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Numa altura em que o alerta para iminência de cheias passou para vermelho, recordamos as maiores inundações do Douro no Porto, do século XVIII à actualidade.

O Centro de Previsão e Prevenção de Cheias do Douro, da Capitania do Porto do Douro, emitiu ontem, dia 5 de Fevereiro, o alerta vermelho para a iminência de cheias para o estuário do rio Douro (que já se encontra interditado à navegação), e para todas as suas albufeiras – situação que poderá agravar o risco de cheias nas zonas ribeirinhas da cidade. Postigo do Carvão, Ribeira, Miragaia, Cais do Ouro, Passeio Alegre e Rua das Sobreiras são áreas historicamente mais vulneráveis que, em outros tempos, já viram, por diversas vezes, o rio galgar as suas margens.
As cheias do Douro fazem parte da história da cidade. Vivem, sobretudo, na memória das populações ribeirinhas que não as querem esquecer. Pelos muros e paredes dos Cais da Ribeira e de Gaia há marcas e inscrições até onde o nível da água subiu, alterando para sempre a vida de quem por aqui habitava e trabalhava. Entre os séculos XVI e XVIII há registos de cheias extraordinárias, mas a de 1739 foi uma das mais impressionantes.
1739 - Diversos documentos, que podem ser consultados aqui e aqui, referiram-se a esta cheia como a “célebre cheia de 1739, aquela que até agora ainda não foi ultrapassada”, subindo uma altura de seis metros acima do Cais da Ribeira. Descrições mais pormenorizadas descrevem ainda que esta “foi muito superior à de 1729, e em todas as suas funestas consequências perfeitamente igual, ou excedente àquela de 1727; pois consta por todas as tradições, que esta cheia fora a maior, de que há memória”.
1909 - Foi na época de Natal, entre os dias 17 e 26 de Dezembro, que aconteceu uma das cheias mais destrutivas na cidade do Porto – a segunda pior de sempre, de acordo com um texto do historiador Germano Silva. Dias consecutivos de chuva resultaram na subida do nível das águas do Douro e, numa altura em que ainda não existiam barragens a ajudar a domesticar as águas do rio, a corrente acabou por arrastar consigo tudo o que encontrava pelo caminho. Os relatos deste tempo contam como muitas barcas de carga provenientes do Alto Douro ficaram totalmente destruídas, bem como armazéns, oficinas e estaleiros de rabelos na Ribeira e no Cais de Gaia. O nível do rio chegou a estar a 80 centímetros de distância do tabuleiro inferior da ponte Luís I. Vários estabelecimentos comerciais e habitações das zonas ribeirinhas do Porto e de Gaia ficaram destruídos e registaram-se oito mortes.
1962 - Mesmo depois da construção das barragens, o caudal do rio Douro voltou a ficar descontrolado e provocou a quarta maior cheia de sempre no dia 2 de Janeiro de 1962. Há quem a chame de “noite calamitosa”, pela tragédia que provocou quando, durante a noite, o capitão de um navio português morreu ao tentar alcançar terra a nado, combatendo a força da corrente. O cais da Estiva ficou completamente submerso e, num espaço de pouco mais de três horas, meia centena de barcas foram afundadas ou saíram pela barra para o mar. Neste dia, foram registadas inundações no Norte e Centro do país, especialmente no Douro e no Mondego. O número de mortes, feridos e desalojados provenientes destas cheias nunca foi divulgado na sua totalidade.
2001 - Apesar de não ter sido, em dimensão, uma das piores cheias registadas no Douro, as suas consequências tornaram as cheias de 2001 numa das mais trágicas de sempre. No Inverno deste ano, devido às cinco cheias sucessivas verificadas, as fundações da Ponte Hintze Ribeiro, em Entre-os-Rios, ficaram fragilizadas e levaram ao seu colapso, no dia 4 de Março, resultando na morte de 59 pessoas.
2019 - Neste ano, a depressão Elsa foi a causa das piores cheias dos últimos 13 anos. O Douro inundou as zonas ribeirinhas do Porto e de Gaia e, na zona de Miragaia, a altura da água chegou aos 80 centímetros. A passagem da depressão provocou dois mortos, um desaparecido e deixou 70 pessoas desalojadas.
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