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Esta escola de Verão é para jovens empreendedores

Chama-se Innovation Summer School e é para jovens entre os 14 e os 18 anos. No Porto, o programa acontece entre 13 e 24 de Julho – e ainda há vagas.

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Innovation Summer School
Rita Chantre | Innovation Summer School, no ISEG, em Lisboa
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Estamos no início de Julho, é quarta-feira de manhã e, apesar do calor se fazer sentir, duas dúzias de jovens decidiram aproveitar o Verão numa escola para empreendedores. Têm entre 14 e 18 anos – uns são portugueses, outros vieram de países como os EUA e Itália – e estão visivelmente ansiosos pela oportunidade de desenvolverem as suas ideias inovadoras junto de especialistas, como o australiano Owen McFadzen, mentor de negócios, ou o português Rodrigo Figueiredo, co-fundador da UpSpeech, uma plataforma digital que optimiza a terapia da fala. Mas o programa não é um programa educativo qualquer. Não há manuais nem testes e a ideia não é ficarem quietinhos a ouvir os adultos falar. Pelo contrário, é desejável que conversem, e muito.

“A minha mãe mostrou-me o programa porque a filha de uma amiga experienciou-o o ano passado, em Nova Iorque, e adorou. Então, decidi vir e está a ser giro”, conta-nos Bernardo Allen, de 16 anos. Há pouco esteve a ouvir Owen explicar a importância de desconstruir um problema em partes menores e agora está a meio de uma sessão de brainstorming. Foram desafiados a decompor um problema em fases lógicas para que possam identificar a causa-raiz e gerar valor real. “Nunca tinha feito nada do género. Só o Junior Achievement. Antes, achava que empreender era ter uma ideia e criar um negócio, mas não é só isso”, partilha Allen, antes de nos confessar que hesitou na inscrição. “No início não me estava a apetecer muito, porque são logo duas semanas e eu não queria ficar em Lisboa com este calor. Mas está a valer a pena.” 

Madison Watson
Rita ChantreMadison Watson, de 16 anos, na Innovation Summer School

Allen não é o único feliz por estar na Innovation Summer School, na edição do ISEG, em Lisboa (no Porto, o bootcamp acontece de 13 a 24 de Julho e ainda há vagas). Madison Watson, de 16 anos, veio dos EUA para Portugal de propósito. Já tinha tido a experiência em Nova Iorque e não hesitou em repetir, agora num país diferente. “Estou a adorar, [o país] é lindo”, diz. “No ano passado, fiz este programa na Universidade Columbia. A Cate Han [fundadora da Hudson Lab Ventures, a empresa por trás destes programas de inovação para jovens adultos] vive em Irvington, onde eu também vivo, e o trabalho em grupo foi fantástico. Ainda estou no secundário, mas quero formar-me em Neurociência, sei-o desde o 9.º ano. Sempre fui muito observadora e, apesar de nem sempre ter gostado de ciência, a certa altura comecei a querer perceber por que é que as pessoas tomam certas decisões.”

Curiosamente, compreender os mecanismos de tomada de decisão é uma vantagem competitiva tremenda no mundo dos negócios. Outra é ser uma pessoa verdadeiramente interessada pela comunidade que nos propusermos a servir. É, pelo menos, esse o entendimento de Owen McFadzen, que esteve a ensinar os miúdos a decompor problemas em partes menores e mais gerenciáveis. Essa habilidade é, ao que parece, fundamental para a resolução de desafios em diversas áreas. Na verdade, para criar uma empresa de sucesso é preciso primeiro encontrar um problema real. Muitos empreendedores saltam directamente para a criação de um produto ou serviço, mas esquecem-se de pensar no que é que estão de facto a tentar resolver.

Owen McFadzen
Rita ChantreOwen McFadzen à direita.

“Quando me mudei para a Dinamarca, onde vivo actualmente, de repente era imigrante e tinha de começar do zero. Até abri uma cervejaria. Nem sequer gosto de cerveja, mas havia procura”, desvenda-nos Owen, que hoje em dia ajuda empreendedores a desenvolver estratégias e alavancar resultados. “Na verdade, estudei Belas Artes e Arquitectura durante um ano, nunca terminei, mas cheguei a trabalhar na área e mais tarde virei-me para o design de interacção, que tem a ver com proporcionar boas experiências com recurso a tecnologia. Formei-me também em gestão de media digitais, na escola de gestão mais estranha que consegui encontrar, a Hyper Island. Eventualmente, acabei aqui. Os meus amigos fundaram a Hudson Lab e decidiram que queriam levá-la para a estrada.”

A abordagem, esclarece Owen, é orientada sobretudo para a acção. A ideia é incentivar os miúdos a ir para a rua, entrevistar pessoas, recolher o máximo de informação e dados que conseguirem, tudo isto antes de desenharem os seus protótipos. O mais importante é, contudo, perceber que “fazer dinheiro” é apenas uma consequência do valor que se cria. “Se não estiveres a resolver um problema suficientemente importante, então o teu negócio não tem valor suficiente. Quando tem, as pessoas estão dispostas a pagar”, conclui o australiano, antes de nos falar da missão da Innovation Summer School. “Primeiro, queremos que os estudantes ganhem confiança, porque eles não estão habituados a que alguém lhes pergunte o que é que eles pensam.”

Innovation Summer School
Rita ChantreInnovation Summer School

No início do programa, os estudantes pensam o que acham que os professores querem que eles pensem, esclarece Owen. No final, não só sabem pensar por si próprios, como estão capazes de apresentar publicamente as suas ideias, e de as defender com unhas e dentes. “Ao fazerem o pitch aos patrocinadores [como José Mello e SONAE], a reacção é quase sempre a mesma: as suas equipas entregaram projectos semelhantes, com o mesmo nível de qualidade, mas levaram o dobro do tempo a fazê-lo. E é por isso que queremos que eles saiam da sua zona de confronto.” Joana Esteves, de 17 anos, agradece o desafio: “Esta última semana ajudou-me a pensar de forma mais crítica e a ver as coisas de uma perspectiva diferente. Além disso, tenho alguma dificuldade em conversar com pessoas que não conheço, por isso, o facto de não conhecer ninguém aqui ajuda-me a praticar.”

Isis, Aarzoo, Leonor, José, Roma, Lucia, Maria e Henry confirmam a experiência de Joana. “Uma das razões pelas quais vim para Lisboa em vez de optar pelo programa de Nova Iorque é porque quero estabelecer muitos contactos portugueses e internacionais para o futuro”, confessa Henry Jaeger, de 15 anos, que gostava de seguir as pisadas do pai. “Ele teve muitos negócios quando era jovem e disse-me que foram os melhores tempos da sua vida.” Já Maria Breyner, de 14 anos, está sobretudo fascinada com a forma como “a resolução de problemas pode ser aplicada a quase todos os empregos”. “É uma competência muito útil.” Leonor Oliveira, de 16 anos, completa: “Adoro como a mentalidade empreendedora nos ensina a olhar para o mundo: como é que podemos ajudar as pessoas?”

Innovation Summer School
Rita ChantreInnovation Summer School

Empreender também pode ser servir a comunidade

O empreendedor Rodrigo Figueiredo diria que o ideal é encontrar primeiro um propósito. Foi o que aconteceu consigo. Apesar de ter estudado engenharia informática e gestão, e ter feito um percurso “em tudo convencional”, foi a vontade de ajudar pessoas com dificuldades na fala, como ele próprio, que gagueja, que o levou a ter “A ideia”. “Isso é que me dá realização. Claro que o negócio tem de ser sustentável, mas o meu foco é ter impacto social. Não vou tomar nenhuma decisão apenas com base no lucro”, assegura. “Não sou a única pessoa a passar por isso e o processo de terapia é muito longo, porque está relacionado com o que se faz também fora do espaço de consulta. Há pessoas que ficam anos em sessões. É um investimento de tempo e dinheiro muito grande. Por isso, sim, foi a vontade de ajudar os outros que me fez criar a UpSpeech. Aliás, eu comecei a construir isto a pensar que ia entregar de borla, até chegar à conclusão que não era possível fazê-lo sozinho.”

Nomeada a start-up mais promissora da 25.ª edição de Outono da Unicorn Factory Lisboa – parceira da Hudson Lab Ventures nesta Innovation Summer School –, a UpSpeech é uma plataforma digital que recorre à tecnologia para tornar a terapia de fala mais acessível. “Somos uma empresa de saúde, que alavanca Inteligência Artificial para dar um acompanhamento maior às pessoas”, resume. “A gaguez moldou muito quem sou hoje e a empatia que tenho pelos outros vem de experiências que eu passei. A gaguez, como outras disfunções de comunicação, é uma área com muito pouco investimento, mas que tem imenso impacto. Eu tenho uma frase na minha cabeça que não consigo dizer quando eu quero da maneira como quero, e isso é frustrante, cria muita revolta, porque estamos sempre a lutar connosco mesmos.”

Teens Transport Kids
Rita ChantreBernardo Allen, co-fundador da Teens Transport Kids

Rodrigo fica contente por saber que, quando perguntamos aos miúdos que negócio gostavam de ter, a maior parte responde com ideias de impacto social. Por exemplo, Isis Rodrigues adora escrever e quer ajudar os outros a expressarem-se, Leonor Oliveira preocupa-se com a epidemia da solidão e gostava de ensinar tecnologia aos mais velhos e Bernardo Allen está a tentar perceber como expandir a sua empresa, a Teens Transports Kids. “Vivo perto da minha escola e todos os dias vejo pais a correr para que os seus filhos pequenos cheguem a tempo à escola. Por isso pensei que poderia ajudar se os levasse eu? Tive sucesso e pensei que talvez pudesse pôr outros estudantes da minha idade a fazer o mesmo. Criei um site e uma aplicação e já tenho pais interessados.”

O programa é pago – entre 240€ e 480€ para alunos portugueses e 1500€ e 2500€ para estrangeiros –, mas há bolsas para estudantes de maior vulnerabilidade financeira. “A nossa missão é trazer o máximo de pessoas possível, com a maior diversidade possível. Aliás, queremos mesmo chegar àquelas pessoas que nunca acharam que poderiam ser empreendedoras, e mostrar-lhes que talvez possa ser um caminho. Temos cerca de dez a 20 vagas de bolsas gratuitas e nunca conseguimos preencher todas, por isso achamos que há aqui uma oportunidade enorme para alunos que se calhar não conseguem pagar e a quem nós estamos dispostos a oferecer”, diz Sofia, antecipando ainda o futuro: “Gostávamos de chegar a mais cidades e dar oportunidade também a estudantes que normalmente não têm este tipo de oportunidades. Por isso, está em cima da mesa expandir estes programas para zonas fora de Lisboa e do Porto.”

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