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Virar travesti em Portugal
Lindsay Adler

O primeiro retrato sobre a prostituição travesti em Portugal foi agora transformado em livro

Nélson Alves Ramalho traça um retrato da prostituição travesti em Portugal e a sua tese de doutoramento, agora transformada em livro, ganhou o prémio APAV de investigação.

Por Clara Silva
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Durante cinco anos, Nélson Alves Ramalho acompanhou várias prostitutas travesti em Lisboa, principalmente na zona do Conde Redondo, conta, primeiro como assistente social e depois para uma investigação no âmbito da sua tese de doutoramento de Serviço Social no ISCTE.

Virar travesti: trajetórias de vida, prostituição e vulnerabilidade social, tese defendida o ano passado, acabou por ser distinguida com o Prémio para a Investigação APAV, que além de um prémio monetário inclui a publicação de um livro, agora editado pela Tinta da China e em formato “história”, com uma linguagem menos académica.

“Em Portugal, a população travesti trabalhadora do sexo não tem sido alvo de interesse científico, razão pela qual se mantém praticamente desconhecida”, explica Nélson. “Ao não haver um real entendimento sobre ela, os discursos produzidos, na sua maioria a partir de um contacto superficial, têm favorecido a construção de imagens estigmatizantes, com consequências ao nível da sua exclusão.” A utilização da palavra travesti e não trans, como muitas vezes estas pessoas são descritas até pela própria comunidade LGBT, é um exemplo. “É assim que se referem a si próprias”, explica.

O assistente social imergiu nas suas vidas e nas suas casas para compreender a sua identidade, os processos de vulnerabilidade social a que diariamente estão sujeitas e a prostituição. Durante esse tempo, diz não ter visto nenhuma associação LGBT+ no terreno, reforçando mais ainda a sua exclusão social.

Durante a investigação, e depois de ter sido integrado no projecto Trans-Porta, através da Delegação de Lisboa, Tejo e Sado, da Associação para o Planeamento da Família, começou por ser tratado nas entrevistas como “o doutor”. Foi preciso ganhar confiança e frequentar os lugares onde estas travestis se moviam. “Percebi que a entrevista [mais institucional, através do contacto de colegas] não era totalmente genuína porque se inibiam de expressarem, se calhar, algum palavrão. Eram politicamente correctas e percebi que o caminho não era por aí”, conta. “Para conseguir entrevistas com estas pessoas tinha de criar relação com elas no contexto de rua. A maior parte das entrevistas foram feitas depois nos seus quartos, nas suas camas e em locais de ‘puteiros’, como algumas designam.”

Dedica esta tese e o novo livro Virar Travesti a “outras Gisbertas não noticiadas” que viu morrer, descreve: Lola, Fininha, Bionda e Natacha. “São trabalhadoras do sexo travestis que faleceram. Uma por questões relacionadas com drogas, outra por HIV… Há muitas Gisbertas não noticiadas, mas que existem.”

O financiamento para o projecto social entretanto terminou mas Nélson continua a trabalhar como voluntário com esta população travesti em Lisboa.

“Virar Travesti”, Tinta da China. 17,91€ 

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