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O atelier de cerâmica de Bárbara Penaforte é o novo segredo criativo da Baixa

Ao pé do Bolhão, escondido atrás de uma porta cinzenta, nasceu um refúgio criativo aconchegante, que funciona como a “casa de uma avó”. Aqui, o tempo não se mede e a imperfeição faz parte do processo.

Escrito por
Carolina Bessil
Bárbara Penaforte a dar os últimos retoques num dos seus painéis cerâmicos, onde a ilustração ganha volume e sombra
C.B. | Bárbara Penaforte a dar os últimos retoques num dos seus painéis cerâmicos
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Na filosofia da cerâmica, a argila é uma matéria viva, em constante mutação. Entrar no Atelier Bárbara Penaforte, inaugurado oficialmente em Outubro do ano passado, é aceitar um convite à resiliência. Bárbara Penaforte, a fundadora, natural de Recife, no Brasil, idealizou este espaço não apenas como um local de produção, mas como uma extensão da sua própria casa — um porto seguro para quem procura desconectar-se do ritmo caótico do mundo actual.

"O atelier nasceu da vontade de ter autonomia. Durante cinco anos aluguei salas em outros espaços. Este lugar é uma libertação, onde tenho finalmente liberdade profissional e posso acolher as pessoas sem pressas", explica a artista. Bárbara formou-se em Moda e passou pelo design de superfície em São Paulo antes de decidir cruzar o Atlântico. No Porto, encontrou coragem para assumir a cerâmica como negócio próprio, inspirada pela azulejaria e pela luz da cidade. "A cidade instiga-nos. Comecei a ter coragem de me desenvolver mais na cerâmica aqui em Portugal", confessa.

O coração do ateliê: uma mesa ampla pensada para receber grupos e oficinas sob a luz natural das águas-furtadas
C.B.O coração do atelier: uma mesa ampla pensada para receber grupos e oficinas sob a luz natural das águas-furtadas

Um refúgio com alma e segredos

Ao percorrer o espaço, saltam à vista os detalhes de uma decoração orgânica, marcada por tons quentes e um ambiente reservado. O mobiliário é um "compilado de coisas", muitas delas reaproveitadas. "Nada aqui foi totalmente planeado. Fui adaptando o layout com o que tinha, tentando deixar o espaço funcional, mas também confortável para mim e para os alunos", conta Bárbara.

Mais do que um estúdio de trabalho, a criadora quis que este fosse um espaço seguro para todos — uma vontade que nasceu da sua própria experiência ao chegar a Portugal, onde sentiu falta de uma rede de apoio. Por isso, montou o espaço com a imagem de uma "casa da avó" em mente, um local onde quem chega se sente imediatamente aconchegado e protegido do ruído exterior.

Mas o verdadeiro "segredo" do atelier revela-se ao abrir uma porta discreta que dá acesso a um terraço escondido. É lá que moram dois gatos e onde as aulas podem acontecer ao ar livre. "Ninguém espera que este terraço esteja aqui. É um lugar que nos permite trabalhar com luz natural, o que muda completamente a energia da peça", revela a artista.

Oficina de cerâmica ao ar livre, onde a tradição da argila se cruza com a amizade, num terraço cheio de alma escondido no centro da cidade.
Bárbara PenaforteO terraço

A "impressão digital" do barro

Um dos pontos fulcrais da filosofia de Bárbara é a crença de que a cerâmica revela o estado invisível de quem a toca. Para a artista, não existem peças iguais porque cada uma carrega a energia do momento da sua criação. "A argila revela muito a situação em que a pessoa se encontra mentalmente. Já tive alunas que viram a peça desfazer-se por estarem desconectadas de si mesmas. É um processo de autoconhecimento", explica.

A regra de ouro é clara: cerâmica e pressa não combinam. "As pessoas precisam de ser mais resilientes consigo mesmas. A cerâmica frustra porque não temos controlo total sobre a matéria. Eu tento mostrar aos alunos que, se algo der errado, tudo bem. Recicla a argila e começa de novo", sublinha. No atelier, o silêncio é, muitas vezes, a banda sonora escolhida para que a introspecção guie as mãos.

No atelier, cada peça carrega a "impressão digital" e a energia de quem a moldou
C.B.No atelier, cada peça carrega a "impressão digital" e a energia de quem a moldou

Experimentação sem limites

A grande diferença das oficinas de Bárbara reside na liberdade criativa e na utilização de ferramentas inusitadas, como raladores de queijo e facas de cozinha. "Quero que as pessoas desenvolvam uma linguagem com a qual se identifiquem. Com a mesma técnica, as pessoas criam peças completamente distintas", afirma.

Quanto à oferta, as opções adaptam-se ao ritmo de cada um. Os cursos mensais, com aulas semanais focadas no desenvolvimento técnico e autoral, custam entre os 160€ e os 200€ por mês e incluem todo o material. Para um primeiro contacto, as oficinas de sábado duram duas horas e custam 45€. Já as experiências de grupo com buffet incluído ficam por 65€ por pessoa.

Bárbara Penaforte a dar os últimos retoques num dos seus painéis cerâmicos, onde a ilustração ganha volume e sombra.
C.B.

Apesar de recente, o espaço já criou uma comunidade vibrante na zona do Bolhão. Para o futuro, os planos incluem novas turmas pós-laborais e uma exposição em Setembro, em Lisboa, na Casa Oxente. No coração do Porto, o espaço de Bárbara Penaforte é a prova de que ainda há lugares onde é possível errar, criar e, acima de tudo, celebrar o tempo de cada um.

Rua de Fernandes Tomás, 539. 96 620 9654. Ter-Sex 10.00-18.00

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