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A Feitoria Inglesa abriu portas pela primeira vez para contar a sua história ao Porto

Há 236 anos de portas fechadas ao público, o edifício que acolhe uma das mais distintas instituições vinícolas da Europa está agora disponível para visitas.

Ana Catarina Peixoto
Escrito por
Ana Catarina Peixoto
Jornalista, Porto
Feitoria Inglesa do Porto
DR | Feitoria Inglesa do Porto
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O dia prevê-se movimentado no centro do Porto, entre o caos turístico que vai pintando a cidade e o trânsito já habitual da zona. Com o rio Douro mesmo em frente, na rua do Infante Dom Henrique, há um edifício que destoa deste frenesim e que guarda em si séculos de História: a Feitoria Inglesa do Porto, um espaço que durante vários anos se manteve reservado para muitos e onde só se entrava por convite. Ben Himowitz, tesoureiro da British Association, sediada neste espaço, abre os portões do edifício e leva-nos a percorrer o seu interior e a conhecer o mundo que por aqui existe. Desde Março deste ano, e pela primeira vez em 236 anos, a Feitoria está aberta ao público.

“É uma janela para as pessoas conhecerem a nossa história e tudo o que é feito por aqui”, explica o responsável. Logo à entrada do espaço, saltam à vista os diversos nomes dos tesoureiros da associação, inscritos nas paredes, mas também a forma como tudo está imaculadamente preservado. Foi aqui que, há mais de 200 anos, se ergueu uma das mais emblemáticas instituições vinícolas da Europa e um testemunho vivo da presença britânica em Portugal. A associação ainda hoje mantém-se em pleno funcionamento, recebendo jantares formais, provas e reuniões que perpetuam as tradições de um dos grandes vinhos fortificados do mundo. Bem-vindos à Feitoria Inglesa do Porto. 

Feitoria Inglesa do Porto
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Uma história com mais de 200 anos

Tudo aqui respira história, mas também um olhar para o futuro e continuidade. Concluído em 1790, o edifício da Feitoria Inglesa do Porto serviu durante mais de dois séculos como o coração cerimonial e social do comércio britânico do vinho do Porto. O projecto foi construído por comerciantes britânicos residentes na cidade, cuja associação remonta, pelo menos, ao século XVII, e o edifício tornou-se a sede do que é hoje conhecido como a British Association, formalmente constituída em 1811. “O objectivo de uma feitoria era ser um ponto central para a comunidade de comerciantes estrangeiros. Eram utilizadas para se discutir a indústria e o comércio, mas também para se criar uma comunidade. Por aqui, a feitoria começou por se dedicar mais ao comércio dos têxteis e depois evoluíram para o vinho do Porto”, explica Ben.

A visita percorre os dois andares do edifício, onde se encontram salas decoradas ainda com a mobília original e repletas de documentos históricos, desde mapas antigos a roteiros e livros de visita. "Esta é a casa e o espírito da exploração britânica e portuguesa e da expansão global”, recorda o tesoureiro. À frente, avista-se a enorme biblioteca privada, com livros emprestados pelos membros, documentos de todos os géneros e materiais de arquivo que documentam a ascensão de Portugal como potência comercial marítima. 

Olhar para cada canto é encontrar pedaços da história de um edifício que enfrentou diversas mudanças políticas, económicas e culturais ao longo de gerações (e que chegou a ser invadido pelas tropas de Napoleão Bonaparte). Entre os artefactos mais significativos que estão guardados por aqui encontra-se, por exemplo, um livro de visitas assinado por oficiais do exército anglo-português do Duque de Wellington após a libertação do Porto em 1809, enquanto testemunho do papel singular do edifício, que não se cinge à história do vinho, mas que também faz parte da história europeia. Outra parte da história vive também no elegante salão de baile onde se realizaram as mais grandiosas e bonitas festas da época, numa representação típica dos salões do século XVII. 

Feitoria Inglesa do Porto
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“Este edifício é uma espécie de testemunha de muitos momentos da história”, reforça Ben. E uma das salas que mais conta esta história é a sala de recepção, destinada a servir os convidados antes dos almoços e jantares, e por onde já passaram figuras históricas, como a rainha Isabel II, o rei Carlos III e a princesa Diana ou a antiga primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. Há ainda duas salas de jantar duplas que são utilizadas para os almoços de quarta-feira da British Association, bem como uma cozinha onde se mantêm intactos os objectos utilizados para fazer as refeições há mais de dois séculos. E se gostar de jornais e de coleccionismo, saiba que por aqui guarda-se uma cópia semanal do londrino The Times, desde 1832. 

É também sobre história que se fala quando se percorre a bonita garrafeira subterrânea com vinho do Porto que existe neste edifício, onde a associação guarda vinhos do Porto vintage especiais para cada membro. Aqui vivem mais de 15 mil garrafas de Porto vintage: “Sempre que é declarado um vintage todos os membros oferecem caixas com 12 garrafas para ficarem guardadas nesta garrafeira. Quando alguém se torna membro da casa, como eu fiz em 2020, dá um determinado número de caixas com vinho do Porto de um ano à sua escolha”.

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De portas abertas pela primeira vez

Desde Março, e pela primeira vez na história, a Feitoria Inglesa do Porto abriu portas ao público para permitir que os visitantes possam conhecer esta instituição e percorrer uma história de dois séculos. “O objetivo é trazer as pessoas para um segredo guardado há muito tempo no Porto e torná-la em algo que todos possam experimentar e perceber a história e o seu papel na cidade”, reforça Ben, sublinhando ainda que a missão não passa apenas por viajar no tempo, mas também mostrar “que tudo isto ainda hoje tem vida e está em funcionamento. 

As visitas decorrem de sexta a terça-feira e podem ser feitas em dois formatos. De manhã, há visitas guiadas, com direito a uma prova de dois vinhos do Porto seleccionados a partir das reservas privadas das empresas-membro e com vinhos que raramente são servidos fora de eventos oficiais, com um vinho mais antigo e outro mais recente. Já da parte da tarde, há visitas auto-guiadas, com recursos multimédia que abordam as tradições deste espaço e ilustram todos os contextos comerciais, diplomáticos e culturais que moldaram o comércio do Vinho do Porto ao longo de gerações. Os bilhetes podem ser comprados online. 

Feitoria Inglesa do Porto
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A ideia de abrir portas pela primeira vez ao público, explica Ben, era algo já pensado há algum tempo pela associação, de forma a ter também um papel mais activo na comunidade. “Percebemos que a forma mais simples de o fazer era abrir as portas e deixar as pessoas entrar, de uma forma que respeite a integridade do edifício, e tratá-la como uma instituição histórica”. No final da visita, o objectivo é que se saia com uma noção mais clara do que é este edifício, que pode passar despercebido no dia-a-dia dos portuenses, mas que guarda em si muita história. “Queremos manter o respeito pela tradição e pela história, enquanto encontramos também um lugar no mundo moderno”.

Rua Infante Dom Henrique, 8 (Porto). Sex-Ter 11.00-18.00. 14€

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