Era Uma Vez em... Hollywood

Filmes, Comédia
Escolha dos críticos
5 /5 estrelas
Era Uma Vez em... Hollywood

A Time Out diz

5 /5 estrelas

Exemplo da ousadia deleitosamente humorística tão característica dos filmes
 de Quentin Tarantino, Era Uma Vez em... Hollywood é uma intricada e imensamente divertida narrativa que junta factos e ficção, colocando personagens inventadas no epicentro de acontecimentos trágicos reais
 e desafiando a história a fazer o seu pior. Encostando-se ao extremo amadurecido, mais Jackie Brown, da obra de Tarantino, o filme é também uma carta de amor à cidade de Los Angeles e à indústria cinematográfica, cuja ironia é primorosamente executada e impulsionada pelo desempenho de Brad Pitt e Leonardo DiCaprio nos papéis principais. É, ainda assim, um filme marcadamente tarantinesco, ora genuinamente emotivo, ora descaradamente absurdo.

Tarantino abre com Hollywood na era dos homicídios cometidos pela família Manson – especificamente, com o assassínio da actriz Sharon Tate e dos seus amigos, em Agosto de 1969 – recontando a história à sua maneira, primeiro retratando alguns dias de Fevereiro desse ano e depois o fim-de-semana do massacre, seis meses mais tarde. Isto significa que passamos o filme praticamente todo a indagar sobre a forma como o realizador irá lidar com a tragédia histórica em si. A resposta vem a custo de sangue, suor e lágrimas. Ainda assim, podemos afirmar: Tarantino consegue esculpir circunstâncias abomináveis com um surpreendente bom gosto.

Personagens verídicas pontuam o enredo: a malfadada Tate (Margot Robbie), celebridades da era de Nixon como Steve McQueen (Damian Lewis) e Bruce Lee (Mike Moh), e o gangue Manson (uma das integrantes é interpretada por Lena Dunham). No centro do enredo, uma amizade puramente fictícia: Leonardo DiCaprio é Rick Dalton, um cowboy de televisão excessivamente emotivo e com tendências alcoólicas receoso de ter chegado ao fim do seu tempo; já Brad Pitt é Cliff Booth, o seu duplo, motorista e amigo. Booth é um homem bom com um lado obscuro, e não se detém na hora de desafiar Lee para uma luta nas imediações de um estúdio de cinema. Os protagonistas fazem uma magnífica dupla, comunicativa e vivaz, que lembra a que formam John Travolta e Samuel L. Jackson em Pulp Fiction. No filme, os assassínios cometidos pelos Manson são frequentemente representados como o fim de uma era e o começo de outra, e estes dois sobreviventes da velha guarda à Sergio Leone (o título não 
é um acaso) foram concebidos para nos guiar nessa travessia, embora eles próprios sejam permeados pela incerteza. Tarantino segreda-nos o futuro ao ouvido.

Era Uma Vez em... Hollywood está repleto de referências à obra de Tarantino: a violência contrafactual de Sacanas Sem Lei; o seu
 amor pelo faroeste, evidenciado em Django Libertado e Os Oito Odiados; e a celebração dos duplos (e alusão às mulheres que lutam pelo seu lugar na indústria) em À Prova de Morte, que integra a dupla de filmes Grindhouse. No novo filme, há secções inteiras de pastiche cinema-televisão, e Tarantino capricha no rigor histórico no que se refere a pormenores como os anúncios de rádio e os painéis publicitários, meticulosamente seleccionados de acordo com a época, da Sunset Strip. Surgem ainda referências em inúmeros pequenos momentos, tais como a comovente cena em que Tate vai ao cinema sozinha para se ver contracenar com Dean Martin em Um Perigo em Cada Curva.

A confiança transmitida por determinados excertos chega a conferir-lhes uma certa independência. É exemplo disso o momento em que Cliff aparece no Spahn Ranch, então
 a residência da família Manson, tendo aleatoriamente dado boleia a uma hippie que o cativou (a magnética Margaret Qualley, que actuou na série Fosse/Verdon). É precisamente esta ousadia narrativa que unifica todo o enredo. Tarantino chega mesmo a usar voz off numa cena e a abandonar a técnica de seguida porque – bom, porque é Tarantino e isso é o tipo de coisa que ele faz.

É esse o espírito do filme: alegremente desnorteado – tal qual os dois protagonistas que deambulam por Los Angeles – mas perfeitamente articulado e profundo. Através do seu estilo único, Tarantino reproduz um momento de mudança sísmica, deixando nas mãos do espectador o escoamento dos danos culturais que dela advêm, com toda a perigosa responsabilidade que essa tarefa acarreta.

Detalhes

Detalhes da estreia

Elenco e equipa

Realização
Quentin Tarantino
Argumento
Quentin Tarantino
Elenco
Brad Pitt
Leonardo DiCaprio
Margot Robbie
Damian Lewis
James Marsden
Dakota Fanning
Margaret Qualley

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