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Filme, Cinema, Drama, Drive My Car, Ryusuke Hamaguchi
©DRDrive My Car de Ryusuke Hamaguchi

Os melhores filmes do ano (até agora)

O ano vai a meio e já há vários filmes que se destacaram da massa de estreias, dignos de figurar na lista dos melhores de 2022.

Escrito por
Eurico de Barros
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Já passou pouco mais de metade do ano, e apesar de se estrearem muitos, mas mesmo muitos filmes indiferentes, descartáveis ou maus de doer, podemos já seleccionar um punhado de títulos que sobressaem claramente dessa vasta mole de mediocridade e mediania, produzidos em países muito diversos. E que constam já na nossa lista dos melhores estreados em Portugal em 2022.  É o caso do francês Ilusões Perdidas, de Xavier Giannoli, do japonês (e oscarizado) Drive My Car, de Ryusuke Hamaguchi, do iraniano Um Herói, realizado por Asghar Farhadi, ou ainda de O Homem do Norte, do norte-americano Robert Eggers.

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Os melhores filmes do ano (até agora)

‘Ilusões Perdidas’, de Xavier Giannoli

O francês Xavier Giannoli adapta aqui à tela um dos maiores livros de Balzac, parte da sua Comédia Humana e publicado em 1837. O herói é o ingénuo Lucien Chardon, um jovem poeta de província, desconhecido e ambicioso, que vem para Paris decidido a ser famoso e, depois de um breve período de glória, acaba por ser arrastado pelo turbilhão de vício, corrupção, fingimento e hipocrisia da sociedade parisiense, onde absolutamente tudo se compra e vende, das almas e reputações aos artigos nos jornais e ao sucesso e fracasso dos espectáculos. Giannoli faz honra, em Ilusões Perdidas, ao cinema francês popular de fonte literária, com qualidade, espectáculo, rigor histórico e fôlego romanesco, contando com um elenco de eleição, onde surgem Benjamin Voisin, Cécile de France, Gérard Depardieu, Jeanne Balibar, Xavier Dolan e Vincent Lacoste.

‘Belfast’, de Kenneth Branagh

Rodado a preto e branco, com breves assomos de cor, este filme autobiográfico de Kenneth Branagh passa-se em 1969 na cidade do título, em que ele nasceu e viveu parte da infância. Belfast é feito de recordações pessoais e familiares do realizador e não é um filme sobre o conflito entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte nos anos 60 e 70, mas sim sobre a família e a sua força e importância, em tempos de paz como de guerra. No caso vertente, a família do alter ego de Branagh, Buddy, de nove anos (Jude Hill), protestante e em minoria no bairro católico em que vive, e que antes do eclodir da violência é pintado como um modelo de boa convivência. Apesar de todas as coisas complicadas, violentas e tristes que acontecem a Buddy e aos seus familiares, Belfast mantém-se, do princípio ao fim, um filme de uma enorme doçura, que por vezes ameaça ir caramelizar no mais descarado sentimentalismo, com uma ajudinha da banda sonora de Van Morrison. Uma armadilha que Branagh evita graças ao impressionismo telegráfico da realização, à sinceridade emocional que atravessa o filme, a um sentido de humor muito irlandês e a um elenco inspirado, que inclui Jamie Dornan, Caitríona Balfe (o pai e a mãe de Buddy), Ciaran Hinds e Judi Dench (os maravilhosos avós). Óscar de Melhor Argumento Original para Branagh.

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‘Um Herói’, de Asghar Farhadi

O iraniano Asghar Farhadi (Uma Separação) volta aqui ao seu tema favorito: os pequenos erros cometidos por pessoas comuns, que vão desencadear e adensar o drama, selar o destino do protagonista e lançar estilhaços sobre todos aqueles que o rodeiam, quer lhe queiram bem, quer lhe queiram mal. O protagonista de O Herói é Rahim (Amir Jadidi), um pobre diabo divorciado e com um filho com problemas de fala, falido e preso por dívidas ao ex-cunhado, que se vê transformado em herói dos media e das redes sociais por ter devolvido, durante uma saída de dois dias, uma mala cheia de moedas de ouro à sua legítima dona. Só que Rahim não disse aos directores da prisão nem ao jornalista que o entrevistou para a televisão, que foi a namorada, e não ele, quem achou a mala, e que a devolveu porque a cotação do ouro estava baixa. Vencedor do Grande Prémio em Cannes, Um Herói é filmado por Asghar Farhadi com um enorme sentido da vida tal como ela é vivida, um naturalismo nunca árido e tão atento aos pequenos pormenores humanos como do quotidiano, e um controlo narrativo que não admite o mais pequeno deslize de verosimilhança, ritmo ou sentimental. E com a certeza de que, longe de serem a preto e branco, o ser humano e o mundo em que ele se movimenta são feitos de matizes de cinzento.

‘Drive My Car’, de Ryusuke Hamaguchi

Yusuke, um renomado actor e encenador, perde de súbito a mulher, morta com um AVC antes que tivesse tido tempo de falar com ela após a ter surpreendido com um jovem actor. Dois anos depois, Yusuke vai a Hiroshima encenar O Tio Vânia com actores de vários países asiáticos, e a direcção do festival de teatro designa-lhe uma motorista para guiar o seu velho Saab Turbo 900 vermelho, a jovem Misaki (Tôko Miura). A cada viagem de ida e volta, Yusuke e Misaki, ambos fumadores, vão criando confiança e uma cumplicidade que se revelarão fundamentais para ambos em termos pessoais, e para a resolução da história. Vencedor do Prémio de Argumento em Cannes e do Óscar de Melhor Filme Internacional, Drive My Car é um filme de várias camadas narrativas, de muitas subtilezas e de uma reserva emocional caracteristicamente nipónica, em que Ryûsuke Hamaguchi continua a revelar-se como um grande cineasta da palavra e do diálogo e um exímio manipulador da conversa como revelador privilegiado da mais secreta intimidade das personagens. E tudo a conta-gotas, mansamente, com as palavras e a expressividade estritamente necessárias, e sem espalhafato melodramático.

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‘Cordeiro’, de Valdimar Jóhannsson

Um tão surpreendente como excelente filme fantástico islandês, que vai buscar inspiração às narrativas e contos tradicionais do folclore local, e assinala a estreia na realização de Valdimar Jóhannsson. Um casal (Noomi Rapace e Hilmir Snær Guðnason) que vive numa quinta remota e cria carneiros, descobre um dia que uma das fêmeas deu à luz um mutante de humano e cordeiro, e adopta a criatura, como se se tratasse de um bebé normal. Jóhannsson prefere a câmara e os actores aos efeitos digitais, aposta nos silêncios e nos subentendidos para contar a história, muito económica com as palavras e os diálogos, recorre à meteorologia e à banda sonora para sugerir e sublinhar as atmosferas emocionais, psicológicas e de tensão, e só abre as portas ao terror sobrenatural puro nos 10 minutos finais – e se elas ficam bem escancaradas.

‘O Homem do Norte’, de Robert Eggers

O realizador de A Bruxa e O Farol assina este portentoso filme de vikings passado na Islândia do século X e que é, em linhas gerais, a história na base do Hamlet de Shakespeare. Alexander Skarsgard personifica Amleth, um príncipe viking que, anos depois de ter fugido da corte, na sequência do assassínio do pai e do rapto da mãe pelo tio usurpador, regressa para se vingar. Robert Eggers, que também escreveu o filme, com o argumentista, poeta e autor islandês Sjón, recria com rigor e autenticidade o modo de vida e de ser dos vikings, encena ferocíssimas sequências de acção e de combate, e entra pelo território do sobrenatural nórdico. Também com Ethan Hawke, Nicole Kidman, Willem Dafoe, Claes Bang, Anya Taylor-Joy e Björk, que tem uma curta mas singular participação papel de uma feiticeira. O Homem do Norte é um dos grandes filmes de vikings já rodados.

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‘O Rei do Riso’, de Mario Martone

O cineasta italiano Mario Martone evoca a tradição do teatro cómico napolitano neste filme sobre o lendário actor e dramaturgo Eduardo Scarpetta, ilustre antecessor de Totò, mas que nunca chegou a fazer filmes, e foi pai de Eduardo, Peppino e Tittina De Filippo, nomes maiores do palco, da tela e da televisão em Itália, que nunca reconheceu como seus filhos perante a lei. Martone filma a Nápoles do início do século XX, e Scarpetta no meio da sua família de casa e do teatro, que se confundiam uma com a outra, no palco a interpretar a personagem tipicamente napolitana de Felice Sciosciammocca, enfrentando vários problemas com a mulher, a amante, os filhos legítimos e ilegítimos, os seus actores e os colegas de arte, e no centro de um processo de plágio que lhe foi posto por Gabriele D’Annunzio. Toni Servillo, também ele napolitano, personifica Scarpetta magnificamente no riso e no drama, mostrando todo o seu talento, contradições e defeitos, e o orgulho de homem de teatro devotado de pena, corpo e coração ao público.

‘A Lei de Teerão’, de Saeed Roustay

No Irão, a pena para a posse de drogas ilegais, independentemente da quantidade, é a morte. O que não impede o país de ter um enorme problema com a toxicodependência (serão cerca de 6,5 milhões pessoas presas ao vício, contra um milhão há alguns anos), como se vê em A Lei de Teerão, de Saeed Roustayi, que não contente em ser um filme de acção taquicárdico e asperamente realista sobre a caça a um barão da droga, questiona sem maniqueísmos, de forma clara e sempre bem integrada na narrativa, a repressão policial e a pena de morte como únicas formas de combate ao flagelo, mostra as condições sub-humanas em que vive a grande maioria dos drogados (ver a tremenda sequência da rusga no imundo “bairro” das condutas de água onde se amontoam homens, mulheres e até crianças), a sobrelotação e a esqualidez das prisões, e as condições sociais que levam muitos ao consumo e ao tráfico (Nasser, o traficante, é simultaneamente criminoso e vítima). O actor e argumentista Payman Maadi, que vimos em Uma Separação, de Asghar Farhadi, é portentoso em Samad, o chefe da Brigada de Narcóticos de Teerão cada vez mais descrente na acção do sistema policial e jurídico para ganhar a batalha contra a droga. A Lei de Teerão é muito mais do que o equivalente iraniano do clássico americano Os Incorruptíveis Contra a Droga, de William Friedkin (que, aliás, já viu e elogiou esta fita).

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