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Pintor, poeta, surrealista, homossexual


Bruno Horta já viu o documentário sobre Cruzeiro Seixas que se estreia esta semana.

“As mãos tremem, os olhos não vêem”, lamenta Cruzeiro Seixas, de 89 anos, pintor e poeta, um dos últimos sobreviventes do movimento surrealista português. A muita arte que já fez, e a pouca que vai conseguindo fazer, são o fio condutor do documentário Cruzeiro Seixas: O Vício da Liberdade, com argumento do jornalista da RTP Alberto Serra, de 52 anos, e realização de Ricardo Espírito Santo, 49 (da produtora privada Terra Líquida).

Mas não é só da obra que se fala. No meio dos 50 minutos de filme, também a sexualidade está em evidência. Ou não fosse Cruzeiro Seixas um libertino com convicção, homossexual assumido desde a juventude.

A antestreia do documentário acontece esta quarta-feira, 3, na Sala Visconti da Fábrica de Braço de Prata, às 21h30. A estreia em televisão será na RTP2, este sábado, 6, às 21h00. Inclui imagens inéditas do poeta-pintor Mário Cesariny (1923-2006), registadas em Dezembro de 2004 no Museu da Cidade, quando da inauguração da retrospectiva que lhe foi dedicada.

Cesariny fala com ironia e humor sobre a forma como foi perseguido pelo Estado Novo – por ser homossexual. “Um dia disse à polícia para parar de me perseguir porque já toda a gente sabia o que eu fazia e com quem fazia. Pediram nomes. Respondi que muitas vezes era no escuro do cinema e nem lhes via a cara, quanto mais saber o nome”. É com este depoimento que o tema se instala no documentário. Cruzeiro Seixas comenta a seguir: “O meu comportamento é diametralmente oposto ao do Mário. Ele dava nas vistas, era um princípio dele. Mas o Mário é genial, eu não.”

Os autores do documentário justificam o tratamento deste aspecto da intimidade. “Seria estranho não abordar um tema que está tão evidente na sua obra, através, por exemplo, dos constantes objectos fálicos”, diz Ricardo Espírito Santo à Time Out. “Não quisemos sobrevalorizar a questão da homossexualidade”, acrescenta Alberto Serra. “Não porque fosse tabu para nós, mas porque essa abordagem teria de ser feita com dignidade e acho que o conseguimos.”

Artur Manuel Rodrigues do Cruzeiro Seixas nasceu na Amadora e estudou em Lisboa, na Escola de Artes Decorativas António Arroio. “Com os professores não aprendi nada, nada. Tudo o que aprendi foi com os colegas”. É aí que conhece Cesariny. “Foi o princípio de tudo”. Com Cesariny e outros formou, nos anos 40, o grupo Os Surrealistas, dissidente do Grupo Surrealista de Lisboa. Entre 1952 e 1964 viveu em Luanda. Depois regressou.

O documentário foi gravado em tempo recorde: duas semanas, em Dezembro último. Tem entrevistas, feitas em vários dias, com Cruzeiro Seixas, imagens de arquivo da RTP, fotos nunca mostradas em televisão e depoimentos de Rui Mário Gonçalves (crítico), Júlio Pomar (artista plástico), Perfecto Cuadrado (especialista em Surrealismo), Bernardo Pinto de Almeida (historiador) e Alfredo Margarido (poeta e pintor) – além do de Cesariny.

Depois das duas exibições previstas, os autores planeiam uma edição em DVD.

terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010



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