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Sara Barros Leitão: "Há gente que sai daqui com as mãos muito sujas de sangue"

A nova peça da estrutura artística Cassandra conta a história do aborto em Portugal, tendo como pretexto as quase duas décadas sobre a aprovação da lei da despenalização. Falámos com Sara Barros Leitão antes da estreia de "Nós, Sozinhas".

Mariana Morais Pinheiro
Escrito por
Mariana Morais Pinheiro
Directora Adjunta, Porto
Nós, Sozinhas
©Teresa Pacheco Miranda | Nós, Sozinhas
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Sara entra em palco. O silêncio, inicialmente tolerado, começa a tornar-se constrangedor, desconfortável, ensurdecedor. A sua presença e o seu movimento impõem-se em cena, ganham corpo e dimensão num espaço ausente de vozes. E, contudo, elas estão lá – inaudíveis. “Há tempos que parecem intermináveis”. A frase interrompe a espera, posiciona-se no tempo, sete minutos depois de o espectáculo ter começado. Há coisas inevitáveis, impossíveis de ignorar, das quais é preciso falar. 

Nós, Sozinhas é a nova produção da estrutura artística Cassandra, com texto, encenação e interpretação de Sara Barros Leitão. Depois de espectáculos que dão voz à mulher e lutam pela defesa de direitos sociais, laborais e humanos, como Monólogo de uma mulher chamada Maria, Guião para um país possível e As Suplicantes, agora é a vez de contarem a história do aborto em Portugal. Tendo como pretexto as quase duas décadas sobre a aprovação da lei da despenalização, o espectáculo revisita alguns dos seus momentos mais marcantes, como os julgamentos, os dois referendos e a mobilização da sociedade civil, que reescreveram a História.

O espectáculo estreia em Braga, no Theatro Circo, no próximo dia 18 de Setembro, com mais duas apresentações nos dias seguintes (e que já se encontram esgotadas). Depois, seguirá em digressão pelo país, com actuações em Lamego, Matosinhos, Loulé, Ílhavo, Espinho, Fafe, Funchal, Coimbra, Pombal e Viseu. A Time Out esteve à conversa com Sara Barros Leitão.

Quando entramos na sala de espectáculos somos brindados com uma estética inesperada: um court de ténis. Dada a temática desta peça, o cenário é, no mínimo, insólito, mas faz todo o sentido à medida que vamos conhecendo a narrativa e vamos percebendo que é inspirado numa vivência real. Como foi transformar uma memória numa peça de teatro?

Todo este lugar onde o espectáculo se passa é também um lugar do meu imaginário. E é o lugar em que a minha biografia se cruza com esta grande história do aborto. Eu tinha 11 anos em 2001. Estudava na EB 2/3 da Maia, estava a ter uma aula de Ciências e andava a ter aulas de ténis no Complexo de Ténis da Maia (onde comprava gomas todos os intervalos), quando uma manifestação interrompe a aula. Foi a primeira vez que ouvi a palavra aborto. Essa manifestação era das pessoas pró-escolha, que estavam a defender, a politizar e a visibilizar aquilo que estava a acontecer dentro do Complexo de Ténis da Maia: um julgamento de 43 pessoas, 17 mulheres e muitas outras que estavam envolvidas por várias razões. O julgamento era tão grande que não cabia todo no Tribunal da Maia e, por isso, teve de ser transferido para o complexo de ténis. E, portanto, durante aquelas semanas eu não tive aulas de ténis, não pude comprar gomas, e fui ouvindo falar sobre o que era o aborto. Curiosamente, à porta desse complexo estavam muitos activistas com quem me cruzei e que hoje são pessoas muito minhas amigas, entre elas a Andrea Peniche, que faz a coordenação de pesquisa deste espectáculo, que hoje tem 50 e tal anos e que era uma jovem activista naquele momento. Estivemos juntas na mesma rua, mas em momentos muito diferentes da nossa vida. E tudo isto acaba por enquadrar um pouco aquilo que é a linha dramatúrgica do espectáculo, que são os julgamentos e as mulheres que são julgadas. Penso que o julgamento foi uma das coisas que virou o jogo entre um referendo e outro.

O espectáculo Nós, Sozinhas sobe a palco numa altura em que estamos prestes a comemorar os 20 anos sobre o referendo que aprovou a despenalização do aborto em Portugal (2007). É um espectáculo para relembrar que os direitos também se perdem se não forem preservados e que, ainda hoje, há quem os ponha em causa, fazendo surgir movimentos mais conservadores? 

Aquilo que me tenho vindo a aperceber com esta investigação (faz dois anos que comecei a pensar nisto e nos últimos meses tenho mergulhado bastante neste assunto), é que esses movimentos sempre existiram. Acho que o país sempre foi muito conservador nesse aspecto e há coisas que não estão, de facto, resolvidas na nossa sociedade. Porém, não acho que a nossa energia deva ser à defesa para não perder direitos. É importante resgatar alguma memória e perceber que não há direitos dados, nem comprados. Vivemos em tempos completamente capitalistas, em que parece que tudo se compra, mas há coisas que são mesmo fruto de uma conquista e isso exige uma disputa social, política, muita mobilização. Os direitos são conquistas. E, por isso, acho que a minha energia e a nossa energia não deve ser sobre as vozes que sempre existiram de querer recuar, mas acho que a nossa energia deve ser no sentido em como é que a lei pode melhorar. A lei está muito frágil e o final do espectáculo é precisamente sobre isso. Há coisas que é preciso fazer.  

Nós, Sozinhas
©Teresa Pacheco MirandaNós, Sozinhas

Que tipo de coisas?

Acho que é preciso aumentar o tempo, tirar os três dias de reflexão, uma série de coisas... Não é preciso mudar a lei para que haja perda de direitos e é importante as pessoas perceberem isso. Passos Coelho, em 2015, incluiu taxas moderadoras no acesso à Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG); a obrigatoriedade de assinar um consentimento na presença de vários técnicos; e a obrigatoriedade de aconselhamento psicológico e social. Houve uma deputada do PSD que queria ainda obrigar a mulher a assinar um documento em que dizia que ia matar o seu filho; houve uma petição que pedia para que a mulher que fizesse um aborto fosse obrigada a fazer trabalho de voluntariado, comunitário, em infantários. Não é preciso mudar a lei para que ela, como hoje, não chegue. A lei hoje, como está, não chega. Este governo da AD, com esta coisa meio xerife de lutar contra o turismo de saúde, impediu as mulheres migrantes, sem situação regularizada, de ter acesso à IVG. Não têm consultas de planeamento familiar, não têm acesso a contraceptivos gratuitos, não têm informação. Portanto, já há um direito que não está a ser conquistado. Há 40% dos hospitais em Portugal que não fazem IVGs. Há regiões inteiras que não fazem IVGs. Os médicos são cada vez mais objectores de consciência. Não é preciso mudar a lei para que isto seja impossível de ser feito. E podemos até ter propostas mais radicais. No Norte da Europa não há objectores de consciência, porque os objectores de consciência não vão para estas especialidades.

Durante o espectáculo ouvem-se alguns relatos muito difíceis. Como foi a produção de uma peça que aborda um tema tão pesado? Houve algum momento que tenha sido mais complicado de lidar ou ultrapassar? 

Claro que ler esses relatos é duro e emocionante, e que houve momentos na sala de ensaio emocionantes para todos nós. Mas se tivesse de assinalar dois momentos marcantes para mim, acho que não seriam as histórias pessoais e íntimas, porque essas eu já imaginava e já sabia que eram horríveis, mas há dois episódios da nossa história nacional, da nossa história colectiva e política que, para mim, foram chocantes. O primeiro (por ignorância minha, por não ter idade suficiente na altura também), foi que eu desconhecia que a despenalização do aborto tinha sido aprovada em Assembleia da República. Tinha ganho em 1997, tinha sido votada e a lei tinha sido conquistada. Mas durante uma chamada telefónica entre o primeiro-ministro da altura, António Guterres, e o líder da oposição, Marcelo Rebelo de Sousa, nessa noite, ficou acordado entre ambos revogar aquilo que havia sido feito e colocaram o país num referendo que ninguém pediu, impondo a todo o país a sua orientação religiosa – dois homens antiaborto, passam por cima daquilo que é a expressão da vontade popular. Para mim isso foi um choque. Tive de fazer vários fact-checkings para ter a certeza que isso tinha mesmo acontecido, porque eu não queria acreditar. E a outra coisa que me deixou igualmente chocada foi perceber que em 2003, polícias eram destacados para estar à porta das clínicas. O nosso dinheiro público pagava a polícias para fazerem esperas a mulheres à porta de clínicas e levá-las ao hospital, contra a sua vontade, para serem examinadas. Isso para mim é inaceitável. Foram 33 anos em democracia até conseguirmos ter esta lei. Foi tempo a mais. Foram mortes a mais. Acho que há gente que sai daqui com as mãos muito sujas de sangue.  

Nós, Sozinhas
©Teresa Pacheco MirandaNós, Sozinhas

A mulher é tema central do teu trabalho, da tua obra, do que tens feito e apresentado ao público. As tuas últimas peças vão nesse sentido, dando importância ao trabalho invisível da mulher, à sua travessia solitária e, agora, a um sofrimento silencioso. Esta é a tua forma de dar à mulher uma voz que foi sempre abafada?

A mulher sempre trabalhou, mesmo que a História tenha dito que ela só começa a trabalhar a partir de certa altura. Ela sempre trabalhou e sempre fez, sobretudo, trabalho reprodutivo. E acumulou o seu trabalho com todo o outro trabalho que não era remunerado e, por isso, é que a grande História não conta a sua história. Mas há outra questão: ela teve sempre muito menos tempo e muito menos acesso à escrita da sua própria História, porque ela esteve sempre ocupada com os filhos, com as galinhas, o jantar, etc. E isso, no caso do primeiro espetáculo [Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa], foi muito claro para mim. Tive muita dificuldade em encontrar a história do primeiro sindicato do serviço doméstico, porque as mulheres que fizeram o sindicato não estavam a guardar os seus arquivos, nem a escrever a sua história – estavam a fazer o sindicato, tal como também faziam 16 horas de trabalho, mais os filhos, mais a casa, mais os maridos, mais tudo aquilo. E isso é muito fascinante para mim, perceber que agora, finalmente, começa a haver uma recuperação daquilo que é, nas Ciências Sociais, a História da mulher. Elas sempre fizeram caminho, só que foi quase sempre clandestino.

A opção por um monólogo, para contar esta história do aborto em Portugal, é também uma forma de revelar a solidão da mulher? 

Sim. Eu sempre soube que tinha de ser um monólogo, que tinha de estar uma mulher, sozinha, em cena, e que tinha de ser o meu corpo a contar esta história. Eu acho que há qualquer coisa de pulsante em mim, nesta história, que tem que ser o meu corpo a contar. Essa solidão – que se desmultiplica por muitas outras vozes, que se torna uma polifonia de vozes, mas que não deixa de ser a voz de uma única mulher, porque em última análise estamos nós, sozinhas –, revela uma decisão que é unicamente nossa. Pode até acontecer vivermos uma vida inteira com alguém que nunca saberá se algum dia o fizemos. E isso é muito poderoso. Nós somos unicamente donas do nosso corpo e há coisas que são íntimas, nossas, e que nós podemos nunca dizer a ninguém. E o mundo tem muito medo disso. Desse poder que as mulheres têm.

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