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O Liz, no Pinheiro Manso, quer uma estrela Michelin e está a trabalhar para isso

Uma chamuça de cabidela, um prato de gamba rosa que não sai do menu e um tamboril cozinhado num molho que dá vontade de comer à colher são alguns dos trunfos gastronómicos deste acolhedor bistrô.

Mariana Morais Pinheiro
Escrito por
Mariana Morais Pinheiro
Directora Adjunta, Porto
O Liz fica no Pinheiro Manso
©MMP | O Liz fica no Pinheiro Manso
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Chove e o céu escuro do Porto abate-se sobre a cidade à hora de jantar, vergando as pessoas que cruzam as ruas apressadas. A morrinha que as obriga a andar de guarda-chuva para todo o lado instala-se sobre a calçada, humedece o ar e embacia os faróis dos carros que tentam desesperadamente chegar a casa. Mas, no Liz, a meia-luz suave aquece o ambiente, as cadeiras estofadas convidam a relaxar e os aromas que escapam da cozinha para a sala entorpecem os sentidos, tornando um fim de dia aborrecido e taciturno numa experiência que dá um pontapé na monotonia. É que o Liz, no Pinheiro Manso, longe da confusão do centro da cidade, fez um ano, tem nova carta e, por isso, não faltam motivos para lá voltar.

A música que se espalha pelo pequeno bistrô é boa, mas os snacks que dão início à refeição são ainda melhores. Uma tartelete de beterraba com queijo de cabra do Alentejo e cominhos, a saber intensamente a Outono; um croustade de choco com boa textura e sabor levemente cítrico; e uma incrível chamuça recheada com cabidela (o melhor elemento de um conjunto já de si vencedor) impõe-se no palato de forma assertiva. Não veio para fazer festas ao céu da boca, mas sim para o deixar sem palavras. 

Gamba rosa do Algarve com achar de limão, caril e guanciale
© MMPGamba rosa do Algarve com achar de limão, caril e guanciale

“A presença da chamuça neste menu remete para as minhas raízes. Eu nasci em Moçambique e a minha mãe fazia umas chamuças muito boas. Foi ela a principal responsável por me fazer gostar de cozinha. Sempre me levou a comer fora e me incentivou a experimentar o doce, o amargo, e a expandir o meu conhecimento nesta área”, conta Daniel Carvalheira, chef e dono do Liz, apresentando o menu de degustação que vigorará daqui em diante (85€/9 momentos). “Acabaram-se os pratos à carta”, anuncia. Daniel, que já trabalhou em vários restaurantes com estrelas Michelin, como o Pedro Lemos, o The Yeatman e o Euskalduna Studio, não deixa de sonhar com a sua própria estrela um dia. “A restauração têm muitos altos e baixos, não basta fazer boa comida. Acredito, no entanto, que com trabalho lá chegaremos”, atira.

Depois deste arranque, que veio acompanhado do Nat Cool Dourado da Niepoort, um branco com notas mais tropicais e a estrear-se na carta de vinhos do espaço, chega à mesa pão de massa mãe da padaria Bicho; azeite da Herdade do Esporão, com um certo amargor e toque apimentado; e ainda uma manteiga alentejana com flor de sal. Sem demoras, seguem-se duas entradas que marcaram a refeição: a endívia com maçã Granny Smith e crumble de pele de galinha (não é um prato óbvio mas tem conquistado muita gente com o toque fumado da endívia a fundir-se na doçura e acidez da maçã); e um clássico incontornável, desde a abertura do restaurante em 2024, repleto de umami: a gamba rosa do Algarve com achar de limão, caril e guanciale.

Vaca maronesa maturada com alho francês e couve fermentada
© MMPVaca maronesa maturada com alho francês e couve fermentada

Vindo da lota de Matosinhos, o tamboril foi a proteína escolhida para o primeiro prato principal. Cozinhado no ponto certo em manteiga noisette, vem para a mesa com puré de brócolos com os talos grelhados no carvão. O chef de sala, à faca e ao garfo, acrescenta uma colher – o molho beurre blanc infusionado com dashi é perfeito e não é para ficar no fundo do prato. Para o momento da carne, Daniel preparou vaca maronesa com uma maturação entre os 20 e os 30 dias, acompanhada de puré de alho francês, alho francês recheado com couve fermentada e um molho verde de miso e salsa e outro feito com o jus da carne. 

A pré-sobremesa peca apenas por não ter outro nome mais digno. Preparada com os citrinos da época é composta por camadas de surpresa. Há gelado de laranja ou tangerina, crumble de citrinos, mini suspiros, óleo de manjericão, espuma e raspas de laranja. Em suma, é um limpa palato inesquecível para quem é fã de frescura e acidez. Por fim, uma homenagem aos Açores sob a forma de tartelete de ananás, com uma fatia do fruto caramelizado no topo, e um consistente e viciante creme de queijo da Ilha de São Jorge, com 12 meses de cura, ao lado. “É um dois em um. Uma sobremesa que junta um momento doce a um momento do queijo, e eu sempre quis ter queijos no final”, ri o chef. O Liz pode não ter uma estrela (ainda), mas brilha com muita intensidade, mesmo em dias de chuva.

Tartelete de ananás e creme de queijo da Ilha de São Jorge
© MMPTartelete de ananás e creme de queijo da Ilha de São Jorge

Rua de Mota Pinto, 170. 22 616 8024. Ter-Sáb 19.00-22.30

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