Sete sonatas para piano de Beethoven que precisa de ouvir

Elisabeth Leonskaja vem a Lisboa tocar as três derradeiras sonatas para piano de Beethoven. Embora estas sejam colossos que dominam a produção pianística do mestre de Bona, não faltam motivos de interesse nas outras

©Julia WeselyElisabeth Leonskaja

Beethoven por Elisabeth Leonskaja 

Elisabeth Leonskaja, nascida em 1945, em Tbilisi, na Geórgia (então parte da URSS), fez a sua primeira aparição pública aos 11 anos, com o Concerto para piano n.º 1 de Beethoven, foi aluna de Jacob Milstein no Conservatório de Moscovo e manteve durante muitos anos com Sviatoslav Richter um duo de piano. Vive desde 1978 na Áustria e tem vasta discografia, sobretudo na Teldec e na MDG – foi nesta última que lançou em 2010 um disco com o programa que agora traz a Lisboa, com as últimas sonatas para piano de Beethoven: n.º 30 op. 109, n.º 31 op. 110 e n.º 32 op.111.

Fundação Gulbenkian, terça-feira 16, 21.00, 15-30€

 

Sete sonatas para piano de Beethoven que precisa de ouvir

n.º 8 op.13 “Pathétique”

Ano: 1798

Composta aos 27 anos, é uma das mais belas sonatas do chamado “primeiro período” de Beethoven (1794-1800), cujas peças para piano se inscrevem sob a influência de Haydn e Mozart (há afinidades com o lirismo mozartiano no Adagio cantabile desta n.º 8). Como é usual nas sonatas de Beethoven, o título não foi responsabilidade do compositor: foi o editor que a designou como “Grande Sonate Pathétique”, a que se seguia a indicação que se destinava “ao cravo ou ao pianoforte”, o que demonstra que o cravo ainda não estava completamente extinto em Viena no dealbar do século XIX. A partitura foi dedicada ao príncipe Karl von Lichnowsky, amigo e mecenas de Beethoven

[II andamento (Adagio cantabile), por Yundi Li]

n.º 14 op.27/2 “Ao Luar”

Ano: 1801

A Sonata “Ao Luar” é uma das primeiras do “segundo período” de Beethoven (1800-1815) e, mais uma vez, o compositor é completamente alheio ao título, que foi uma pura invenção do poeta Ludwig Rellstab, que proclamou, após a morte de Beethoven, que a sonata seria a evocação de um passeio ao luar pelo Lago dos Quatro Cantões, na Suíça, onde, de resto, Beethoven nunca esteve. O título da edição original, de 1802, em Viena, refere-a como “Sonata quasi una fantasia, dedicada à Condessa Giulietta Guicciardi”, uma aluna do compositor. O hipnótico e melancólico I andamento (Adagio sostenuto) tornou-se tão popular que muitos ouvintes distraídos desconhecem a existência dos outros dois – um Allegretto despretensioso e bem-humorado e um Presto agitato tempestuoso, cujas enxurradas de notas e ímpeto descontrolado podem ser vistas como a libertação de tensões secretamente acumuladas durante o Adagio sostenuto.

[I andamento (Adagio sostenuto), por Paul Lewis (Harmonia Mundi)]

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n.º 23 op.57 “Appassionata”

Ano: 1805

A Sonata n.º 23 é contemporânea da Sinfonia n.º 3 e foi dedicada ao conde Franz von Brunswick, um membro do círculo de amizades aristocráticas de Beethoven e um competente violoncelista amador, que acabaria por casar-se com uma pianista. O título foi inventado por um editor, vários anos após a morte de Beethoven. Tal como na Sonata n.º 14, o seu III andamento é varrido por um vendaval desabrido.

[III andamento (Allegro ma non troppo), por Valentina Lisitsa, em ensaio antes de um recital no Musikverein de Viena]

n.º 29 op. 106 “Hammerklavier”

Ano: 1818

É a segunda sonata do “terceiro período” de Beethoven (1815-1827), marcado por variações bruscas de humor e por um fascínio pela fuga, cuja presença na música de tecla declinara desde o final do período barroco. O título original – que Beethoven fez questão que fosse em alemão, ao contrário das sonatas anteriores, que receberam títulos em italiano ou em francês – é “Grosse Sonate für das Hammerklavier”. “Hammerklavier” – literalmente “teclado de martelos” – significa apenas que se destina ao pianoforte, o que já acontecia, na prática, com todas as sonatas de Beethoven desde a n.º 15 op.28, pelo que não diz nada de particular sobre esta sonata. Já “Grosse” (grande) faz sentido: nunca ninguém tinha composto uma sonata desta envergadura, com um Adagio sostenuto que dura tanto (17-20 minutos) como toda uma sonata de Haydn ou Mozart e uma extensão total de 42-52 minutos. A obra foi dedicada ao arquiduque Rudolfo da Áustria, um ex-aluno de piano e um zeloso mecenas de Beethoven (foi também aquele a quem Beethoven dedicou mais obras de primeira grandeza).

[III andamento (Adagio sostenuto), por Wilhelm Kempf]

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n.º 30 op. 109

Ano: 1820

As três derradeiras sonatas foram compostas em 1820-22, pela mesma altura em que Beethoven trabalhava noutra obra-prima, a Missa Solemnis. Após a agitação do Prestissimo, o III Andamento (Andante molto cantabile ed espressivo) traz a indicação Gesangvoll, mit innigster Empfindung (cantável e com a mais íntima expressão) e apresenta-se como uma série de seis variações de prodigiosa invenção e lirismo. Foi dedicada a Maximiliane Brentano, filha de Antonia Brentano, uma amiga do compositor.

[III andamento (Gesangvoll, mit innigster Empfindung) por Mitsuko Uchida (Philips/Decca)]

n.º 31 op. 110

Ano: 1821

Quem associe o Beethoven dos últimos anos a sisudez tem um desmentido na traquinice e nas irregularidades rítmicas do II andamento (Allegro molto) da Sonata n.º 31.

[II andamento (Allegro molto), por Rudolf Serkin, 1987]

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n.º 32 op.111

Ano: 1822

Foi novamente ao Arquiduque Rudolfo que Beethoven dedicou a sua última sonata, que se compõe apenas de dois andamentos. O II (Arietta), com a indicação Adagio molto semplice e cantabile, contrasta o ardor e agitação do andamento precedente ao abrir com uma melodia de uma beleza e singeleza inefáveis, que depois é alvo de oito variações de uma inventividade prodigiosa (na III variação até emerge uma surpreendente prefiguração de um boogie-woogie).

[II andamento (Arietta), por Maurizio Pollini, ao vivo no Festival de Lucerna, 2012]

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