“Para já queremos dar a conhecer o prémio que vai existir daqui a um ano, o Prémio Aguardela. Daqui a um ano é que se vai seleccionar e encontrar pessoas, músicos, bandas que estejam dentro destes parâmetros para poderem concorrer. Este espectáculo vai ser só para anunciar o prémio.”
Este “só” enunciado por Sandra Baptista é para ser tomado com uma generosa pitada de sal. É um “só” que remete para o que vai acontecer hoje às 21.00 no Centro Cultural de Belém e que traz um título que explica quase tudo: “Megafone 5 – Música para uma Nova Tradição: Homenagem a João Aguardela”. “Megafone 5” remete para os quatro discos do projecto Megafone lançados por Aguardela entre 1997 e 2005, lembrando ainda que o projecto tinha a dimensão sonhada de cinco álbuns – sonho cancelado com a morte do seu criador a 18 de Janeiro deste ano. Os quatro discos que viram a luz do dia são uma amálgama de folia, estilhaços de tradição musical popular portuguesa e geometria e ferramentas tecnológicas.
São, também, os momentos mais inspirados e singulares da carreira de um músico, cantor e compositor que saltou de chofre para a ribalta com os Sitiados (onde se juntaria a Sandra Baptista, na música e no resto) ainda na década de 80, passou fugazmente pela Linha da Frente e, nos últimos anos, se dedicou a dar corpo de canção pop ao fado através d’A Naifa.
Estes últimos (ou o que deles sobra), mais os Dead Combo, OqueStrada e Gaiteiros de Lisboa formam o cartaz desta noite no CCB.
“O repertório está em aberto”, avisa Luís Varatojo, que se deu a conhecer de guitarra eléctrica em riste com os Peste & Sida e Despe e Siga, juntando-se a Aguardela na Linha da Frente e n’A Naifa. “As bandas foram convidadas para o espectáculo de homenagem, aderiram, mas não sabemos, nem queremos saber, o que é que cada um vai fazer. Cada grupo tem meia hora, o palco é livre. Era isso, de certeza, que o João quereria. Quase todos estes grupos já são um bocado Megafone, já representam uma atitude e uma acção sobe a música portuguesa.”
Mas Luís Varatojo e Sandra Baptista acreditam que existem outros pedaços de Megafone por Portugal afora. Pedaços por enquanto anónimos mas que a jovem Associação João Aguardela quer revelar através do prémio anual, monetário, que será dado a conhecer no CCB.
“Não sabemos” de ciência exacta quantos projectos de mutação e revisão contemporâneas das raízes sonoras portuguesas se escondem por essas salas de ensaio, admite Varatojo, “mas o que eu sei é que às vezes há coisas que não conheces e que não são divulgadas. Por outro lado, estamos com a esperança de que, havendo um prémio e esta força de trabalho à volta disto, divulgando [o prémio], pode dar um impulso a quem está a fazer música ou a quem ainda tem dúvidas se deve fazê-la.”
A sede da Associação João Aguardela está à mão de todos: em www.aguardela.com, além de biografia, fotos e recortes de imprensa, é possível ouvir e/ou descarregar (capas incluídas) gratuitamente os quatro álbuns Megafone. “Também lá temos um sector chamado ‘O Megafone de...’, onde as pessoas podem contribuir com textos, ou contos, numa perspectiva para-João-Aguardela”, acrescenta Sandra Baptista. “Neste momento temos lá quatro contos, de um poeta e de três jornalistas, e a ideia é receber mais material, inclusive em vídeo.”
“Mas o principal é mesmo disponibilizar aqueles quatro discos”, reforça Luís Varatojo. “São completamente desconhecidos.
Há dois deles que são mesmo raros, mas não encontras nenhum nas lojas. Porque as lojas não quiseram, porque as editoras não quiseram editar, e finalmente estão todos disponíveis com uma boa conversão. Isto acaba por ser o coração da ideia.” E fazem eles ideia do que João Aguardela andaria a fazer por estes dias, se estivesse vivo? Sandra Baptista: “O quinto Megafone e outro d’A Naifa.
O João trabalhava a música quase como uma máquina fotográfica: estava a fazer um determinado trabalho, tinha a necessidade de registá-lo e fazia-o, estivesse como estivesse na altura. Ele trabalhava muito e tinha muita disciplina. A disciplina necessária para concretizar, em tão pouco tempo, tantos projectos e tão diferentes.”
Megafone 5, com actuações de A Naifa, Dead Combo, OqueStrada e Gaiteiros de Lisboa, acontece hoje no CCB, a partir das 21.00.