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O chef Ricardo Costa apresenta novo menu. O Origens é uma homenagem às suas e às dos produtos com os quais trabalha.

Quando eu era pequena, a minha avó usava uma expressão que, por vezes, ficava aquém da minha total compreensão. Desempoeirada, atirava: “Falou e disse, tirou o chapéu e foi-se!”. E rematava a conversa como se tivesse ficado tudo dito. Ricardo Costa não utilizou a mesma frase durante o almoço, mas fiquei com a sensação que a personificou enquanto apresentava a nova carta do The Yeatman para esta temporada. Um menu onde o trabalho minucioso da cozinha é bem visível, mas que, olhando para a descontração do chef, parece ter sido pensado de véspera.
A confiança de Ricardo Costa traduziu-se num menu de degustação equilibrado, divisível em quatro actos, mais leve, com muito menos carne, e que, ao fim de 16 anos (o hotel abriu em 2010) continua a surpreender. O menu Colheita sai de cena e dá lugar ao Origem, numa alusão às origens do chef e à dos produtos com os quais trabalha. São notórias influências do Algarve, do Brasil e do Japão, e sabores que nos são tão próximos – das tradicionais marisqueiras e churrasqueiras portuguesas aos doces que se devoram nos Santos Populares.
A refeição arranca de olhos postos no rio e no casario do Douro, na varanda do Dick’s Bar, como já é habitual, onde uma série de snacks volantes, frescos e aromáticos, vão aparecendo e calando as conversas temporariamente. O Lírio Nitro, um repetente e um prato conhecido do portfólio do chef, preparado com lírio fumado dos Açores, volta a dar um ar da sua graça no menu; e, logo depois, surge a Ostra da Ria de Aveiro, com gel e granizado de maçã verde, e jalapeños, para agitar as águas e conferir frescura e intensidade ao arranque.
Para a crocância e untuosidade, há o Frango de Churrasco e Barbecue, numa terrina com pele estaladiça; e a Santola ao natural desfiada, combinada com um caranguejo de casca mole para ser devorado por inteiro. Divertido, arrojado, criado para impressionar. “A santola faz-me lembrar a ideia de uma marisqueira”, atira o chef do restaurante com duas estrelas Michelin e três Sóis no Guia Repsol.
“Depois dos snacks, passamos para o bacalhau, que é servido na cozinha. Este prato tem uma vertente mais oriental. Preparámo-lo como se fosse um pudim flan com sames de bacalhau [a bexiga-natatória do peixe]. Fomos dos primeiros a usar sames em Portugal”, conta. O prato leva ainda pinhão nacional, molho de cogumelos e cebolinho, e é acompanhado por um folhado de batata com queijo da Serra da Estrela, fazendo pairing com saké ou, no caso de optar pela harmonização não alcoólica, com kefir de pêra.
A gamba rosa do Algarve, apresentada num talharim com salicórnia, lima caviar, crocante de camarão da costa e um consommé de gamba – um prato onde a salinidade está presente e os sabores estão equilibrados –; e a dourada acompanhada de uma terrina de alho francês, cogumelos chanterelles, vichyssoise, croutons e lavagante azul laminado, são dois pratos que demonstram de forma bem evidente como é que se ganham prémios e onde é possível observar toda a técnica de Ricardo Costa e da sua brigada.
“Aqui transformamos um produto noutro produto, ou seja, transformamos a gamba num talharim. Tecnicamente, comemos gamba como se fosse um esparguete”, atira, acrescentando que no prato de peixe tanto podem usar dourada, como podem optar por robalo ou pregado, consoante o melhor peixe que existir no dia no mercado – espécime que, posteriormente, será submetido a uma maturação de dois ou três dias.
O menu desenrola-se sem sobressaltos, correndo sobre carris bem oleados – primeiro os snacks divertidos, para animar; depois os pratos seguros, sem falhas –, mas Ricardo Costa está decidido a trocar-nos as voltas e a mostrar que “velhos são os trapos” (como diria também a minha avó), e ao fim mais de uma década, inspiração não lhe falta. Para o fim guardou dois grandes pratos: o choco com socarrat, acompanhado de tempura de choco e butarga, e de caril verde e galanga; e o royal de atum, um prato mais potente, carregado de colagénio, a aproximar-se da textura e do sabor do foie gras. O peixe vem para a mesa acompanhado de um tártaro de tomate e de ervilhas lágrima que estalam entre a língua e o céu da boca.
“Quisemos tratar este prato como se fosse um prato de carne, apesar de ser um prato de peixe. É um prato que não é o mais consensual, porque é um bocadinho mais forte”, explica o chef. Entre o choco e o atum, criando um momento de pausa, é apresentado o momento de pão, com pão caseiro de fermentação lenta, azeite da Taylor’s e duas manteigas: uma noisette e outra fermentada.
O menu termina tal como começou, com toda a gente bem disposta, admirando uma sucessão de sobremesas: a de ananás com coco e manjericão; as farturas e o algodão doce, numa alusão aos Santos Populares, com banana, baunilha e cacau; a “caipirinha” em formato de gelado de pauzinho, fruto das muitas viagens do chef ao Brasil; e, por fim, a de café com pistáchio e chocolate para um remate nada previsível.
No menu Origem mais extenso, com um total de 16 momentos, provam-se ainda pratos como o salmonete com daikon, kimchi e cebola tostada; e o famoso leitão The Yeatman, com grissinis, alface e creme de milho, um dos mais reconhecidos pratos de assinatura do chef, ainda que com alterações ao longo dos tempos. E além dos vinhos meticulosamente seleccionados para cada uma das etapas do menu por Elisabete Fernandes, directora de vinhos do The Yeatman, o pairing não alcoólico têm-se afirmado como uma boa opção, apresentando propostas fora do comum, como o vermute sem álcool de flor de sabugueiro; uma bebida muito fresca de maçã e algas; o mocktail com água de tomate, rama de tomate e mirtilo; e, para terminar, nuances de vinho do Porto, que criam a ilusão de uma coisa que não é, mas que é bem boa.
Rua do Choupelo (Vila Nova de Gaia). 22 013 3100. Ter-Sáb 18.30; 19.30; 20.30. Menu Origem - Capítulo I (260€); menu Origem - Capítulo II (300€); suplementos vínicos (130€ ou 260€) e suplmento não alcóolico (120€)
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