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Do freak ao chic. O Plano B faz 20 anos

Nasceu em 2006 e tornou-se num dos espaços nocturnos de referência no Porto. Juntámos o passado e o presente e fomos ouvir as histórias que este bar-discoteca ainda tem para contar.

Ana Catarina Peixoto
Escrito por
Ana Catarina Peixoto
Jornalista, Porto
Plano B
@ João Guedes
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As portas estão fechadas e as luzes ainda estão apagadas quando chegamos ao Plano B, na Baixa do Porto. É lá que reunimos o passado e o presente de um dos bares mais emblemáticos da cidade, para que nos contem as histórias, recordem as memórias e desvendem os objectivos de um projecto que este ano celebra 20 anos – um marco importante, sobretudo em tempos conturbados para muitos espaços nocturnos e culturais. Filipe Teixeira, um dos fundadores, e Rúben Costa, actual programador, juntam-se na casa que tão bem conhecem para recordar como tudo começou. 

De associação cultural a bar

Foi em 2006 que o Plano B nasceu, fruto de uma ideia de quatro amigos. A história não foi linear, muito menos planeada, e o caminho foi-se traçando de uma forma natural e adaptando-se ao público, ao contexto e aos desafios. Filipe Teixeira, João Teixeira, Bernardo Fonseca e Filipe Galante queriam algo diferente. “Quando terminei o curso, eu e o Bruno Vieira começámos a ir beber uns copos e reparámos que a noite no Porto estava um pouco dispersa, entre a Zona Industrial e a Ribeira. Já havia os Maus Hábitos, o Passos Manuel, o Lusitano e o Tendinha tinha acabado de abrir. Havia uma série de coisas interessantes, mas sentíamos necessidade de mais projectos diferentes. Ainda na brincadeira, começámos a procurar espaços e um dia, ao sair do Tendinha, deparámo-nos com este que estava para arrendar”, recorda Filipe Teixeira à Time Out.

Criaram, então, uma proposta para as três salas que compõem este espaço na Rua de Cândido dos Reis. “A nossa ideia foi sempre ter uma associação cultural que acolhesse exposições, concertos, algumas festas e peças de teatro, mas, depois, o projecto começou a ganhar outros contornos”. De que forma? “Havia muita gente à porta aos fins-de-semana a tentar entrar e percebemos que tínhamos de fazer a transição de um espaço cultural para um negócio mesmo de bar, com galeria e concertos. Nunca pensámos nisto como um bar/discoteca, mas acabou por seguir esse caminho”, responde Filipe.

Plano B
@ João Guedes

A primeira festa aconteceu em Fevereiro de 2006, quando o espaço ainda estava em obras. Tudo era novidade e o projecto ainda era uma associação cultural. “Fizemos algo improvisado no andar de baixo. Era uma festa só para amigos, mas abrimos a porta e começou a entrar muita gente a pensar que vinha para o Tendinha – que surgiu na mesma altura. Quando demos por ela, isto estava cheio, cheio, cheio”, recorda o antigo responsável. “Os DJ's eram uns amigos nossos que entraram de mota até ao palco. Sem querer, as pessoas começaram a saber que havia aqui qualquer coisa”.

Esse “qualquer coisa”, acrescenta Filipe, fez com que as festas que realizavam entre amigos aos fins-de-semana, com o objectivo de angariar dinheiro para fazerem obras no espaço, passassem a receber cada vez mais gente. “As pessoas que vinham às festas deixavam o seu email anotado e podiam trazer mais dois amigos. Depois, recebiam uma password com o nome de alguém – porque era sempre o aniversário de uma rapariga, desde Catarina a Maria e Teresa – e, para entrarem na festa, tinham de dizer a password. Mas chegou a uma altura em que era tanta gente que as pessoas chegavam à entrada e começavam a inventar o nome ou a trocar tudo. Só queriam entrar”. E assim nasceu o Plano B como bar.

Um público eclético, um espaço sem rótulos

“O Plano B conseguiu juntar no mesmo espaço pessoas de todos os tipos e penso que esse foi um elemento diferenciador. É, e sempre foi, um espaço sem rótulos. Muita gente dizia que isto ia do freak ao chic.” 

As três salas que compõem o espaço, cada uma com funções e ambientes diferentes, ajudaram neste perfil eclético. A Galeria, no piso de cima, funciona “como uma welcome area, um espaço com música mais baixa e mais seleccionada para permitir ao público conversar à vontade, beber um copo e começar a noite”. O piso de baixo é onde “a acção acontece”, conta Rúben Costa, actual programador e DJ. É aqui que estão a Sala Cubo, destinada à música electrónica, e a Sala Palco, onde acontecem os concertos ao início da noite e, de seguida, DJ sets “de uma variedade de música não electrónica, que podem ir desde o pop ao indie, rock, hip-hop, anos 80 ou 90”. 

Plano B
@ João Guedes

Ao longo de 20 anos, milhares de artistas passaram pelo Plano B. Os dois responsáveis vão enumerando alguns que marcaram a história da programação da casa – desde um DJ set de Peaches, que actuou no 5.º aniversário do espaço, a Miss Keaton, Daniel Avery ou Jamie XX. Mas também Folamour, Capitão Fausto, B Fachada, The Legendary Tigerman, Linda Martini, Capicua e Sensible Soccers.

Há ainda, desde o início, um conjunto de DJ's residentes que actuam mensalmente – nos dias que correm são Semedo, Nuno Lopes, Rui Trintaeum, Tiago Cruz, Gustavo e Serginho. Mas ao longo de duas décadas, o Plano B não recebeu apenas concertos, DJ sets e exposições. O espaço é tão mítico que foi palco, por diversas vezes, de outras iniciativas – entre gravações de videoclips, filmes, mini-séries e anúncios comerciais, a peças de teatro e ainda dois casamentos. 

Peaches
@ Plano BPeaches no 5.º aniversário do Plano B, em 2011

A responsabilidade do futuro e um programa para celebrar 20 anos

Vinte anos de um negócio são sinal de sucesso, mas também de uma responsabilidade cada vez maior para corresponder a expectativas e manter ou elevar a fasquia. “Temos a preocupação constante de ir melhorando, dentro do possível, as condições do espaço para o público e manter a qualidade da programação. O que nos interessa é que o público encare a vinda ao Plano B como uma experiência, não apenas como uma saída à noite“, sublinha Rúben.

Por ser um marco simbólico, a celebração dos 20 anos vai prolongar-se durante todo o ano de 2026, começando já na sexta-feira, dia 30 de Janeiro, com um DJ set de Blawan, produtor britânico conhecido pela sua abordagem crua e hipnótica ao techno. Já no dia 6 de Fevereiro, Rapaz Ego toma conta do palco do Plano B e haverá ainda um DJ set de Skream, referência do dubstep britânico e com influências que atravessam bass music, house e techno. No dia 20 do mesmo mês, Palms Trax apresenta a sua visão calorosa do house clássico e no dia 21 há um concerto de Memória de Peixe. 

Plano B
@ Eduardo Martins

Para Março, a agenda de aniversário traz, no dia 6, um concerto de B Fachada e o DJ set de Gilles Peterson, curador musical e radialista britânico ligado ao jazz, soul e música global. No dia 20, Dr. Rubinstein apresenta um set em vinil e a 21 de Março há concerto dos YAKUZA, seguido de DJ BORING no dia 27.

O mês de Abril vai contar com a apresentação do novo álbum dos Unsafe Space Garden, no dia 10, e TRAVO, no dia 30. Quanto a DJ sets, conte com as influências afro, disco e house de Kirollus a 17 de Abril e uma abordagem conceptual à música de dança feita por Leon Vynehall, no dia 24. Já Maio vai ter GiGi FM, que actua no dia 8, e CC:Disco!, no dia 22, com uma abordagem inclusiva e festiva à música de pista. Para terminar o primeiro semestre de programação de aniversário, a 3 de Junho regressa a DJ e produtora norte-americana Avalon Emerson, sendo que a restante programação vai sendo revelada ao longo do ano e vai incluir também exposições e conversas. Os bilhetes para todos estes eventos estão à venda na Dice.

Vinte anos depois, o objectivo mantém-se: “O Plano B sempre foi um espaço onde as pessoas se podem expressar livremente. Podem dançar, rir e chorar, se for o caso. Acima de tudo, queremos que as pessoas saiam daqui um pouco melhores do que quando entraram e penso que estamos estáveis e com o objectivo de querer desafiar o público, a cidade e de elevar o Porto e as nossas gentes a um patamar onde acreditamos que merecemos estar”, remata Rúben.

Rua de Cândido dos Reis, 30 (Baixa). Qui 22.00-00.00, Sex-Sáb 00.00-06.00/22.00-00.00, Dom 00.00-06.00

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