Clássicos de cinema para totós – Terror. Lição 3: 2001-2014

É Halloween. Não é altura para um totó fraquejar e baquear perante referências cinematográficas. Pelo contrário, é citando clássicos obscuros que o cinéfilo totó pode brilhar. É para isso que o serviço público do cinema para totós regressa.

The House of the Devil

Com a entrada do século o que era explícito tornou-se ainda mais explícito. Mais sangue, mais tripas ao léu, mais tortura psicológica e sobretudo física. E, também, algum regresso ao classicismo gótico, boa dose de contaminação entre géneros, e muita imaginação – o que vai mantendo o género vivo e assustador.  

+ Perdeu as primeiras lições? Aqui tem os clássicos de cinema de terror da primeira metade do século XX e os que marcaram as décadas entre 1950 e 2000.

Clássicos de cinema para totós – Terror. Lição 3: 2001-2014

Os Outros (2001)

O filme escrito e dirigido por Alejandro Amenábar é um, senão o melhor exemplo de exploração das virtudes do subgénero gótico surgidos este século. Nele voltamos à mansão assombrada onde uma mãe extremosa (Nicole Kidman) se recolhe na escuridão com os seus filhos (Alakina Mann, James Bentley), ambos sofrendo de doença rara que os torna demasiado sensíveis à luz e, por isso, obrigados a viver naquela clausura. E nele, também, muitas vezes, o sugerido é mais importante que o visível, incluindo o segredo escondido pela mãe. É o sobrenatural e as suas manifestações que dominam a película, que leva o seu tempo a chegar ao seu sítio para, mal chegada, dar uma reviravolta ao argumento verdadeiramente inesperada.

The Ring – O Aviso (2002)

Com uma certa crise de inspiração instalada em casa, os estúdios de Hollywood, como muitas outras vezes no passado, começaram a olhar à volta até encontrarem no cinema asiático um eventual novo filão. Daí esta versão aditivada, e consideravelmente diferente, de Ringu, de Hideo Nakata, dirigida por Gore Verbinski, com Naomi Watts, Martin Henderson e Brian Cox, que parte de um princípio simples: um cidadão inocente vê uma determinada gravação e uma semana depois morre. A direcção de Verbinski não poupa na exploração de imagens cada vez mais chocantes e cruéis, que, acrescentadas às sucessivas camadas de tensão, criam um clima de cortar à faca enquanto a heroína tenta salvar a vida.

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O Renascer dos Mortos (2004)

Como muito sabem os aficionados de The Walking Dead os zombis não só estão para durar como o cinema e a televisão que tratam das suas aventuras não lhes dão descanso. Pelo que não admira que em 2004, Zack Snyder, com argumento de George A. Romero, se atirasse a nova versão do clássico. O que admira é como o realizador enfrentou a sombra de um passado tão honroso e trouxe o tema para a actualidade, equilibrando cenas de violência ao mesmo tempo nojentas e arrepiantes com deliciosos pormenores sobre as personagens interpretadas por Sarah Polley, Ving Rhames e Mekhi Phifer.

The Host – A Criatura (2006)

É com certeza um bocado exagerado, quer dizer, é mesmo muito exagero, mas a verdade é que depois de dirigir The Host – A Criatura o realizador Joon Ho Bong foi comparado a Steven Spielberg, eventualmente pela forma pungente como é mostrado o desespero da família Park quanto tenta resgatar um dos seus das garras de um monstro vindo do nada, ou pela mera evocação de Tubarão. O filme faz parte da corrente revisionista que encontra inspiração no cinema de terror do passado para, adaptando-se às novas circunstâncias, abordar temas de sempre, como sempre resolvidos com determinação e coragem – que estas coisas precisam de um fundo moral.

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O Labirinto do Fauno (2006)  

Guillermo del Toro já realizara o seu punhado de filmes de terror quando, precisamente com esta película (que valeu três Óscares), resolveu meter um pauzinho na engrenagem envolvendo a sua história de horror num sub-enredo de conto de fadas. Situada em Espanha, durante o franquismo, encontramos Ofélia (Ivana Baquero) vivendo com o seu novo, fascista e muito abusivo padrasto. Para se refugiar do medo, a rapariga cria suas fantasias, que se revelam tanto ou mais assustadoras do que a realidade, conhecendo e convivendo com gigantes, monstros sem rosto guardando mesas repletas de comida e, como se nada mais faltasse, um fauno que lhe oferece imortalidade. O preço é que é um problema.

Deixa-me Entrar (2008)

Mostrando que Hollywood já não é exemplo para ninguém (enfim, é uma maneira de dizer), o realizador sueco Tomas Alfredson criou uma estranha história de amor entre um rapaz de 12 anos e um vampiro com séculos de existência que parece … uma rapariga de 12 anos, embora provavelmente não o seja. Kåre Hedebrant e Lina Leandersson são exemplares nos papéis de Oskar e Eli, e a realização demonstra grande mestria no desenvolvimento do entrecho, explorando a ambiguidade com grande sensibilidade e usando de pouca ou nenhuma subtileza quando é preciso que o sangue corra.

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The House of the Devil (2009)

Apresentado em Portugal, durante a edição 2010 de MotelX, o filme de Ti West de certo modo regressa aos clássicos do género com esta história de rapariga sem cheta e desesperada por sair do seu horrível apartamento. Quando lhe cai do céu um emprego de “babysitting” em que não há criança para cuidar, mas antes uma velha que não deve ser perturbada, a personagem interpretada por Jocelin Donahue (parte de um elenco que inclui Tom Noonan e Mary Woronov) nem hesita, mesmo quando percebe que o lugar é isolado e a dar para o tenebroso. E coisas acontecem. Coisas pequenas, pequenos nadas que a rapariga nem percebe, mas que subtilmente empilhados uns sobre os outros criam um clima de tensão antes de se revelarem como uma cachoeira de medos tornados realidade.

Tu És o Próximo (2011)

A invasão domiciliária é outro dos temas decorrentes no cinema de terror de que os revisionistas, como o realizador Adam Wingard, se apropriaram e, como neste caso, levaram um pouco mais além. O pretexto da reunião familiar, sempre causadora de fricções e condenada a revelar podres que deveriam permanecer ocultos, é, aqui, particularmente bem aproveitado, criando um clima de desconfiança que muito favorecerá o desenvolvimento da mortandade que só uma heroína capaz, como a interpretada por Sharni Vinson, poderá, a muito custo, acrescente-se, estancar.

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Vai Seguir-te (2014)

Começando pelo princípio: há um demónio seguindo cada um de nós, que, quando nos apanhar, vai dar-nos tratos de polé e uma morte horrenda. A não ser… A não ser que se tenha sexo com alguém, assim passando a maldição ao parceiro de cama. Está-se mesmo a ver que David Robert Mitchell procede no seu filme (com a colaboração de Maika Monro, Keir Gilchrist e Olivia Luccardi) a uma ardilosa combinação de paranóia com o medo de apanhar uma doença sexualmente transmissível. O inesperado é conseguir com um argumento tão básico, para nem dizer simplista, tornar o enredo numa trepidante e assustadora aventura através do pior que a humanidade cria.

Uma Rapariga Regressa de Noite Sozinha a Casa (2014)

Um dos filmes mais curiosos e estimulantes deste século passa-se no Irão, é falado em persa, custou uma ninharia, e nada disso interessa perante a habilidade de Ana Lily Amirpour na criação desta variação sobre o tema do vampirismo que se tornou um êxito internacional quase instantaneamente. Êxito que começou no Festival de Sundance e que não afastou espectadores, apesar da cineasta filmar com elegante pachorra e de a história demorar o seu tempo a ser construída e compreendida (enfim, tanto quanto possível). Mais do que a violência, é a paciência da jovem vampira (Sheila Vand) na perseguição e, digamos, preparação da sua presa que está no centro da acção desta obra que vive nas sombras da cidade como uma metáfora sobre a diferença e a resistência à opressão.

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Tenha medo, muito medo

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