A Time Out na sua caixa de entrada

Procurar
AT_thebeatlestobowie_nationalportraitgallery_2009press_CREDIT_The Beatles, 1964 copyright Robert Whi
© Robert WhitakerThe Beatles, 1964

Sete canções para adormecer

As canções de embalar não são um género esgotado. Mas nem todas as que se seguem induzem um sono tranquilo.

Escrito por
José Carlos Fernandes
Publicidade

O reino misterioso do sono nunca deixou de atrair os compositores de canções e, entre muitas escolhas possíveis, há neste lote gente conhecida como os Beatles, os Smiths e os Smashing Pumpkins. Estas sete substâncias hipnóticas podem ser tomadas sem receita médica, mas há que ter em atenção que alguns poderão produzir, nas almas mais sensíveis e quando consumidos repetidamente, efeitos secundários imprevisíveis. O importante é reter que as canções de embalar, apesar de talvez terem sido as primeiras criações musicais do Homo Sapiens, não são um género esgotado. A prova está aqui.

Recomendado: Dez clássicos do jazz para ouvir ao luar

Sete canções para adormecer

“I’m Only Sleeping”, de The Beatles
Photograph: REX/Shutterstock

“I’m Only Sleeping”, de The Beatles

Ano: 1966
Álbum: Revolver

“Por favor, não me acordes/ Não, não me sacudas/ Deixa-me estar onde estou, estou apenas a dormir/ [...] Por favor, não me estragues o dia/ Estou muito longe daqui/ E, na verdade, estou apenas a dormir”. A elevada densidade de substâncias psicotrópicas presente na atmosfera do pop-rock de meados dos anos 60 poderia levar a pensar que o pedido formulado por John Lennon exprimiria a vontade de o deixarem em paz na sua trip alimentada a químicos, mas não será descabido interpretá-lo literalmente: Lennon era preguiçoso e poucas coisas lhe davam mais prazer que dormir, pelo que passava todo o tempo que podia entre lençóis. É significativo que a sua mais célebre e enérgica tomada de posição política tenha sido o “Bed-In for Peace” de Março de 1969, quando, em sinal de protesto contra a Guerra do Vietnam, Lennon e Yoko Ono passaram uma semana na cama de Amesterdão, no Hotel Hilton (uma manifestação não perde legitimidade por ser feita com luxo e conforto).

A canção tem a particularidade de os solos de guitarra de George Harrison terem sido passados de trás para diante, uma técnica de estúdio que se tornaria muito comum, mas que teve aqui o seu momento pioneiro. E não é apenas um truque gratuito, pois reforça o ambiente onírico da canção.

“It’s Too Hot To Sleep”, de Virginia Astley
©DR

“It’s Too Hot To Sleep”, de Virginia Astley

Ano: 1983
Álbum: From Gardens Where We Feel Secure

É a nona e última parte de um poema sinfónico miminal-impressionista para piano, madeiras e ruídos da natureza que evoca um plácido dia de Verão na Inglaterra rural. O sol pôs-se, uma imensa tranquilidade desceu sobre os campos e as aves nocturnas e os grilos entoam o seu concerto encantatório, mas o dia foi escaldante – a peça anterior intitula-se “When the Fields Were on Fire” – e está ainda demasiado calor para que o sono venha.

From Gardens Where We Feel Secure surgiu na paisagem musical de 1983 como um OVNI e, 36 anos depois, continua a ser um disco surpreendente e que não corre o risco de ser confundido com o neo-classicismo ambiental de pacotilha que está hoje tão em voga.

Publicidade
“Asleep”, de The Smiths

“Asleep”, de The Smiths

Ano: 1985
Álbum: The World Won’t Listen

Não é das canções mais conhecidas dos Smiths, uma vez que veio ao mundo como lado B do single “The Boy With the Thorn in Its Side”; seria depois incluída na compilação The World Won’t Listen (1987) e acabou por ter alguma projecção tardia ao ser usada na banda sonora de The Perks of Being a Wallflower (2012). Também não é das mais características da banda, pois as guitarras de Johnny Marr estão ausentes (tal como o baixo e a bateria) e a voz tem apenas a companhia de um piano.

Aparentemente, a canção é sobre sono: “Canta até eu adormecer/ Canta até eu adormecer/ Estou cansado/ E quero ir para a cama”. Mas quando se examina a letra mais de perto intui-se que o seu verdadeiro tema é a irmã do sono, a morte – e, mais precisamente, uma morte desejada. Por outras palavras, é uma canção sobre suicídio: “Não tentes acordar-me pela manhã/ Porque eu terei partido/ Não sintas penas de mim/ Quero que saibas/ Que, no fundo do coração,/ Ficarei feliz por partir/ [...] Há um outro mundo/ Há um mundo melhor/ Bem, deve haver”.

O pendor depressivo das letras de Morrissey costuma ser redimido por uma ironia corrosiva, mas em “Asleep” ele não se manifesta.

“In the Arms of Sleep”, dos Smashing Pumpkins
© Linda Strawberry

“In the Arms of Sleep”, dos Smashing Pumpkins

Ano: 1995
Álbum: Mellon Collie and the Infinite Sadness

As 28 canções do 3.º álbum dos Smashing Pumpkins abrangem uma grande variedade de registos, que vão de máquinas trituradoras, eriçadas de espinhos e fúria, a delicadas baladas acústicas. “In the Arms of Sleep” está no extremo mais macio do espectro (Jimmy Chamberlin até toca com vassouras, em vez de martelar a bateria como se não houvesse amanhã) e ondula num embalador ritmo de 6/8, mas a suavidade não implica necessariamente doçura: “O sono não chegará a este corpo cansado/ A paz não virá a este coração solitário/ Há coisas sem as quais consigo viver/ Mas quero que saibas que preciso de ti, agora/ Preciso de ti esta noite”. É uma canção sobre um amor condenado à partida pelo facto de não ser senão parcialmente correspondido: “Sempre precisarei mais dela do que ela alguma vez precisará de mim”.

Publicidade
“Sleepy Song”, dos Tindersticks
Photo: Christophe Agou

“Sleepy Song”, dos Tindersticks

Ano: 1995
Álbum: Tindersticks (II)

A voz de Stuart Staples tem, já de si, uma natureza “ensonada” – é talvez o único cantor que conseguiu “safar-se” cultivando a pastosidade e o entaramelamento –, qualidade que está em destaque em “Sleepy Song”, do 2.º álbum da banda. A canção tem uma atmosfera hipnótica e rarefeita – que regista um abrupto pico de intensidade e densidade (com entrada de guitarras distorcidas, cordas e metais) entre os 3’40 e os 4’00 – e a voz de Staples está reduzida a um murmúrio: “Se me deixares dormir/ Não irei acordar/ Não fechei os olhos durante dias”.

O 2.º álbum dos Tindersticks foi, essencialmente, gravado no Conny’s Studio, em Colónia, mas “Sleepy Song” foi gravada nos famosos estúdios de Abbey Road, de uma assentada e recorrendo apenas a um microfone.

“Everyone’s Asleep in the House But Me”, de Owen
©DR

“Everyone’s Asleep in the House But Me”, de Owen

Ano: 2011
Álbum: Ghost Town

“Na casa todos dormem menos eu/ Todos se renderam há muito à promessa dos sonhos/ Todos dormem/ Suspendendo a realidade”. Só um alma solitária continua desperta, incomodada pelo calor e “tentando caminhar a direito/ O que não é fácil quando se é estrábico”.

Owen foi o nome escolhido por Mike Kinsella para a sua carreira a solo, nos intervalos dos múltiplos afazeres como frontman dos American Football e membro dos Owls, Cap’n Jazz, Joan of Arc e Their/They’re/There, e Ghost Town foi o seu 6.º álbum (entretanto saíram mais dois). As letras de Kinsella – como Owen – são quase sempre amargas, cruas e auto-depreciativas e “Everyone’s Asleep in the House But Me” não é excepção: “Estou a queimar tempo numa cidade fantasma/ Luzes foscas e sons abafados/ Isto é como estar morto, deixando como vestígio/ Pouco mais do que uma mancha na alcatifa”.

Publicidade

“Falling Asleep”, de The Clientelle

Ano: 2017
Álbum: Music for the Age of Miracles

“Vozes movem-se pela casa em repouso/ Baque de pés e portas que se fecham, abafadas/ Lá fora a noite é uma obscuridade que cheira a outono/ Povoada pelas árvores sussurrantes/ Do parque fronteiro/ Uivos de cães como sinos solitários/ A lua, vermelha e baixa, começa a erguer-se/ As garças lançam os seus chamamentos/ E agitam-se junto ao charco/ Os mochos ululantes planam sobre as claras medas de aveia”.

Uma letra sobre quietude repleta de sons é um delicioso paradoxo – e quando se lhe soma a voz embaladora de Alasdair McLean, a música rendilhada de The Clientelle e sumptuosos arranjos orquestrais, entra-se num domínio suspenso entre a vigília e o sono, a realidade e o sonho,  que poucas vezes a música consegue atingir.

Music for the Age of Miracles é o 6.º álbum na pausada carreira de quase 30 anos desta banda londrina a que, inexplicavelmente, os britânicos não dão grande importância.

História da música

Publicidade
Recomendado
    Também poderá gostar
      Publicidade