Verdi: La Traviata

Teatro, Clássica
Verdi: La Traviata
©Alfredo Rocha La Traviata

La Traviata é um daqueles títulos que se tornaram tão familiares que mesmo os iniciados no mundo da música clássica o ouvem e repetem 
sem pensar nele. Ora, “La Traviata” não é o nome de
 uma personagem: significa “a transviada”, no sentido de uma mulher que se afastou da moral e da respeitabilidade burguesas e exerce o mister de cortesã. Violetta Valéry é a mulher “desencaminhada” (ou “caída” ou “perdida”) a que o título alude e fará também “desencaminhar” Alfredo Germont, filho de boas famílias que se apaixona perdidamente por ela mal a vê no salon parisiense em que Violetta dá uma festa para celebrar a sua recuperação de uma enfermidade – não tardaremos a perceber que esse regresso à saúde é ilusório e que a doença que a mina é (era, no século XIX) incurável.

Verdi utilizara até aí nas suas óperas respeitáveis temas históricos e bíblicos, mas quando assistiu, em Paris, em 1852, a uma representação de A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, logo pensou em musicar a paixão funesta entre a cortesã tísica Marguerite Gautier e o jovem burguês Armand Duval
– que ganhariam outros nomes no libreto de Francesco Maria Piave. A peça de Dumas estreada em 1852 era uma adaptação sua do romance homónimo que publicara quatro anos antes e que se inspirava na sua relação com Marie Duplessis, uma célebre cortesã parisiense que, na sua breve vida, foi amante de uma notável série de aristocratas e artistas – entre os quais Franz Liszt. Duplessis morreu, em resultado da tuberculose, em 1847, aos 23 anos, embora não nos braços de Dumas, cuja relação terminara em 1845.

La Traviata foi composta para a temporada do Carnaval de 1853 do Teatro La Fenice, em Veneza, e, inesperadamente, os censores venezianos, habitualmente picuinhas quanto aos libretos, apenas impuseram que o título original, Amor e Morte, fosse alterado e que a acção recuasse até ao tempo de Richelieu – como se os assuntos “indecentes” se tornassem mais aceitáveis quando empurrados para uma época remota. A estreia foi um fiasco, mas a reposição de 1853, noutro teatro veneziano, foi um sucesso estrondoso – o público é volúvel, já se sabe – que alastrou por Itália e pelo mundo.

No TNSC, Ekaterina Bakanova e Ivan Magri serão Violetta
e Alfredo e Alan Opie o pai Germont, que se opõe a que o filho se conubie com uma cortesã. Com Joana Seara (Flora Bervoix), Carolina Figueiredo (Annina), Mário Redondo (Barão Duphol), Coro do TNSC e Orquestra Sinfónica Portuguesa, com direcção de Michele Gamba e encenação de Pier Luigi Pizzi.


Por José Carlos Fernandes

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