Oito concertos para cravo que precisa de ouvir

András Schiff troca o piano pelo cravo para tocar concertos para cravo de Bach na Gulbenkian. Os concertos de Bach são, de longe, os mais famosos entre os que têm o cravo como solista, mas vale a pena descobrir o resto da “literatura”

©Birgitta KowskyAndrás Schiff

Bach por András Schiff na Gulbenkian

Dos sete concertos para cravo e orquestra de Johann Sebastian Bach, András Schiff (cravo e direcção) e a Cappella Andrea Barca dar-nos-ão a ouvir os BWV 1052-1056 e 1058. Schiff (n.1953, Budapeste) é mais conhecido como pianista e foi no piano que gravou para a Decca quer os referidos concertos (com a Orquestra de Câmara da Europa) quer boa parte da obras para cravo de Bach, nomeadamente as Variações Goldberg e O Cravo Bem Temperado, que voltaria a gravar, mais recentemente, para a ECM. Mas talvez Schiff tenha concluído que não há piano que possa substituir a sonoridade cristalina e efervescente do cravo.

Fundação Gulbenkian, segunda-feira 19, 21.00, 25-50€

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Oito concertos para cravo que precisa de ouvir

Concerto n.º1 BWV 1052, de J.S. Bach

Ano: c.1738-39

Em 1723, Johann Sebastian Bach assumiu o posto de Kantor de Leipzig e consagrou-se à. composição de música sacra a um ritmo frenético, mas os atritos crescentes com as autoridades municipais levaram-no a canalizar parte da energia e criatividade para a direcção do Collegium Musicum, um agrupamento vocacionado para concertos públicos e formado sobretudo por alunos universitários. O Collegium tornara-se na “banda da casa” do Café Zimmermann, actuando nas noites de sexta-feira, no Inverno, ou nas tardes de quarta-feira, no Verão (ao ar livre). Bach dirigiu o Collegium em 1729 e 1737 – com um interregno em 1739-41, em que a direcção esteve confiada a um aluno seu.

Supõe-se que terá sido para as sessões do Café Zimmermann que Bach transcreveu para cravo vários concertos para violino, oboé e violino e oboé que compusera em Cöthen – desses concertos transcritos chegaram aos nossos dias sete para um cravo, três para dois cravos e dois para três cravos (mais um para quatro cravos a partir do Concerto para quatro violinos RV 580 de Vivaldi) e terão tido como solistas Bach e os seus talentosos filhos Wilhelm Friedemann (1710-1784) e Carl Philipp Emanuel (1714-1788). As partituras dos concertos originais perderam-se quase todas e só sobreviveram na versão transcrita para cravo – embora, modernamente, os musicólogos tenham feito o processo inverso e apresentado propostas de reconstrução das obras originais.

[I andamento (Allegro) por Jean Rondeau et al., em instrumentos de época, do CD Dynastie (Warner Classics)]

Concerto em lá maior, de Seixas

Ano: antes de 1742

Não é possível apurar a data de composição do concerto de Carlos Seixas (1704-1742), mas será possivelmente um dos primeiros exemplares do género. Seixas nasceu em Coimbra, onde substitui o pai como organista da Sé local com apenas 14 anos. Aos 16 estabeleceu-se em Lisboa, onde se tornou organista da capela real e travou conhecimento com o italiano Domenico Scarlatti, cravista virtuoso que esteve ao serviço da corte de D. João V entre 1719 e 1728, tendo como principal missão ensinar o cravo à princesa Maria Bárbara. Chegaram aos nossos dias cerca de 100 sonatas para cravo da autoria de Seixas, mas apenas um concerto para cravo – o que não é de estranhar, pois o concerto para cravo foi um género pouco cultivado, mesmo entre os grande mestres do teclado do Barroco – Scarlatti, Handel, Couperin e Rameau não compuseram nenhum – e mesmo entre os compositores que produziram concertos em quantidades copiosas para os mais variados instrumentos – como Telemann e Vivaldi.

[Por Ketil Haugsand (cravo e direcção) e Orquestra Barroca Norueguesa, em instrumentos de época (Virgin/Warner)]

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Concerto em sol menor, de Monn

Ano: antes de 1750

Tal como Seixas, o austríaco Georg Matthias Monn (1717-1750) desempenhou funções oficiais como organista e teve uma vida breve e sobre a qual pouca informação chegou ao nosso tempo, o que torna difícil a datação das obras. Ocupou postos em Klosterneuburg, em Melk e na Karlskirche de Viena e deixou-nos 16 sinfonias e meia dúzia de concertos destinados ao violino, violoncelo, fortepiano ou cravo, no “estilo galante” do final do Barroco. O Concerto para cravo em sol menor é uma transcrição, provavelmente pelo próprio compositor, de um concerto para violoncelo.

[Por Sabine Bauer (cravo) e La Stagione Frankfurt, em instrumentos de época, com direcção de Michael Schneider (CPO)]

Concerto em sol menor, de Arne

Ano: década de 1750

A paixão do londrino Thomas Arne (1710-1778) pela música era tal que, em jovem, se deu ao trabalho, de esconder no seu quarto uma espineta (uma espécie de cravo de pequenas dimensões) no qual praticava pela noite dentro, depois de o abafar cuidadosamente para não despertar a família. Compôs grande quantidade de canções, cantatas, ópera e oratórias e alguma música instrumental, entre a qual estão 12 aberturas, oito sonatas e os Six Favourite Concertos para tecla (cravo, órgão ou pianoforte), provavelmente resultantes da reciclagem de música composta para o palco. É dessa colecção tardia que faz parte este concerto em sol menor.

[Por Trevor Pinnock (cravo e direcção) e The English Concert, em instrumentos de época (Archiv)]

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Concerto Wq.43/4 (H.474), de C.P.E. Bach

Ano: 1772

Carl Philipp Emanuel (1714-1788) teve o melhor professor de música e de cravo que possa imaginar-se – o pai, Johann Sebastian – e tornou-se num exímio cravista, tendo sido nessa qualidade que, em 1738, mal terminou o curso de Direito na Universidade de Leipzig, entrou ao serviço do príncipe Frederico da Prússia, que viria a subir ao trono dois anos depois como Frederico II (ficando conhecido como Frederico o Grande). C.P.E. Bach ficou na corte de Berlim até 1768, rumando depois para Hamburgo, onde tomou o lugar do seu falecido padrinho, Telemann. Deixou-nos meia centena de concertos, a maioria deles para cravo (ou instrumento similar); destes, os 6 Concerti per il Cembalo Concertato que publicou em 1772 em Hamburgo, ganharam popularidade acrescida, por visarem também um público amador (embora o conceito de “amador” do século XVIII implique um nível de proficiência bem acima do entendimento que hoje temos da expressão).

[Por Andreas Staier (cravo) e Orquestra Barroca de Freiburg, com direcção de Petra Müllejans (Harmonia Mundi); a capa que surge no vídeo do YouTube diz respeito a outro disco]

Concerto op.13/4 WC 65, de J.C. Bach

Ano: 1777

Se os concertos de Monn e C.P.E. Bach se filiam no “estilo galante” do final do Barroco, os de Johann Christian Bach (1735-1782), o filho mais novo de Johann Sebastian, anunciam outra época. Johann Christian tinha 15 anos à data do falecimento do pai, pelo que a influência deste no seu estilo resultou muito esbatida (foi o irmão Carl Philipp quem tomou o lugar do pai na sua instrução musical) e a maioria das obras do benjamim dos Bach prefigura Mozart e o classicismo. Aliás, o jovem Mozart tinha grande admiração por Johann Christian e os seus primeiros ensaios no concerto para tecla são adaptações de sonatas para cravo de Johann Christian.

Este compôs uma trintena de sinfonias, uma vintena de sinfonias concertantes e uma trintena de concertos, onde avultam mais de duas dúzias de concertos para cravo. Os seis que formam o op.13 foram publicados em 1777, em Londres, cidade para onde Johann Christian se mudara em 1762, e a partitura sugere que tanto o cravo como o fortepiano poderiam desempenhar o papel de solista.

[Por Raphael Alpermann e a Akademie für Alte Musik Berlin, com direcção de Stephan Mai (Harmonia Mundi)]

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Concerto para cravo, de Falla

Ano: 1926

As obras para tecla da maturidade de Haydn e Mozart já tinham o fortepiano como destinatário primordial e no final do século XVIII o cravo estava remetido a um olvido que só terminaria no início do século XX, graças à cravista polaca Wanda Landowska (1879-1959). Foi para ela que o espanhol Manuel de Falla (1876-1946) compôs o seu Concerto per Clavicembalo, em que o cravo tem a companhia, não de uma orquestra, mas de um pequeno ensemble com flauta, oboé, clarinete, violino e violoncelo. O facto de compor para um instrumento barroco não condicionou Falla a tentar emular o estilo dessa época: o registo da obra é um neo-classicismo despojado e anguloso.

[Por Elzbieta Chojnacka (cravo) e Radio Kamer Orkest Hilversum, com direcção de Cristóball Halffter, ao vivo em 1991]

Concert Champêtre, de Poulenc

Ano: 1928

Também o concerto para cravo de Francis Poulenc (1899-1963) foi motivado por Wanda Landowska, que era então a paladina solitária da ressurreição do cravo e deu a conhecer ao jovem compositor a obra dos grandes cravistas do barroco francês. Foi neles que Poulenc se inspirou para compor o Concert Champêtre, embora não deixando de lhe imprimir a sua marca. O colorido, efervescência e leveza (a raiar a frivolidade) do concerto de Poulenc contrastam com a austeridade do concerto de Falla.

[III andamento (Allegro), por Jean-Patrice Brosse (cravo) e a Orquestra Filarmónica de Monte Carlo, com direcção de Georges Prêtre (EMI/Warner)]

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