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Tiago Bettencourt: “Difícil é fazer sempre a mesma coisa. Fico inquieto, muito triste. Eu quero é estar feliz”

Depois de seis anos sem editar originais, Tiago Bettencourt regressa com ‘Foz’, um álbum de paisagens electrónicas, mas preservando o lado e instinto humano da música. Em entrevista à Time Out, dá como referências James Blake e C. Tangana.

Hugo Geada
Escrito por
Hugo Geada
Jornalista
Tiago Bettencourt
João Hasselberg
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Com vontade de inovar e de renovar o seu som, Tiago Bettencourt decidiu fechar-se num chalet isolado na Suíça, rodeado de sintetizadores e drum machines, e perceber que coelho é que conseguiria tirar da cartola. O resultado foi Foz, o seu novo álbum de originais, lançado esta sexta-feira, 7 de Novembro, seis anos depois de Rumo ao Eclipse. Nele, mergulha num som mais electrónico e introspectivo, mas sem nunca esquecer que a magia da música surge do erro e do inesperado.

Gravado entre Lisboa e esse refúgio alpino, este trabalho mostra-nos um novo lado do cantautor, desta vez inspirado por referências como James Blake ou C. Tangana (sem deixar cair as guitarras com distorção à Jack White), e com colaborações de artistas como Milhanas e Raquel Tavares. Nesta entrevista, Tiago Bettencourt fala sobre o processo de criação de Foz, da passagem pela Suíça, o fascínio pela música electrónica e a importância de continuar a arriscar, mesmo depois de mais de duas décadas de carreira.

Como é que surgiu a ideia e a vontade de trabalhar neste novo trabalho, Foz?
Foi da mesma maneira que os outros. Reparei que já tinha passado muito tempo sem ter gravado nada de original, o último foi em 2018. Demorou bastante mais porque lancei o álbum de 20 anos de carreira pelo meio, gravado no Coliseu. Mas, normalmente, [após] três anos é quando começa a aparecer aquela vontade de lançar um álbum novo. É a ordem natural das coisas. 

Os músicos sentem muitas vezes necessidade de lançarem um disco para irem para a estrada. Foi assim neste caso?
Não foi necessidade, é vontade. Tenho vontade de gravar e gravo. Não tenho ninguém que me diga para eu gravar. O facto de ele ser um bocadinho mais electrónico é por uma razão diferente. Tenho uma inquietação de tentar mudar sempre de álbum para álbum. Se começo a ensaiar com a banda e sinto que estamos a ir para um sítio onde já estive, tento mudar um bocado. Isso é algo que acontece bastante de álbum para álbum. Já tinha começado a explorar este som em A Procura (2017), mas o balanço entre banda e electrónica era um bocadinho mais misturado. Agora, a electrónica está a ganhar um papel um bocadinho mais preponderante. 

Porque é que isso aconteceu?
Porque me fechei sozinho numa sala sem banda [risos]. Ainda fiz uns ensaios com banda, mas não era bem aquilo que queria. Depois imergi na sala de ensaio e o álbum foi crescendo.

Este disco foi gravado na Suíça. Isso ajudou ou influenciou estas músicas novas?
Sim, apesar de ele não ter sido propriamente gravado na Suíça. Tive 15 dias na Suíça, num chalet no meio do nada, e foi lá que comecei à procura da direcção do álbum. Até lá, tinha as músicas como tenho normalmente, que é à guitarra e voz, ou piano e voz. Tinha rascunhos. Foi lá que comecei a experimentar um bocadinho mais. Tinha comigo algumas máquinas, drum machines, sintetizadores, uma guitarra, um baixo e um computador. Fui experimentando várias coisas e fui percebendo que tipo de som é que gostava de ouvir nestas músicas. Foi muito inspirador nesse sentido. 

Como a Suíça tem um imaginário que, normalmente, associamos à natureza, com a sua beleza natural, e este disco tem músicas com títulos como "Montanha", "Lago", "Foz", imaginei que a paisagem o tivesse inspirado. 
Os títulos e as músicas têm a ver um bocado com as metáforas que eu vou buscar. Até porque já tinha muita coisa escrita lá... Se calhar a "Montanha"... É possível que tenha alguma coisa a ver com a montanha que eu via do chalet. Mas a música não fala, literalmente, de uma montanha. 

Falando do som assumidamente mais electrónico. Nos álbum anteriores, como A Procura e Rumo ao Eclipse, já tinha começado a sentir esta vontade de explorar a música electrónica. Porque é que agora estes sons assumem tanta importância na sua música?
O primeiro sintetizador que eu comprei foi no álbum Do Princípio [2014]. Por exemplo, na "Morena" já começas a ouvir os sintetizadores a ganhar mais importância e, no A Procura, a coisa fica um bocadinho mais séria. No último disco, entrou para a banda o Pedro Branco, que é um guitarrista muito bom, então voltámos a focar-nos mais na música feita por banda, deixando a electrónica um bocadinho de parte. Mas a electrónica começou a fazer parte nestes últimos três álbuns. 

Isto foi uma forma de ajudar a expressar o que estava a sentir nesse momento, ou foi uma forma de reinventar o que estava a fazer? 
Foi a ordem natural, confesso. Comecei a ouvir música electrónica bastante tarde, com uns 15 anos. E eu ouço tudo e tudo é uma influência para mim. Não gosto de estar fechado numa caixinha. Por isso, as armas que me vão aparecendo eu vou usando de vez em quando. Há dois anos comprei uma viola da terra que até acabei por incluir na "Montanha", apesar de ser um instrumento zero electrónico. Por isso, o facto de querer mais electrónica foi porque eu andava a explorar o lado mais terapêutico de cada som. E o mundo electrónico tem um processo de composição completamente diferente do que na música que, normalmente, faço com a banda. Por exemplo, o som da bateria que vou ter será sempre o da bateria do João Lencastre, é com esse som que nós vamos falar. No mundo electrónico as opções são infinitas. Podes ter infinitos sons de prato, de tarola, de bombo... É uma experiência muito mais cerebral. Tens de perceber que tipo de emoção é que queres que aquele bombo te transmita. Mas, por outro lado é muito intuitivo. A tua sensibilidade tem de estar sempre no máximo. Perceber em que parte é que isto me está a tocar. Ouvir cada som com fones para perceber todos os detalhes. Este mundo começou a cativar-me muito. Essa possibilidade de explorar o que é que cada peça te pode transmitir. Que parte do teu corpo é que faz vibrar.

Imagino que também seja um processo muito mais introspectivo. Porque é um trabalho mais sozinho.
Sim, completamente. Sozinho no computador e nos sintetizadores à procura. É uma viagem [risos].

Isso também ajuda a despertar e a expressar alguns sentimentos que pareciam estar mais escondidos?
Não sei. Acho que são expressos de maneira diferente. Antes era expresso com a banda aos berros. Agora, é com um sintetizador no máximo. É uma expressão mais calculada. No sentido em que para provocar essa expressão não há um momento de dez segundos, são várias horas ao computador. O processo é diferente. 

Tiago Bettencourt
João HasselbergTiago Bettencourt

Também é mais individualista. 
Eu não tenho preferência por nenhum. Cada um tem as suas características e benefícios. Há sítios na electrónica onde se consegue chegar que em banda não se consegue e vice-versa. Acho que no caso do Foz, está aqui uma mistura interessante. Não é um trabalho apenas electrónico. Também tem guitarras fora do sítio, os baixos que eu gravei e, de vez em quando, entram também duas baterias. Gosto de conseguir manter esse equilíbrio.

Estava a falar sobre a sua introdução ao mundo da música electrónica. Houve algum artista que o influenciou neste trabalho? 
As maiores... apesar de serem dois artistas com estéticas completamente diferentes, foram o James Blake e o C. Tangana. Tentei usá-las de maneiras diferentes e em músicas diferentes, porque cada música pede os seus próprios elementos. Lembrei-me muito destes dois artistas ao longo do processo de criação do álbum para encontrar várias soluções. 

O James Blake consigo perceber, com a sua electrónica e utilização minuciosa de cada instrumento, o Tangana surpreende-me mais.
Ao Tangana fui buscar a voz, muito seca; o beat no sítio certo, que se pode ouvir no "Nem Tudo é Mágoa", a guitarra mais à Jack White, que é um toque do Alizzz, o produtor do El Madrileño. É uma electrónica muito seca, que também vais buscar a artistas como o Bad Bunny. São sons muito comprimidos. Estão sempre todos cá à frente e não têm expressão. Isso tem qualquer coisa de interessante. Por isso, se fores, agora, ouvir as músicas, é algo que vais encontrar várias vezes. 

Sinto que o Tangana, desde que lançou o El Madrileño e actuou no Super Bock Super Rock, teve uma influência muito grande na música portuguesa.
Eu nem o conhecia nessa altura. Descobri o Tangana há seis meses [risos]. Cheguei muito tarde, mas gostei muito. Está muito bem produzido. E depois percebi a influência que ele teve em muitos artistas portugueses, como estavas a dizer.

Um artista de que também me lembrei, em relação ao processo que estava a descrever, é o Kevin Parker dos Tama Impala. Até porque, além de ser um músico que tem uma forma de criar muito solitária, também se virou mais para a música electrónica no seu último álbum, Deadbeat.
Pois virou, mas ele continua muito focado em efeitos como os reverbs e os delays. Eu já me fartei um bocado desses sons. Estou a gostar mais da coisa sequinha cá à frente. De explorar um espaço que não existe. Quase como pores a voz num sítio tão plástico, que não está em sala ou em sítio nenhum. 

Além da electrónica, há também uma forte presença das guitarras e de universos como o post-rock. Como é que foi conciliar todos esses elementos diferentes? 
Isso é algo que vai sempre existir na minha música. Eu cresci aí e vou sempre querer que isso exista. No álbum A Procura, também conciliei esses dois mundos, no entanto, apesar de a electrónica vir um bocadinho mais para a frente, não veio tanto para a frente. Aqui, a electrónica toma conta, mas era importante ter este elemento humano, do erro e do imprevisível. Não podia deixar de fora a parte orgânica... onde ouves guitarra, a bateria dupla. Gosto deste contraste de perceberes que embora a electrónica exija muito controlo – é milimétrica – estas conseguem manter expressão. Percebes que foi feita por um ser humano e não totalmente por uma máquina. Gosto que esteja sempre presente a sensibilidade humana ali no meio.

E acredito que, numa altura em que temos a inteligência artificial a começar a dominar a indústria, sabe bem fazer uma música que mostre este lado mais frágil?
De repente, está a surgir uma onda de imensos artistas que estão a gravar álbuns propositadamente com mau som para se diferenciarem. Recentemente, ouvi o novo álbum ao vivo da Adrianne Lenker, que até pode parecer que foi gravado num minidisc, mas deu-me um prazer gigantesco. Estava apenas a ligar às canções, como quando ouvia Daniel Johnston. Há muitas pessoas a apostar nesta estética. Outro caso destes, apesar de não adorar, é o Justin Bieber. Ele trabalha com produtores muito bons e tenta replicar aquele som de cassete. Há muitos artistas que estão a tentar procurar este lado mais humano porque a música está plástica demais. 

Já tinha falado sobre não precisar de responder a uma agenda ou a um compromisso de ter de gravar e editar música num determinado período de tempo, mas enquanto artista consolidado é difícil romper com o som que estava a fazer e ir contra aquilo que o seu fã estava à espera? 
Difícil é fazer sempre a mesma coisa. Não consigo. Fico inquieto. Fico muito triste. Quando comecei a ensaiar este álbum com a minha banda, senti que não estava a fazer o que queria. O que eu quero é estar feliz. Fazer coisas de que gosto. Não penso o que é que as pessoas vão achar. Isso não faz parte do meu percurso, nem do meu processo criativo. Tenho de resistir a isso. Tenho de resistir ao meu manager, apesar de ser a função dele. Preciso de gostar daquilo que estou a fazer e que estou a ouvir. É difícil não fazer isso. Abdicar daquilo de que gosto para seguir uma fórmula qualquer que sei que resulta? Isso é que não me iria fazer dormir bem à noite. 

Uma peça que sinto ter sido fundamental neste trabalho é o Charlie Beats, que trabalhou consigo na parte da mistura do disco. Ele já tinha colaborado com artistas como Wet Bed Gang, Piruka ou Profjam, mas o que é que trouxe para o seu disco?
Antes do Charlie Beats tenho de falar do Fred Ferreira, dos Orelha Negra. Ele co-produziu este álbum comigo. Foi a pessoa que fui buscar, depois de ter as músicas todas trabalhadas, para me ajudar. Eu conheço o Fred há muito tempo. Ele tem mais experiência do que eu na música electrónica e havia coisas que eu não sabia fazer tecnicamente. Confio muito nele e no seu gosto. Foi bom para consolidar e fechar as músicas.

Foi aí que entrou o Charlie. 
Depois desse trabalho, fizemos uma primeira mistura, minha e do Fred, e depois demos ao Charlie Beats e foi também uma procura. Inicialmente, ele estava muito preso à estética dele – em que vem tudo cá para a frente e está tudo a soar muito comprimido. O trabalho final foi muito diferente, as músicas são bastante orgânicas e diferentes daquilo que ele faz. Mas foi um percurso muito engraçado. Ele consegue tirar um bom som de cada peça. E foi isso que ele acrescentou. Pegou nas peças e conseguiu melhorar o som, de forma a que furassem a mistura. É graças a ele que o álbum soa ainda melhor em CD ou no streaming.

Também contou com as colaborações da Milhanas e da Raquel Tavares. O que é que elas acrescentaram a este disco?
Tenho um dueto com a Milhanas. Foi bastante inesperado, ela tinha-me convidado para cantar uma música dela e eu acabei por fazer esta música com um texto escrito por ela. Adoro a Milhanas, acho que é das poucas miúdas que tu vês que está numa procura. Isso é muito importante. Não anda a copiar ninguém, não anda a tentar vender discos, nem seguir fórmulas. É uma miúda que está numa procura artística e poética. Isso é uma coisa muito rara nos artistas de hoje em dia. Por isso, sou muito fã dela. Ela vai acertar, vai errar e vai fazer um monte de coisas. Além disso, tem uma voz fora do normal, mas isso já toda a gente percebeu. A Raquel Tavares convidei-a para participar numa música, a "Montanha". Eu queria usar vários samples. Queria um de cantares alentejanos, um de coro minhoto e um de fado. Só que eu sabia especificamente o que queria e sabia que, se fosse à procura, não o ia encontrar. Por isso pensei: "porque é que não faço um sample?" E foi assim que aconteceu. Convidei a Raquel para aparecer na minha sala de ensaio e gravámos num microfone especial, que é o Green Bullet, utilizado para gravar harmónica, que tem um som já meio destruído. Depois, "estraguei" ainda mais a voz dela e criámos um sample que parece que tem mais de 60 anos. Mas foi feito no outro dia [risos].

Agora, para a apresentação de Foz regressou à sua terra natal, Coimbra. Como é que é voltar a casa para apresentar este trabalho?
Apesar de nunca ter vivido em Coimbra, tenho uma ligação muito forte com a cidade. Os meus avós viveram lá até os dois morrerem. Vendemos a casa deles há cinco anos e foi uma grande dor para toda a família porque deixamos de ter ligações a Coimbra. Mas continua a ser uma cidade que me diz muito. A minha mãe cresceu lá, os meus pais conheceram-se lá e eu e o meu irmão fomos lá nascer, por tradição. O meu avô era lá oftalmologista, mas os meus pais já viviam cá em Lisboa. Passava lá as férias de Verão, de Natal, de Páscoa... Sinto sempre que estou a regressar a casa em Coimbra. É muito especial para mim dar lá concertos. O último também foi num sítio lindo, no Jardim da Sereia, com a Orquestra Clássica do Centro. Cada vez que vou a Coimbra é um momento muito importante. Estou muito feliz pelo primeiro concerto em que vou tocar músicas novas ser no Convento de São Francisco.

Sagres Campo Pequeno. 18 Dez (Qui) 21.30. 20€-60€

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