Sete árias para contratenor de Handel que precisa de ouvir

O contratenor Franco Fagioli e a orquestra Il Pomo d’Oro trazem a Lisboa um recital de árias de ópera de Handel. Estas sete servem de introdução ao universo de um compositor de inesgotável invenção melódica e apurado sentido dramático

©Julian LaidigFranco Fagioli

Handel por Franco Fagioli & Il Pomo d’Oro

O contratenor argentino Franco Fagioli e a orquestra de instrumentos de época Il Pomo d’Oro são dois expoentes da “interpretação historicamente informada” da ópera barroca e já colaboraram no CD Arias for Caffarelli, preenchido com árias de Hasse, Leo, Porpora, Sarro e Vinci. O curriculum de Fagioli inclui gravações integrais de Berenice e Teseo, de Handel, de Siroe, de Hasse, de Artaserse, de Vinci, do Stabat Mater de Steffani e de um disco de árias de Porpora.

O recital na Gulbenkian inclui árias das óperas Alcina, Ariodante, Giulio Cesare, Imeneo, Rinaldo e Serse.

Fundação Gulbenkian, terça-feira 21, 21.00. 15-30€.

Sete árias para contratenor de Handel que precisa de ouvir

“Cara Sposa”, de Rinaldo (1711)

Personagem: Rinaldo, cavaleiro da Casa d’Este
Estreada por: Niccolini (soprano castrato)

O libreto inspira-se vagamente no poema épico Gerusaleme Liberata, de Torquato Tasso, sobre a conquista de Jerusalém aos sarracenos na I Cruzada, em 1099. Quando a acção começa, o exército cruzado capitaneado por Goffredo (Godefroy de Bouillon) sitia Jerusalém e a conquista da cidade está iminente. Porém, o rei muçulmano Argante tenta ganhar tempo, contando com o auxílio da feiticeira Armida, rainha de Damasco. Esta chega e presume que se Rinaldo, o mais valoroso dos cavaleiros cristãos, for posto fora de combate, o ânimo dos sitiantes esmorecerá. Assim, quando, num ameno jardim, Rinaldo e a sua amada Almirena trocam juras de amor eterno, Armida irrompe bruscamente em cena e rapta Almirena, ajudada pelos espíritos malignos que invocou e impedem Rinaldo de reagir. É então que Rinaldo canta “Cara Sposa”: “Cara esposa, esposa cara, onde estás?/ Volta, volta, atende este lamento/ [...] Oh, espíritos cruéis do altar do Erebo/ É com este rosto de ira/ Que vos desafio!”

[Por David Daniels, com a Bayerisches Staatsorchester, dirigida por Harry Bickett, ao vivo em 2001, no Prinzregentheater, Munique]

“Va, Tacito e Nascosto”, de Giulio Cesare in Egitto (1724)

Personagem: Giulio Cesare (Júlio César), general romano Estreada por: Senesino (alto castrato)

O libreto alicerça-se em factos históricos da Antiguidade Clássica: Júlio César infligiria uma pesada derrota a Pompeu, seu rival na disputa pelo poder em Roma, na Batalha de Farsala, na Grécia, mas Pompeu escapara com vida. Júlio César perseguiu-o até ao Egipto, que era então governado pelos Ptolomeus, descendentes de um lugar-tenente de Alexandre III da Macedónia. O Egipto vivia então em clima de guerra civil, devido a desentendimentos entre os dois co-monarcas: Cleópatra VII, então com 21 anos, e Ptolomeu XIII, de 13 anos, seu irmão e esposo (os Ptolomeus tinham adoptado a tradição egípcia de casar os faraós com as irmãs). Mal chegou ao Egipto, Pompeu foi atraído a uma cilada pela facção de Ptolomeu – foi morto e decapitado e a cabeça foi entregue a Júlio César, esperando assim Ptolomeu conquistar as boas graças do poderoso general. César, que respeitava o rival Pompeu, ficou antes enojado e de pé atrás em relação a Ptolomeu. Quando Ptolomeu (Tolomeo, no libreto) lhe oferece alojamento no seu palácio, César manifesta a sua desconfiança através da ária “Va, Tacito e Nascosto”: “Vai silencioso e discreto/ O astuto caçador/ Quando busca a sua presa// E aquele que tem más intenções/ Não deixa que se revele/ O que lhe vai no coração”

[Por Andreas Scholl, com o Concerto Copenhagen, dirigido por Lars Ulrik Mortensen, em 2005, ao vivo no Real Teatro Dinamarquês, Copenhaga]

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“Dove Sei, Amato Bene?”, de Rodelinda (1725)

Personagem: Bertarido, rei (deposto) da Lombardia
Estreada por: Senesino (alto castrato)

O contexto histórico é a Itália medieval, mas com ténues vínculos a factos reais. Grimoaldo conquistou a Lombardia e, não satisfeito em ter ficado com o trono do rei Bertarido, pretende também ficar-lhe com a esposa, Rodelinda. Embora esta creia que Bertarido pereceu no campo de batalha, resiste aos avanços de Grimoaldo; ao mesmo tempo, Bertarido vagueia, incógnito, pelos campos e dá com o seu próprio túmulo – é sobre este que canta “Dove Sei, Amato Bene?”, expressando o seu amor pela esposa: “Onde estás, bem-amada?/ Vem e consola-me a alma// Sinto-me oprimido pela angústia/ E a minha cruel condição/ Só contigo a poderei suportar”.

[Por Andreas Scholl, com a Orchestra of the Age of Enlightenment, dirigida por William Christie, em 1998, ao vivo no Festival de Glyndebourne]

“Agitato da Fiere Tempeste”, de Riccardo Primo, Ré d’Inghilterra (1727)

Personagem: Ricardo I “Coração de Leão” (Riccardo Primo) Estreada por: Senesino (alto castrato)

Mais uma ópera ambientada no cenário das Cruzadas e com algum vínculo a factos reais: no caminho para a Terra Santa Ricardo I aportou a Chipre, então governada por Isaac Komnenos (Isacio, no libreto), e descobriu que o navio que transportava a sua irmã e a sua noiva, a princesa Berengaria de Navarra (Costanza, no libreto), tinha naufragado na costa cipriota e que Isaac aprisionara os sobreviventes. Perante o poderio das forças cruzadas, os aliados de Isaac abandonaram-no e ele foi facilmente derrotado e feito prisioneiro. Ricardo prometera a Isaac que não o colocaria a ferros e cumpriu, ordenando que fosse agrilhoado com uma corrente de prata, e libertou os náufragos aprisionados, casando-se com Berengaria numa cerimónia que teve lugar em Lemesos (hoje Limassol), a 12 de Maio de 1191. No fantasioso libreto, Ricardo apresenta-se a Isaac como embaixador do Rei de Inglaterra e consegue obter do rei cipriota a promessa de libertação da sua amada – a iminência de rever Costanza deixa o seu espírito em tumulto, o que é expresso na ária “Agitato da Fiere Tempeste”: “Batido por feroz tempestade/ Se o timoneiro revê a sua estrela/ Logo alegre e confiante fica// Já não teme a tormenta funesta/ Se ela surge e lhe mostra/ O caminho seguro”.

[Por Franco Fagioli, ao vivo na Händelfestspiele, Karlsruhe, 2014]

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“Senza Procelle Ancora”, de Poro, Re dell’Indie (1731)

Personagem: Poro, rei da Índia
Estreada por: Senesino (alto castrato)

Mais um libreto que inventa uma rocambolesca intriga amorosa em torno de factos históricos: após ter conquistado o Império Persa e submetido o que é hoje o Afeganistão e parte do Paquistão, Alexandre da Macedónia voltou a sua atenção para o subcontinente indiano: cruzou o Rio Indo e derrotou as forças do rei indiano Poro, cujo domínio corresponderia ao que é hoje o Punjab, na Batalha de Hidaspes. Todavia, Alexandre ficou favoravelmente impressionado com o seu adversário, pelo que não só o libertou como o nomeou governador (sátrapa, na designação persa) do reino que acabara de perder e ainda lhe concedeu domínio sobre outras terras adjacentes conquistadas pelos macedónios. No libreto da ópera, Alexandre fica impressionado, isso sim, com Cleofide, esposa de Poro, o que deixa este louco com ciúmes. Poro (sob identidade falsa) empreende então uma rebuscada maquinação para matar Alexandre e é a meio destas actividades conspirativas que canta a ária “Senza Procelle Ancora”, que medita na inconstância da sua sorte, comparando-se a um timoneiro que adormece enquanto voga num mar calmo e que, ao despertar, dá por si no meio de ondas alterosas.

[Por Franco Fagioli, ao vivo em Basileia, 2012]

“Scherza Infida”, de Ariodante (1735)

Personagem: Ariodante
Estreada por: Giovanni Carestini (alto castrato)

A acção passa-se numa Escócia medieval de fantasia. A filha do rei, Ginevra está apaixonada pelo príncipe Ariodante e rejeita os avanços de Polinesso, duque de Albany. Despeitado, este urde uma intriga maquiavélica que faz crer a Ariodante que Ginevra o trai: ao ver alguém com as roupas de Ginevra ter um encontro nocturno com Polinesso, Ariodante fica tão abatido que pensa em suicidar-se, mas é dissuadido pelo seu irmão, Lurcanio. A mistura de desespero e sede de vingança é expressa em “Scherza Infida”: “Troça, infiel, nos braços do teu amante/ Traído por ti,/ À morte me entregarei// Mas para quebrar este ignóbil laço/ Como espírito lúgubre/ Regressarei para te atormentar”.

[Por Franco Fagioli, com a Academia Montis Regalis, dirigida por Alessandro de Marchi

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“Ombra Mai Fu”, de Serse (1738)

Personagem: Serse (Xerxes)
Estreada por: Caffarelli (soprano castrato)

Serse foi um dos grandes fiascos da carreira de Handel e a culpa terá sido, em boa parte, do libreto, de autor anónimo, que enlaça os aspectos heróicos e nobres típicos da opera seria com uma componente cómica, mistura a que o público londrino não estava acostumado. O elemento cómico está presente logo na primeira ária, “Ombra Mai Fu”: o rei Xerxes da Pérsia está no seu jardim e expressa o seu intenso amor, não pela princesa da praxe, mas por... um plátano. O recitativo declara “Frondes ternas e belas/ Do meu plátano amado/ Que o destino vos seja propício/ Que trovões, relâmpagos e tormentas/ Não perturbem a tua paz/ Nem te profane o vento rapace” e a ária segue na mesma linha: “Sombra alguma/ De uma planta/ Me foi tão grata e querida/ Ou mais suave”.

[Por Philippe Jaroussky, com a Konzerthausorchester Berlin, dirigida por Vasily Petrenko]

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