Um Dia de Chuva em Nova Iorque

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4 /5 estrelas
Um Dia de Chuva em Nova Iorque

A Time Out diz

4 /5 estrelas

Os americanos talvez nunca cheguem a ver Um Dia de Chuva em Nova Iorque, o filme de Woody Allen que Portugal, pelo seu lado, será um dos primeiros países a apreciar, depois da Polónia, Lituânia, Turquia e França. É a primeira vez desde 1981 que uma obra de Allen não se estreia nos EUA, e a culpa é do movimento #MeToo.

Rodado em Nova Iorque em 2017, e fazendo parte de um contrato de cinco filmes assinado entre o realizador e a Amazon,
 Um Dia de Chuva em Nova Iorque foi uma vítima colateral do escândalo que envolveu o produtor Harvey Weinstein e da eclosão do #MeToo. Em 2018, Ronan Farrow, filho de Allen e de Mia Farrow, fez ressurgir velhas acusações contra o pai de que, em 1992, este teria molestado a sua filha adoptiva Dylan.

Apesar de absolutamente nada ter sido provado contra Woody Allen, de o caso ter sido oficialmente encerrado em 1993, após uma longa e minuciosa investigação que durou 14 meses, levada a cabo pelas respectivas entidades oficiais, a Amazon encolheu-se perante o clima persecutório que se vivia e reteve o filme, bloqueando a sua distribuição, por não ser “comerciável”. Allen moveu então um processo à empresa no valor de quase 70 milhões de dólares.

O litígio foi resolvido com a devolução, em Maio passado, dos direitos de distribuição do filme nos EUA ao cineasta, mas por essa altura já Woody Allen estava em Espanha a rodar o seu novo filme, Rifkin’s Festival. Entretanto, três dos actores de Um Dia
 de Chuva em Nova Iorque, Thimothée Chalamet, Selena Gomez e Rebecca Hall, haviam feito mea culpa pública, execrado 
a pessoa de Allen e feito doações dos seus ordenados do filme a organizações de defesa das mulheres.

Um Dia de Chuva em Nova Iorque assinala o feliz regresso de Woody Allen a esta cidade, onde não filmava desde 2010. A fita segue, ao longo de 24 horas, dois estudantes universitários de famílias abastadas que vieram da sua faculdade no interior passar um fim-de-semana romântico à Big Apple.

Eles são Gatsby Welles (Thimothée Chalamet), uma espécie de versão jovem do próprio Allen, com gostos clássicos em tudo, do cinema à música, passando pelos casacos de tweed, e um discurso sarcástico muito semelhante ao de Holden Caulfield de Uma Agulha no Palheiro, de J.D. Salinger; e a sua namorada Ashleigh Enright (Elle Fanning), tão entusiástica como ingénua e burrinha (quando Gatsby lhe cita um verso da canção Night and Day, de Cole Porter , ela responde, enlevada: “Ah, Shakespeare!”), que vai entrevistar um famoso realizador para o jornal da universidade.

Os dois namorados rapidamente vão 
ser separados por uma série de encontros inesperados, situações imprevistas e pela chuva que se abate sobre a cidade, que Woody Allen, servido pelo requintadíssimo trabalho de direcção de fotografia do mestre Vittorio Storaro, usa para criar uma elegante, nevrótica, satírica e refrescante comédia romântico-existencial que tem o seu ADN por tudo quanto é lado. E na qual o humor e o romance se entrelaçam com uma meditação tipicamente alleniana sobre o que fazer para se conseguir viver com sentido, satisfação e um rumo certo a vida que temos pela frente.

Woody Allen aproveita também para gozar com o meio do cinema (ver o realizador artístico e torturado interpretado por Liev Schreiber, que se põe a imitar a Norma Desmond de O Crepúsculo dos Deuses quando tem uma crise criativa, o argumentista nevrótico de Jude Law e o actor engatatão vivido por Diego Luna) e, muito naturalmente, celebrar Nova Iorque (e Manhattan muito em especial).

Nova Iorque, a cidade adorada, simultaneamente idealizada e real, encantadora e sórdida, onde Frank Sinatra e o legado arqueológico do antigo Egipto podem conviver calmamente, onde sonhos e decepções caminham lado a lado, onde uma ilusão sentimental pode ser ultrapassada por uma nova e insuspeitada etapa amorosa, ou uma incrível revelação familiar dar uma grande lição de vida. E no final, como medita Gatsby, “Nova Iorque, mais uma vez, ganha tudo e a todos”. Allen tira interpretações impecáveis a todo o elenco (até à insípida Selena Gomez) e Um Dia de Chuva em Nova Iorque tem pelo menos uma tirada memorável: “O tempo voa”, diz
a certa altura Ashleigh. Responde Gatsby: “Pena que seja em Económica.”

Por Eurico de Barros

Por Eurico de Barros

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