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A Exemplar Discos quer dar um lugar comum aos artistas independentes, ao apoiar e documentar a criação artística em todo o processo. 'Pastoral 2.0', de emmy Curl, é o primeiro trabalho da editora.

Com quase duas décadas de carreira, Catarina Miranda (conhecida musicalmente como emmy Curl) tem acompanhado de perto a indústria. A crescente influência do mundo digital, o desafio dos serviços de streaming e, ao mesmo tempo, a necessidade de um maior sentido de união na comunidade artística levou-a a dar um passo em frente na missão de criar mais oportunidades para outros artistas. Assim nasceu a Exemplar Discos, uma editora criada juntamente com Andreas Sidenius, com o objectivo de dar um lugar comum aos artistas independentes, ao apoiar e documentar a criação artística em todo o processo. Pastoral 2.0 é o primeiro trabalho desta editora sediada no Porto e é também o novo álbum de emmy Curl, lançado esta quarta-feira, dia 9 de Setembro.
É na Escola Normal, uma comunidade artística independente com actividade no Porto e no Funchal, que todo o trabalho será desenvolvido. Na casa localizada na zona da Boavista não faltam espaços como um estúdio de música, outro de fotografia, salas de costura e também salas para concertos e outros eventos. “Isto, no fundo, é um laboratório cultural”, explica Catarina Miranda à Time Out. Foi a partir desta comunidade criada há dois anos que Catarina e Andreas sentiram vontade em expor aquilo que absorveram ao longo do tempo: “Já tivemos aqui várias residências de artistas que estavam à procura de editoras ou que são pérolas e que não têm muita direcção. Mesmo nós, como artistas, também tínhamos muitos projectos e estávamos à procura de uma editora. Tudo isto surge um pouco pela necessidade de ter uma resposta à propagação digital”.
A Exemplar Discos pretende combater o malfadado destino da música independente, organizando eventos e iniciativas locais, baseados na comunidade, para contrariar a desvalorização global dos artistas, ao interagir directamente com as pessoas e os fãs das zonas em que opera. Mais do que uma oportunidade para gravar música, a editora pretende dar condições para que todo o processo criativo aconteça e, em simultâneo, incentivar o contacto entre artistas: “A vertente da comunidade é algo único que percebemos que poderíamos oferecer. Achamos que pode ser benéfico para os artistas que estão na editora terem um ponto comum, um sítio onde possam fazer reuniões, onde possam fazer jantares de grupo e outras actividades e cultivar a comunidade à volta de uma editora”.
A editora não procura um estilo de música em específico, mas sim artistas com personalidade, talento e perspectiva para o futuro: “Pode ser uma pessoa que começou agora ou pode ser alguém que já está aqui há muitos anos, não vamos distinguir isso”, sublinha Andreas, acrescentando que a música independente em Portugal está a crescer e existem diversos grupos que, mais do que uma editora, procuram um projecto que os acolha verdadeiramente.
É também enveredando por este caminho de comunidade e união que Catarina vê o futuro de muitos projectos: “Acredito que no futuro vamos ver mais pessoas a juntarem-se e a fazerem editoras, quase como colectivos, porque juntos somos mais fortes. Antigamente, as grandes editoras estavam à procura de artistas apenas para grandes lançamentos, tratando de tudo apenas como negócio e como números, que é o normal. Acho que agora isso está a dar uma volta: as pessoas também querem mais humanização e trato no trabalho, principalmente nas artes. Penso que o futuro vai estar cheio de editoras”.
O primeiro capítulo da Exemplar Discos escreve-se esta quarta-feira, dia 9 de Setembro, com o lançamento de Pastoral 2.0, o novo álbum de emmy Curl, do qual já se conhecem os temas “Encanto” e a versão de “Lembra-me um Sonho Lindo”, de Fausto Bordalo Dias. O novo álbum, explica a artista, é uma continuação do trabalho anterior, inspirado no estilo cancioneiro português, com a música celta, e na música tradicional. Inclui, por exemplo, os poemas do seu avô, Alberto Miranda, que foram musicados pelo casal.
“Espero que as pessoas ouçam este álbum com deslumbramento pela sua própria cultura. Tentei ao máximo passar aquilo que acho que é uma das nossas essências portuguesas: a mistura de música celta. Isto não vem nos livros de história, mas nós tivemos aqui uma tribo celta muito antes de [ela] ir para a Irlanda. Quando transporto esta cultura celta para o álbum é também para dizer às pessoas que não temos só o fado, também temos aqui esta vertente que é muito nortenha e do interior, muito lutadora, irreverente e resiliente. E é preciso voltar outra vez às raízes, à autenticidade”, explica.
O processo de lançar um álbum pela primeira vez com a sua própria editora, explica, foi “transformador”. “Compreendo que preciso de assumir a responsabilidade pela direcção que quero seguir. Estou muito entusiasmada por apresentar o meu novo álbum pelos palcos de Portugal e pela Europa”. Quanto à Exemplar Discos, está agora aberta a receber propostas para criar um catálogo de artistas portugueses e ibéricos.
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