Mondo Deli

Restaurantes, Fusão Baixa
4 /5 estrelas
Mondo Deli
© João Saramago

Sou fã de mesas corridas. Quando o Casanova inaugurou o conceito, em Lisboa, a coisa foi controversa. Alguns espíritos urbanos sentiam-se devassados na sua privacidade ou incomodados com o exibicionismo dos vizinhos. As minhas experiências foram sempre interessantes. Logo numa das primeiras refeições comunais, lembro-me de ficar ao lado de uma actriz conhecida que relatava intimidades coloridas de colegas de telenovela. Entretenimento do bom. Noutra altura, foi um grupo de holandeses em férias no Porto a dar-me uma lição sobre ervas psicotrópicas (em troca, mostrei-lhes o que deixa os portugueses malucos: bacalhau). Formação para a vida. Depois, ao longo do tempo e de outras mesas partilhadas, houve várias dicas gastronómicas valiosas – tem de provar isto, não tem de provar aquilo –, alguma filosofia barata, mas quase sempre bons momentos com humanos.

Neste Mondo Deli, inaugurado por dois alemães – um ex-jornalista de moda e um designer industrial com ateliê no primeiro andar – voltou a acontecer.

Os lugares são todos em mesas corridas, todas magníficas de madeira, como é aliás a decoração, limpa e luminosa sem os clichés habituais das decorações limpas e luminosas. Fiquei no pátio, nas traseiras, noite de Verão como há poucas no Porto, e apresentei-me sozinho.

Acolheu-me um casal de homens bronzeados e um grupo de amigas nos seus 30 anos, na outra ponta da mesa. Uma delas falava de Dhaka como quem fala dos Aliados, a outra chegara de Hong Kong e já ia voltar, outra era pintora e street artist. Tudo pessoas viajadas e arejadas e gourmandes, que não só me emprestaram um carregador de telemóvel como me sugeriram o que pedir.

Em boa altura aceitei a dica. O primeiro prato a vir para a mesa foi um “carpaccio de beterraba”, de grande efeito nos olhos e na boca. Fresco, com um iogurte suave de rábano, mais amargo do que doce, vinagreta de maçã e óleo de abóbora.

A seguir – enfim, não logo a seguir, que o empregado era só um e não tinha pressa – um caril de grão com amendoins torrados e espargos frescos. Tudo saboroso, leve, ligeiramente adocicado e ácido, acompanhado de um arroz selvagem cozido no ponto. Enquanto isso, as minhas amigas de “Sexo e a Cidade” comiam coisas invejáveis. Muito promissora a beringela com iogurte e romã, parecida com um prato célebre de Ottolenghi, o guru vegetariano do Médio Oriente;
e aplauso em uníssono para as gyosas japonesas de camarão.

Entre garfadas, os comensais enriqueciam-me com antropologia asiática sobre despedidas de solteiras no Bangladesh e de como os milionários locais insistiam em comprar Porsches Cayenne para andar em caminhos de terra batida.

A terminar, o empregado zen e espirituoso não deixou dúvidas sobre que sobremesa escolher.
– O que aconselha?
– A ganache de chocolate! Eh pá, a primeira vez que o Marcus fez isto e eu experimentei foi uma viagem...”, atirou, as mãos puxando o cabelo para trás, os olhos fechados, como se estivesse em transe.
– O que é que leva?

– Eu sei lá o que é que leva!

Autenticidade ao limite, expressividade ao cubo. Levava chocolate amargo com malagueta, um creme suave de leite e frutos secos. Muito bom.

O Mondo Deli é um restaurante-galeria único, dos mais bonitos da cidade, onde se cozinha com amor e se dão a comer coisas novas, por 20/25 euros. Nem tudo funciona, o serviço pode ser trágico, o vinho pode vir morninho, a espera longa. Mas teremos sempre as pessoas. Numa mesa corrida Que cresça e floresça.

*As críticas da Time Out dizem respeito a uma ou mais visitas feitas pelos críticos da revista, de forma anónima, à data de publicação em papel. Não nos responsabilizamos nem actualizamos informações relativas a alterações de chef, carta ou espaço. Foi assim que aconteceu.

Por Alfredo Lacerda

Publicado:

Nome do local Mondo Deli
Contato
Endereço Rua do Almada, 501
Porto
4050-039
Horário Ter-Qui 16.00-23.00, Sex-Sáb 16.00-00.00
Preço Até 30€
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