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Se a cantiga é uma arma, isto é um arsenal


José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto Bordalo Dias juntam-se num dos concertos mais ansiados do ano. Jorge Manuel Lopes (texto) e Gonçalo F. Santos (foto) assistiram aos ensaios de Três Cantos.
 


No momento em que a Time Out os encontra ainda falta mais de uma semana para o início da série de concertos Três Cantos, mas uma coisa é mais do que certa: José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto Bordalo Dias já chegaram ao Nirvana. Mais concretamente, ao complexo de salas de ensaio Nirvana Studios, na Estrada Militar de Barcarena, com o seu parque de estacionamento repleto de camiões de tamanho familiar, mais um autocarro escolar amarelo à americana e mãos cheias de bizarrias vintage de quatro rodas.

É neste surreal paraíso asfaltado que três dos mais importantes, carismáticos e influentes escritores de canções portugueses das últimas quatro décadas vão preparando, com mais 21 músicos, os espectáculos históricos que os colocarão lado a lado no mesmo palco, partilhando músicas.

Mas neste fim de tarde de Outono em que o sol torra como se fosse Agosto, a equipa de instrumentistas que se reúne num dos armazéns-sauna resume-se ao septeto base, disposto em quadrado à frente de Dois dos Três Cantos. Fausto escapou do Nirvana no instante em que ali chegámos – o autor de Por Este Rio Acima ainda se recompunha de uma cirurgia ocular.

Ausente em corpo mas presente em arte: José Mário Branco e Sérgio Godinho ensaiam o tema “Rosalinda”, vão acordando sobre quem canta o quê, alguns músicos reclamam amigavelmente da lentidão rítmica da versão, os cantores concordam, faz-se um intervalo para hidratação geral e, no regresso, lançam-se numa versão de alta densidade rítmica de “A Barca dos Amantes”, que Godinho fez a meias com Milton Nascimento. É a primeira vez que José Mário Branco entra nesta canção com este arranjo; discute-se o papel de alguns instrumentos, hesita-se, testam-se novas soluções.

Segue-se, depois, para “Guerra e Paz”, também de Sérgio Godinho, e percebe-se que este tema vai num estado de adaptação mais avançado, pelo que se retorna a “Rosalinda”. O pedaço de ensaio aberto à imprensa conclui-se com “O Charlatão” e o simbolismo da coisa é inescapável: a canção foi escrita por Godinho e José Mário Branco e está nos álbuns de estreia de ambos, lançados em 1971. E isto é quase tudo o que se saberá sobre o alinhamento das noites no Campo Pequeno: quatro canções num programa que rondará os 30 temas e incluirá somente uma cantiga exterior ao trio (uma composição “pouco conhecida” de José Afonso, “de quem nos consideramos filhotes”, afirma José Mário Branco) e um inédito, de seu nome “Faz Parte”. A ideia é manter o segredo à volta do recheio das noites Três Cantos até ao espectáculo inaugural.

“Estamos a divertir-nos”. Músicos dispensados, cadeiras puxadas até junto dos jornalistas, José Mário Branco acende a cigarrilha e abre a garrafa de água. Ao seu lado, Sérgio Godinho mantém-se fiel ao copo de vinho tinto que o acompanhou durante o ensaio. Quando nasceu o projecto Três Cantos? Godinho: “A ideia original, do Zé Mário, surgiu há uns sete anos, mas essa não era a altura ideal para mim, porque tinha discos meus a sair. Este ano fui eu que voltei à carga e encontrámo-nos os três, almoçámos, fomos partindo pedra e mandando ideias para a mesa.”

“Somos três pessoas com carreiras próprias”, justifica José Mário Branco. “Além disso, temos uma relação bem distinta com a música. Mas agora, quando veio o sinal do Sérgio, largámos tudo. O Fausto, inclusive, interrompeu a conclusão do terceiro disco da trilogia dele, que está quase pronto e sai para o ano.” E remata, com satisfação: “Isto pica muito.”

A escolha das canções entre um espólio tão vasto respondeu ao único critério sensato: “Tinha de haver paixão mútua pela música”, explica o autor de “F.M.I.”. Para tal, sucederam-se as reuniões em casa de Fausto e de Godinho, onde iam comendo, bebendo e peneirando “o figurino, o repertório e os músicos”. Os três autores embrenharam-se nas cantigas uns dos outros, daí resultando um esqueleto de espectáculo que se promete “dinâmico” e com todas as variantes possíveis de interacção do trio. Três Cantos conterá canções antigas e recentes. “Os nossos universos não são assim tão distantes”, sublinha Sérgio Godinho. “Todos temos momentos muito fortes e momentos introspectivos. Além disso, há um olhar comum sobre o exterior, sobre o amor, sobre a sociedade.” José Mário Branco: “Não gostamos de como está o mundo, da crueldade reinante. As pessoas andam pessimistas e temos a sensação quase palpável de que estes espectáculos são como um balão de oxigénio.” Godinho não vê as coisas de uma forma tão cor de chumbo. Branco insiste: “Os concertos são bons de um ponto de vista terapêutico.” Godinho regista em acta: “Não estou de acordo.”

“Isto está-me a dar um gozo enorme”, prossegue José Mário Branco. “Passámos tardes inteiras, exaltantes”, em redor das canções do trio, montando minuciosamente o esqueleto dos concertos; ou, como Branco gosta de descrever, “chupando os ossinhos à codorniz. O Fausto é um brilhante executante da viola, e houve outra coisa de que gostei imenso: aprender a cantar e a tocar canções deles de que sempre gostei.”

Antes de Sérgio Godinho se levantar e dar por concluída a mini-conferência de imprensa improvisada, José Mário Branco ainda recorda, em tom reprovador, que “quando falámos nisto pela primeira vez há sete anos, vi produtores discográficos com cifrões nos olhos”. Godinho acha essa cobiça editorial normalíssima. Tão normal que os concertos que aí vêm serão registados para lançamento em CD e DVD. Se tudo correr bem, serão um documento precioso de um encontro histórico que poderá levar músicos e público ao nirvana.

José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto Bordalo Dias vão ao Campo Pequeno na quinta e sexta-feira.



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