Sete canções para ouvir enquanto pedala

Já se sabe que o automóvel foi e continua a ser um dos temas centrais do pop rock, mas, em tempos em que tanto se fala de sustentabilidade, é bom lembrar que não faltam canções sobre bicicletas
Trailer de Bicicleta de Montanha
©DR
Por José Carlos Fernandes |
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O título desta lista é meramente alegórico, pois a Time Out não pretende que os seus leitores se envolvam em acidentes de trânsito. As canções que se seguem, embora tendo a bicicleta como assunto, serão desfrutadas com maior segurança se as nádegas do ouvinte estiverem assentes em algo mais estável do que o selim de uma bicicleta e se os ouvidos e os olhos não tiverem de estar concentrados nas manobras de veículos, peões e canídeos. Quem faça mesmo questão de ouvir enquanto pedala poderá recorrer a uma daquelas bicicletas estacionárias dos ginásios.

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Sete canções para ouvir enquanto pedala

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“Daisy Bell (Bicycle Built For Two)”, por Nat King Cole

Ano: 1892/1963

A canção foi composta por Henry Dacre (1857-1922), um britânico que acabara de mudar-se para os EUA, levando consigo a sua bicicleta. Logrou um sucesso instantâneo, e embora Dacre tivesse composto várias outras canções que se tornaram populares, acabou por ficar conhecido como o autor de “Daisy Bell”. A cançoneta tem uma letra algo ingénua, em que o apaixonado pede à sua amada Daisy que se case com ele: “Não será um casamento em grande/ Pois não posso pagar uma carruagem/ Mas farás boa figura pelas ruas/ Numa bicicleta de dois lugares// Iremos em parceria como marido e mulher/ Daisy, Daisy/ Pedalando pela estrada da vida”.

Apesar de em 1963 a voga de “Daisy Bell” já ter passado há muito, Nat King Cole repescou-a para Those Lazy-Hazy-Crazy Days of Summer, um álbum, orquestrado por Ralph Carmichael, que celebra as coisas que podem fazer-se nos dias e noites quentes de Verão.

[Versão de Nat King Cole]

Mas já alguém se lembrara de “Daisy Bell” no ano anterior e em circunstâncias peculiares: quando os Bell Labs quiseram testar as capacidades de síntese de voz do computador IBM 704, recorreram a “Daisy Bell”.

[Versão tocada e cantada pelo IBM 704, em 1962]

Quis o acaso que nesse dia Arthur C. Clarke estivesse de visita aos Bell Labs e assistisse à estreia mundial de um computador no canto – alguns anos depois aproveitaria a ideia para o argumento de 2001: Odisseia no Espaço, escrito em parceria com o realizador Stanley Kubrick.

[Momento de 2001: Odisseia no Espaço (1968) em que o computador HAL canta “Daisy Bell”]

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“Bike”, dos Pink Floyd

Ano: 1967

Estes não são os Pink Floyd que todos conhecem e que tiveram uma carreira que só terminou em 2014 e venderam 250 milhões de discos. Esta era a ideia original dos Pink Floyd, que só nos legou o álbum The Piper at the Gates of Dawn e foi, essencialmente, um fruto da mente fervilhante do cantor e guitarrista Syd Barrett. Os Pink Floyd pós-Barrett converteram-se, a partir do início dos anos 70, numa banda cada vez mais sorumbática, cinzenta, grandiloquente, calculista e avara de ideias. Os Pink Floyd de “Bike” são lunáticos, coloridos, despretensiosos, ingénuos e generosos e o seu psicadelismo anda de mãos dadas com as nursery rhymes mais tolas: “Tenho uma bicicleta/ Podes dar uma volta se quiseres/ Tem um cesto/ Uma campainha que toca/ E outras coisas que lhe dão pinta/ Dar-ta-ia se pudesse/ Mas é emprestada”.

A canção promete também oferecer uma capa, um rato e uma tribo de homens de gengibre a uma rapariga “que encaixa no meu mundo” - – e que era Jenny Spires, a namorada de Barrett – e que, portanto, merece tudo. Na última estrofe, ele oferece-lhe uma sala cheia de canções e a partir de 1’57 é isso que se ouve: uma cacofonia de caixinhas de música ensandecidas.

Se esta canção lhe der vontade de andar de bicicleta, convém que não o faça sob a influência das substâncias que parecem ter alimentado a inspiração de Barrett.

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“Broken Bicycles”, de Tom Waits

Ano: 1982

Esta é uma canção ao arrepio do tom positivo usualmente associado às canções sobre velocípedes: “Bicicletas desfeitas, velhas correntes partidas/ E guiadores quebrados, lá fora à chuva/ Alguém devia abrir um orfanato/ Para todas as coisas que já ninguém quer/ Setembro recorda Julho/ É tempo de dizer adeus/ O Verão passou, o nosso amor ficará/ Como velhas bicicletas desfeitas à chuva”. Evoca-se uma relação que passou, mas cuja memória nunca se apagará “Porque todas as coisas que me deste/ Ficarão para sempre, pois mesmo estando partidas nunca as deitarei fora”.

A canção faz parte da banda sonora de Tom Waits para o filme One From the Heart, de Francis Ford Coppola.

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“Tour de France”, dos Kraftwerk

Ano: 1983/2003

Não é imediata a associação entre bicicletas e os Kraftwerk, banda que parece mais inclinada para usar comboios (que homenagearam em “Trans-Europe Express”, do sexto álbum, de 1977) e auto-estradas (que deram nome ao seu quarto álbum, Autobahn, de 1974) e cuja postura parece desdenhar qualquer actividade que faça transpirar. Porém, no início dos anos 80 alguns dos membros da banda estavam a descobrir as alegrias de pedalar e conceberam esta homenagem à mais célebre prova velocipédica do mundo.

A canção “Tour de France” destinava-se a fazer parte de Techno Pop, um álbum que nunca viu a luz do dia, pelo que acabou por ser lançada como single em 1983. Ressurgiu, numa nova versão, em 2003 no álbum Tour de France Soundtracks, que foi o primeiro da banda em 17 anos e deveria ter assinalado o primeiro centenário do Tour de France. O single com a nova versão de “Tour de France” saiu em Junho, mas o álbum, recheado de títulos alusivos à prova, como “Chrono”, “Vitamin”, “Aéro Dynamik” ou “Titanium” (não ficaria mal também um “Doping”), atrasou-se e só saiu depois do evento, em Agosto.

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“Bicycle Song”, dos Red Hot Chili Peppers

Ano: 2004

Os Red Hot Chili Peppers também não são banda que se associe a bicicletas, pois são de Los Angeles, terra de auto-estradas, onde o automóvel reina sem contestação. A haver afinidades, será quiçá pela farmacopeia que faz girar o desporto velocipédico...

“Bicycle Song” não faz parte dos álbuns originais da banda, é uma faixa-bónus gravada em 2004 e incluída na edição iTunes de By the Way (2002), o oitavo álbum da banda, e mostra esta na sua vertente mais pop – há um momento do refrão em que não andam longe de The Smiths. “Como posso ter-me esquecido de mencionar a bicicleta?”, pergunta Anthony Kiedis, mas a letra não fornece pistas para o papel desempenhado pelo velocípede neste seu encontro com “a única rapariga que me tocou de verdade”.

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“Riding Bikes”, dos Shellac

Ano: 2014

“Riding Bikes” evoca vivências de infância: “Eu e o Ted éramos pequenos/ E andávamos de bicicleta pelo paredão/ Roubando e partindo coisas/ Ele dava-me cobertura e eu a ele/ O que nos unia/ E fazia com que fôssemos quase como irmãos”.

A canção faz parte de Dude Incredible, o quinto álbum dos Shellac, liderada pelo lendário produtor Steve Albini, que aqui assume a voz e a guitarra.

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“Lauren”, dos Men I Trust

Ano: 2016

Há quem gaste fortunas em fazer videoclips espaventosos – o modelo continua para muitos a ser o sobrevalorizado “Thriller”, de Michael Jackson, realizado por John Landis – mas para fazer videoclips fascinantes basta uma rapariga, uma bicicleta e um vestido fresco e de cor adequada. E, é claro, música que rola sem atrito, criada por esta banda surgida em 2014 em Montreal, Canadá, e cujo teclista, Dragos Chiriac, é também o realizador do videoclip.

“Não posso ficar para sempre/ Junto à janela/ [...] Preciso que um murmúrio me faça mover/ Atravessar os campos pelo simples prazer de o fazer/ Sincronizar-me com o mundo lá fora/ Para que melhor possa ter saudades de casa”. Ainda está aí a olhar pela janela?

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Deep Purple
©DR
Música, Pop

10 concertos pop-rock ao vivo com orquestra

O pop-rock sofre de algum complexo de inferioridade face à música dita “erudita” e é por essa razão que alguns grupos vêem na actuação com uma orquestra clássica uma forma de ganhar respeitabilidade. Quem pensa assim está equivocado, pois o pop-rock não precisa de envergar traje de cerimónia para ser digno, fica muito bem de calças de ganga rasgadas e t-shirt desbotada. A verdade é que, em muitos casos, a adição de uma orquestra traz pompa e espalhafato em vez de um acréscimo de sofisticação ou acaba até por pôr em evidência a pobreza da composição. A adequação dos arranjos é fundamental, mas se o material original não for bom, não é cobrindo-o com um glacé de metais e creme de cordas que vai tornar-se tragável.

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