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Três décadas a envelhecer em pipas. O Licor de Singeverga faz 90 anos e celebra com uma edição especial

Para celebrar o aniversário do único licor monástico produzido em Portugal foi lançada uma edição especial que esteve 30 anos a envelhecer em pipas de carvalho.

Ana Catarina Peixoto
Escrito por
Ana Catarina Peixoto
Jornalista, Porto
Licor de Singeverga
Teresa Ribeiro / CM Santo Tirso | O Licor de Singeverga habitual (à esquerda) e a edição especial (à direita)
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Pelos corredores do Mosteiro de São Bento de Singeverga, em Santo Tirso, guardam-se tesouros, histórias de resistência, arte e muita tradição, passada entre as várias gerações de monges beneditinos. Uma das mais bem preservadas é, na verdade, uma montra para o exterior: é aqui que é produzido o Licor de Singeverga, o único licor monástico feito em Portugal, de forma totalmente artesanal pelos 18 monges que aqui habitam. A bebida, histórica para muitos, assinala 90 anos de vida e, para celebrar esse marco, apresentam agora uma edição especial que esteve a envelhecer durante 30 anos, em barricas de carvalho muito antigas, e que está à venda em diversas garrafeiras.

“Este licor está ligado à história do mosteiro”, explica o padre Bernardino Costa, enquanto nos guia pelos caminhos do edifício, que conta já com mais de 130 anos de portas abertas à Ordem dos Beneditinos, e é o único mosteiro com comunidade beneditina em exercício em Portugal. No século XIX, uma família da zona decidiu doar o terreno de 80 hectares, que na época já se chamava Quinta de Singeverga, e, a partir de 1892, a propriedade passou a pertencer à comunidade beneditina. Os monges reergueram o mosteiro com o seu trabalho e continuam a seguir o lema de sempre — “Ora et Labora” —, dedicando-se a várias actividades, desde a arte e restauros necessários à produção de licor. 

Em 1935, com o objectivo de arranjar um produto que distinguisse a comunidade, e depois de várias experiências, os beneditinos de Singeverga, com a ajuda de um engenheiro que desenvolveu uma fórmula química, chegaram à receita ideal para produzir um licor recheado de especiarias. Nasceu, assim, uma bebida que ganhou o nome do mosteiro e do lugar onde é feita, Singeverga. Desde então, a fórmula manteve-se praticamente inalterada.

Licor de Singeverga
Teresa Ribeiro / CM Santo TirsoLicor de Singeverga

Um licor complexo e histórico

Açafrão, noz-moscada, cravinho, cálamo, baunilha, canela e coentros. O Licor de Singeverga conta com diversas especiarias e fica um ano a envelhecer em pipas de carvalho. O resultado? Uma bebida de cor topázio e com paladar delicado. O grande segredo, revela o padre Bernardino, é a experiência e a passagem de conhecimento entre monges, até porque “o licor tem a sua complexidade, não é fácil de fazer e tem muitos pormenores”. Mesmo conhecendo a receita, acrescenta, a experiência é a chave. “O licor acaba por ser um pouco a nossa imagem da comunidade. As pessoas podem não saber o que é o mosteiro, mas conhecem o licor”, reforça.

O processo de produção do Licor de Singeverga tem diversas fases. Começa com uma primeira maceração em garrafões de vidro, onde o álcool é misturado com as diversas especiarias durante duas semanas, para que sejam extraídas as suas diferentes propriedades. De seguida, é feita uma segunda maceração com baunilha, que é mais suave, e açafrão, que vai dar a cor de topázio ao licor. Em simultâneo, explicam-nos, é feito o trabalho de destilação da água e do álcool, seguindo-se a produção do xarope e a mistura de tudo ao longo de 15 dias. Só após esse processo é que o licor fica preparado para ser transferido para as pipas de carvalho, onde vai ficar a estagiar, no mínimo, durante um ano. 

Licor de Singeverga
A.C.P.O licor fica envelhece em pipas de carvalho

Outra das grandes características deste licor – tanto o que é feito há 90 anos, como a edição especial – é a sua embalagem, feita à mão pelos monges beneditinos, que se revelam verdadeiras obras de arte, do detalhe do lacre aos rótulos feitos em madeira e escritos à mão. “São feitos um a um, com pormenores únicos”, acrescenta o padre. É tudo feito na oficina de carpintaria do mosteiro e nas salas de trabalho onde anualmente são produzidos à volta de quatro mil litros de licor.

Uma edição para comemorar 90 anos

A edição especial dos 90 anos do Licor de Singeverga ficou a envelhecer durante três décadas, fruto de uma parte que vai sendo guardada para ocasiões especiais. “Este licor foi feito na altura em que o padre Luís Aranha foi eleito abade, em 1995. Tal como costuma acontecer em alguns momentos, ele pediu para que uma das pipas continuasse ali a envelhecer. Nós já temos algumas pipas com 50 anos, temos algumas coisas que fazem parte da história e que não estiveram no mercado, mas achamos que esta era uma oportunidade para assinalar os 90 anos: ir a esta pipa com 30 anos, tirar metade e colocar no mercado”, reforça. No total, foram produzidas 150 garrafas – metade para ser vendida no mosteiro e outra parte para ser distribuída, a partir deste mês, em diversas garrafeiras nacionais com a presença da Vinalda.

Licor de Singeverga
Teresa Ribeiro / CM Santo TirsoAs embalagens do licor são preparadas à mão pelos monges beneditinos

Com um licor a envelhecer durante 30 anos em pipas de carvalho surge uma bebida com uma cor mais escura, com menos álcool, sabores de especiarias mais discretos e um toque mais amadeirado – sem perder a elegância e suavidade. “É um licor que tem propriedades diferentes. Eu achei-o vivo e foi por isso que o comercializámos e que optámos por produzir tal como estava na pipa”. Pronto para beber e comemorar uma data importante em Singeverga. 

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