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Se não podes vencê-los, junta-te a eles. Foi esta velha máxima, que ouviu repetidamente da boca da avó enquanto crescia, que levou Jen Viana a abrir o seu próprio restaurante no Mercado da Vila, em Cascais. Cansada dos horários exigentes do marido, Jorge Cerqueira (um dos responsáveis pelos já históricos restaurantes cascalenses Luzmar e Visconde da Luz), ossos do ofício, decidiu ocupar-se de igual modo e abrir o seu próprio espaço – naturalmente com todo o apoio e experiência do companheiro.
Assim nasceu a Casa Viana a 12 de Julho, no espaço onde outrora funcionava o mexicano Azteca, que teve uma vida curta de um ano e meio. Acima de tudo, este é um restaurante que espelha o Nordeste brasileiro – de onde Jen é natural, tendo crescido no estado do Ceará – e a respectiva “comida afectiva de conforto”. “É um restaurante de comida da avó e quem está na cozinha é mesmo a minha mãe, Ângela Viana”, conta à Time Out Cascais.

O gatilho para tomar a decisão e seguir em frente com o projecto deu-se depois de uma viagem de férias ao Brasil em 2024, onde já não vive há 11 anos. “Levei as minhas filhas para conhecer as origens da família materna, estivemos na fazenda dos meus avós. Voltei de lá saudosa e apareceu a ideia de criar um pedaço do nosso Nordeste, da nossa história, em Cascais – até porque Cascais também é um lugar cheio de história e com muitos brasileiros. Também descobrimos recentemente que o meu avô é descendente de portugueses, foi um fervilhar de emoções e tudo começou assim.”
Com 80 lugares sentados, entre a sala interior e a esplanada no Mercado, aproveitaram o que fazia sentido do Azteca, mas cortaram uma parte do balcão para criarem uma zona de estar com uma cama de rede – que, dizem, é mesmo para usar, sobretudo depois da feijoada brasileira que Ângela Viana cozinha todos os fins-de-semana. Nas paredes, que lembram a terra barrenta do Nordeste, está loiça típica e quadros com saberes inspiradores.

Os responsáveis desafiam qualquer cliente a acrescentar à sua parede um antigo prato de família brasileira, em troca de uma refeição grátis. Na entrada, encontramos uma fotografia emoldurada da fazenda do Ceará, sendo que há outras imagens do clã Viana espalhadas pelo restaurante, num espaço que faz lembrar casa, mesmo para quem nunca visitou o Nordeste brasileiro, e que se pretende familiar. “Quisemos quase fazer um portal e temos bens pessoais dos meus familiares trazidos da fazenda. É muito afecto, amor e trabalho árduo”, descreve Jen.
Para Jorge Cerqueira, o projecto revelou-se “desafiante” tendo em conta que cresceu em restaurantes mas habituado à comida tradicional portuguesa, sobretudo em espaços virados para o peixe e o marisco. “Mesmo para quem está já há alguns anos na restauração, é desafiante perceber toda esta dinâmica da comida afectiva”, explica. “Não é da comida brasileira, é da comida afectiva brasileira. É como, em Portugal, aquela comida da nossa avó do Norte ou do interior, só que transportado para o contexto brasileiro. É comida caseira, literalmente da avó, feita pela minha sogra, que já passou como cozinheira por outros restaurantes de Cascais.”

A ementa foi pensada para ter pratos de partilha, tal como se come à mesa numa fazenda nordestina. Comece com um queijo coalho com melaço de cana artesanal (8,90€), uma carne de sol com mandioca cozida em manteiga (17,50€), os mini pastéis de feira (5,90€ por meia-dúzia, recheados com carne vermelha ou frango desfiado), a calabresa acebolada com mandioca frita (9,90€) ou os bolinhos fritos de massa de mandioca recheados com carne seca desfiada e refogada com cebola roxa (8,90€).

No que toca a pratos mais compostos, brilham o bobó de camarão (11,90€); o escondidinho de carne seca ou de camarão (7,90€), que faz lembrar um empadão feito de mandioca; a picanha grelhada (18,50€), em modo bife, com fatias grossas, servida com arroz, feijão caseiro, farofa, banana frita e vinagrete; a peixada cearense (24,80€, para duas pessoas), que consiste em postas de peixe branco cozidas com legumes, coentros e especiarias da casa; ou a carne seca desfiada refogada em manteiga com cebola roxa, que vem para a mesa com feijão, arroz, farofa e vinagrete (15,90€).

Além de um menu infantil com pratos simples e de uma série de saladas, têm um menu de prato do dia (9,90€), aos almoços durante a semana, que inclui um prato – que varia, conforme os dias – e um sumo.

Para terminar, as sobremesas merecem ser partilhadas para conseguir experimentar um pouco de cada. Destacam-se a cocada de forno com gelado de creme (5,90€), o cheesecake de goiabada (5,90€), a mousse de maracujá (4,50€), o doce de banana artesanal (3,80€), o doce de mamão com côco (5,50€) ou o pudim de leite condensado (4,90€).

Para acompanhar a refeição, pode pedir um dos cocktails da casa, naturalmente inspirados no Nordeste e idealizados por um bartender da região. A Flor do Sertão (12,90€) leva vodka, Aperol Spritz, calda de hibisco, chá de hibisco, limão siciliano, laranja, hortelã e Seven Up; o Mandacaru Mulé, servido num copo em forma de cacto, é a versão nordestina do Moscow Mule, com vodka, sumo de limão, melaço de rapadura, gengibre e espuma de gengibre (11,50€); o Santo Remédio inclui vodka, limão, licor de pêssego, maracujá, xarope de maracujá, erva-cidreira e espuma de gengibre (12,50€); e a Gingibrada é a mais simples, com uma receita à base de gin, sumo de limão e muito gengibre (11€).

“Tudo isso vem das nossas origens, da nossa formação culinária. E quis trazer essa memória para aqui, daquilo que comi ao crescer. São todos pratos com essa ligação pessoal, de afecto de casa, da família reunida à mesa. São pratos que me levam de volta à infância e às férias na fazenda dos meus avós”, conta Jen, que sublinha que é um sentimento partilhado por vários dos clientes que têm aparecido nas primeiras semanas desde a abertura.
Têm sido muitos os brasileiros, os portugueses e os clientes de origem africana – até porque uma boa parte desta culinária tem raízes ancestrais africanas – a deliciarem-se com as especialidades da Casa Viana. “Já vi clientes aqui a chorar porque comeram um doce de banana que os fez lembrar da avó que os criou”, comenta Jorge Cerqueira. “Já vi lágrimas várias vezes. E temos clientes que voltam todas as semanas e trazem outras pessoas.”

Rua Padre Moisés da Silva, Cascais. Ter-Qui 12.00-15.30, 19.00-22.30; Sex 12.00-15.30, 19.00-23.00; Sáb 12.00-16.00, 19.00-23.00; Dom 12.00-16.00, 19.00-22.30. 963 426 590