resto só fichas técnicas, tipo: “na guitarra portuguesa, José Manuel Neto”.

É o que tenho feito toda a vida.

Mas porque é que faz questão de dar tão pouco nas vistas?

Eu sou um bocado fugidio.

O lado de solista nunca o atraiu?

Não é bem atrair, tem a ver com a quantidade de trabalho, com o gravar com muita gente. Mas acredito que vou começar a trabalhar mais nesse sentido. Até porque cansa fazer sempre a mesma coisa. Não tenho ainda material suficiente, mas estou a pensar gravar um disco só de guitarra portuguesa e viola.

Numa conversa com a Aldina Duarte ela disse-me que você lhe pede sempre a letra dos fados que vai tocar.

É fundamental um guitarrista conhecer as palavras que acompanha. Se não tivermos atenção à letra corremos o risco de estar a falar de dor e a fazer um ornamento na guitarra muito jovial. Não faria qualquer sentido.

Existe espaço para um guitarrista de fado criar enquanto acompanha?

Sim, existe. Mas é uma coisa muito espontânea. Tem tudo a ver com a vivência que temos do instrumento, com aquilo que sentimos na altura, e com a nossa criatividade, claro. Posso já ter tocado o mesmo fado 20 vezes com pessoas diferentes e toquei-o 20 vezes de forma diferente. Não há uma introdução igual, um separador igual, uma ornamentação igual, porque cada uma daquelas pessoas tem uma forma individualizada de cantar o fado. Nunca toco o mesmo fado da mesma forma duas vezes.

Como é que se deu a sua aproximação ao fado?

Da forma mais tradicional possível: a minha mãe [Deolinda Maria] era fadista. Tenho guitarra desde os 12 anos, mas na altura não tocava. Só que a minha mãe empurrou-me, pedia-me para tocar músicas na guitarra, e o bichinho foi ficando. Dizia sempre “ah, o meu filho toca tão bem”. E eu só sabia duas músicas, que tocava muito mal. Tinha imensa vergonha que ela dissesse aquilo ao pé dos colegas.

E depois?

Aos 15 anos comecei a tocar nos bairros, com regularidade, e por volta dos 16, 17 anos já estava a tocar em casas de fado, a fazer substituições de guitarristas quando eles não podiam aparecer.

Utiliza unhas artificiais para tocar guitarra?

Sim, claro. Mas no polegar não uso.

O que é que acontece se essa sua unha enorme se parte?

É uma desgraça. É preciso fazer uma unha de plástico. Mas é difícil e depende por onde ela quebrar. Se a unha partir mesmo rente é quase impossível substituí-la.

Bom, pelo menos tem uma óptima desculpa para não lavar a loiça em casa.

Pois tenho (risos). Aliás, tenho duas boas desculpas: a mão esquerda também não pode apanhar água, porque os calos dos dedos desaparecem e é uma chatice.

José Manuel Neto toca sexta-feira no São Jorge, tendo Camané como voz convidada.

terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010



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