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Com carta do chef David Jesus, aqui faz-se uma homenagem ao Alto Douro Vinhateiro através de uma cozinha portuguesa e contemporânea.

Uma gaivota pousa no topo do guarda-sol. Do alto, parece admirar o frenesim da Ribeira à hora de almoço. Um vaivém errático de turistas cria um congestionamento intenso em frente ao Poente by Vallado, o restaurante da quinta duriense, produtora de vinho, que, no Verão do ano passado, abriu as portas, pela primeira vez, em frente ao rio. A ideia foi sempre aproximar a marca, com mais de 300 anos, de outros públicos. Dos incontornáveis turistas – assumem sem rodeios –, mas, sobretudo, dos locais. Para isso, prepararam um menu focado na cozinha tradicional portuguesa, mas com uma interpretação contemporânea, que agora se renova com outros pratos, preparados por David Jesus, chef consultor, e por Wendel Malnacic, chef executivo.
A gaivota levantou voo, soltando um grasnido que assustou um casal que tirava uma selfie abraçado e encostado à balaustrada. O Poente by Vallado está instalado num edifício histórico do século XVII, junto ao Largo do Terreiro. Em 2024 foi totalmente restaurado, mas a traça antiga preservada, facto que parece agradar aos turistas americanos, ingleses e asiáticos que vão ocupando as mesas da esplanada como se lutassem por um lugar vago no jogo das cadeiras. Está sol e calor, e os vinhos mais frescos da Quinta do Vallado, que ocupam a maior parte da carta (a excepção fica reservada aos Champanhes e a algumas cervejas), vão enchendo os copos que refrescam sofregamente as gargantas.
O couvert é o primeiro a ocupar as mesas. É generoso para o preço e serve bem duas pessoas (6€). O pão de trigo e centeio, feito com massa mãe, vindo da padaria Bicho, ainda está morno. A acompanhá-lo há um azeite subtil da Quinta do Vallado, azeitonas temperadas, uma óptima manteiga fumada com alecrim, intensa no sabor, e ainda um pratinho com pêra, queijo azul e nozes. Um rosé 100% Touriga Nacional dá as boas-vindas e vai lindamente com a tosta barrada com pasta de azeitona, presunto de porco bísaro, queijo de Seia e rúcula que, entretanto, nos põem à frente (9€). A qualidade dos produtos é o seu maior trunfo. Para quem só quiser beber um copo e comer qualquer coisa, esta pode ser uma boa opção. No piso inferior há ainda uma loja e wine bar onde é possível provar e comprar vinhos e petiscar mais informalmente.
Os pratos que continuam a chegar à mesa são consistentes com a filosofia que David Jesus quis implementar no espaço. Têm presença mas sem serem impositivos, são saborosos, equilibrados e bons representantes da cozinha portuguesa. O alho francês grelhado, com molho de laranja e lima kaffir, salada de laranja e toranja, e anchovas no topo, juntava doçura e salinidade em doses proporcionais (14€). E o bacalhau com grão e pil-pil (17€), com untuosas lascas deste peixe vindo da Islândia e com nove meses de cura, servido sobre um molho perfeitamente executado, é outra das entradas que devem ser consideradas na hora do pedido. Por aqui encontram-se ainda opções como o caldo verde com bolinhos de bacalhau (15€) e o mexilhão com caril e pão frito (16€).
Nos pratos principais, o filete de peixe galo, marinado em gengibre e lima, e acompanhado de salada russa fria ou de arroz de tomate malandro (32€) é um claro vencedor, assim como o arroz de forno de enchidos com magret de pato (29€). Conte ainda com arroz de polvo e filetes (29€), bacalhau à Brás (26€), risoto de cogumelos com azeite de trufa para uma opção vegetariana (22€) e raviolis de novilho com ervilhas (24€). Um dos pratos clássicos da carta e uma especialidade duriense – preparado na quinta em Peso da Régua e finalizado aqui – é o cabrito assado em forno a lenha, servido com grelos, batata assada e arroz de forno (36€/pessoa ou 60€/duas pessoas).
Guarde espaço para as sobremesas, porque, tal como o resto do menu, valem muito a pena. Há mousse de chocolate com avelãs tostadas, azeite Quinta do Vallado e flor de sal (8€), rabanada caramelizada e fofa, preparada com pão brioche e guarnecida com mascarpone, morangos e uma calda de pimenta verde com vinho do Porto da casa (9€), tarte de amêndoa com mirtilos e tarte de queijo (ambas a 9€).
Além do espaço de restaurante, da loja e do wine bar, o edifício conta com duas bonitas salas privadas – uma chama-se Adelaide, em homenagem a Dona Antónia Adelaide Ferreira, também conhecida como a Ferreirinha – onde podem ser feitas provas de vinhos, eventos corporativos ou familiares, e onde também podem ser servidos os dois menus de degustação que o Poente tem disponíveis e que devem ser reservados com antecedência: o Flora, vegetariano (80€ sem pairing de vinhos; 120€ com pairing) e o Adelaide (110€ sem vinhos e 150€ com harmonização).
O sol põe-se a Poente, mas antes disso fartou-se de brilhar.
Largo do Terreiro, 4. 93 991 5313. Ter-Sáb 12.30-22.30; 12.30-17.30
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