Uma Traição Necessária

Filmes, Drama
3 /5 estrelas
Uma Traição Necessária

Acontece pouco mas acontece que às vezes está uma mulher, já de certa idade, reformada, no sossego de sua casa, e entram por ali dentro meia dúzia de agentes do MI5 acusando-a de nada mais nada menos do que 27 transgressões da Lei de Segredo de Estado, cometidas vai para um ror de tempo. Um filme de espionagem, portanto. Sim, mas também uma obra sobre a condescendência a que estão sujeitas as mulheres.

O argumento de Lindsay Shapero nasceu do romance de Jennie Rooney inspirado na história de Melita Norwood, uma fonte do KGB, conhecida por “avó espia” quando foi presa no final da década de 1990. E, como o livro, também a película de Trevor Nunn apresenta Joan Stanley (interpretada por Judi Dench e, na juventude, por Sophie Cookson) e justifica os seus actos com a “decência” e o “sentido de justiça” britânicos, mais do que com a simples motivação ideológica, aliás característica nos meios universitários ingleses nas décadas de 1930 até aos anos 60 do século passado. É uma perspectiva legítima que, para infortúnio da narrativa, o realizador não desenvolve de maneira eficaz, agarrando-se ao formalismo académico da escola britânica e aos códigos do drama de época sem uma chispa de ambição estética.

Ainda assim, mesmo com a falta de nervo da realização, sobra neste filme um enredo e duas interpretações,
que, mesmo sem serem brilhantes, possuem a solidez necessária para nem tempo nem dinheiro serem dados por completamente perdidos. Voltando à história, esta começa realmente em 1938, quando a brilhante estudante de física da Universidade de Cambridge cai
de amores pelo comunista Leo Galich (Tom Hughes); e continua quando, já na II Guerra Mundial, funcionária de um centro de investigação nuclear secreto, Joan percebe como o desenvolvimento da bomba atómica pode alterar o equilíbrio de forças e, quem sabe, destruir o mundo. Daí a passar segredos para os soviéticos é um passo. Para lá do mote de Uma Traição Necessária sobressai
o subtexto. Aquela parte nunca dita da película, mal aproveitada por Nunn, que revela com crueza a forma condescendente como a protagonista (e, na generalidade, as mulheres que se distinguem pela sua inteligência) é tratada, quer enquanto física de gabarito, quer como espia eventualmente manipulada pelos sentimentos, quer como criminosa agente estrangeira durante décadas uma dor de cabeça para a espionagem britânica, resumida numa frase saída da boca de outra presuntiva conspiradora: “Nunca ninguém suspeita de nós, por sermos mulheres.”

Por Rui Monteiro

Por Rui Monteiro

Publicado:

Detalhes da estreia

Elenco e equipa

Realização
Trevor Nunn
Argumento
Lindsay Shapero
Elenco
Judi Dench
Stephen Campbell Moore
Sophie Cookson
Tom Hughes
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