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Entram pela cozinha, servem-se da fruta nos alguidares, vão à horta apanhar legumes. Nesta quinta às portas do vale do Douro, o dia-a-dia do antigamente transforma-se nas experiências imersivas de hoje.

A textura rugosa da casca dos figos revela-se sob as partículas de luz. Entram pela janela da cozinha e dissolvem-se sobre a travessa, reflectindo no copo de vinho que transpira. As mãos de Fernanda trabalham. Descascam fruta para alimentar as crianças pequenas que lhe rodeiam o avental. A maciez da polpa das ameixas. A doçura das framboesas apanhadas no pomar. Há pessoas que são lugares e há lugares que fazem parte da história de muita gente. Dos que vêm, dos que ficam, dos que há muito já foram. E desde 1722 muita gente há-de ter pisado este chão.
A data está gravada sob o frontão triangular da fachada da capela da Quinta de Guimarães, em Santa Marinha do Zêzere, no sudeste da Região Demarcada dos Vinhos Verdes, já em pleno vale do Douro, e parece querer avisar-nos de que aqui o tempo passa mais devagar. As pressas ficaram algures pelo caminho, sinuoso, que vai ao encontro da propriedade. “Esta casa era de uma tia do meu pai”, conta-nos Carlos Coutinho, elemento da sétima geração da família Cunha Coutinho, encostado à balaustrada da varanda, de olhos postos nas fileiras de ramadas em frente. “Mas como ela não tinha descendência, o meu pai acabou por herdá-la e começou por plantar mais vinha, porque a que havia era pouca”.
Entre os anos 1980 e 2000, a produção dividiu-se entre as castas de Vinho Verde Arinto e Avesso e destinava-se, sobretudo, para venda a granel. Mas em 2011 deu-se uma reviravolta nesta história. Carlos, que vem da área de gestão, juntamente com o enólogo Diogo Lopes, Vasco Magalhães (marketing e vendas) e André Miranda (produção), lançaram-se na missão de interpretar o Avesso, uma “casta difícil, suscetível a doenças, com baixa produção, mas que tem um grande potencial de envelhecer em garrafa e é bastante apetecível na região”, explica o empresário.
Nascia, assim, a marca Vinho Cazas Novas, baptizada com o nome de uma das centenárias quintas da família. Entre a Quinta das Cazas Novas, a Quinta de Guimarães, a Quinta do Adro e a Quinta das Tias (todas num raio de dois quilómetros), esta é, actualmente, a maior área de vinha da casta Avesso existente no país, num total de 24 hectares.
“A partir de 2015 replantámos a vinha com 100% Avesso. O projecto foi evoluindo e andamos agora à volta das 40 mil garrafas”, explica Carlos, acrescentando que têm quatro rótulos: o Colheita, uma espécie de entrada de gama, “um vinho frutado que se pode consumir logo no próprio ano, uma mistura várias parcelas e que é um bom retrato da região”; o Pure, “um vinho produzido a partir das vinhas da Quinta de Guimarães, que são um bocadinho mais altas, e que se revela elegante e gastronómico, com corpo e bom final de boca; e, por fim, o Origem. “Dentro do lote do Pure, seleccionamos as melhores uvas, que vão à barrica [de cavalho francês], para criar o Origem”. O Cazas Novas Curtimenta é o rótulo mais recente da marca.
O aroma do rosbife que será servido ao jantar abandona a cozinha, atravessa o corredor, decorado com retratos de antepassados e genuflexórios almofadados, e entra pela sala de jantar. Aqui, a mesa corrida de madeira está posta, com a louça que os armários embutidos no granito guardam. Quem preferir – e se o tempo permitir – pode fazer as refeições na varanda, de olhos postos na vinha e no labiríntico jardim de buxo da quinta, aprumadamente ornamentado.
“Para hoje temos uma sopa de curgete e cebola. Tudo da nossa horta”, avisa Fernanda. Estava deliciosa e em pouco tempo viu-se o fundo da terrina de louça. E o rosbife, com a carne rosada, acompanhado de batatas fritas caseiras às rodelas e arroz de hortelã, também desapareceu da travessa. “Vai ligar muito bem com o Origem”, avisou antes a governanta. Tinha razão. As notas de fruta fresca e a acidez equilibrada – de um vinho que só dá cerca de duas mil garrafas por ano – assentaram que nem uma luva naquela noite de Verão. Para terminar, traz-nos figos, ameixas e framboesas da quinta; e, como sobremesas, leite creme queimado na hora, pão-de-ló e dulcíssimas cavacas de Resende, com uma espessa cobertura de açúcar. Tudo feito por ela.
Mais ou menos pela altura em que a produção de vinho arrancava, a partir de 2010, 2011, começaram também a investir na recuperação da casa para efeitos de enoturismo. Mantiveram a traça antiga, os tectos abobadados com painéis de madeira pintados à mão na sala principal, as grandes lajes de pedra de alguns quartos, as conversadeiras à janela e Fernanda, que sustém a casa há 30 anos, juntamente com as irmãs Rosa e Lúcia. “Elas são a alma desta casa, são elas que nos permitem manter este paraíso à distância. Dão conta de tudo, trouxeram os maridos e os filhos e até põem os hóspedes a trabalhar se for preciso”, ri Carlos.
Há várias opções de alojamento na Quinta de Guimarães. A Casa Principal possui quatro quartos duplos com casa de banho, decorados com mobiliário de época, como os enormes guarda-fatos espelhados e as camas de bilros com os seus pináculos excessivamente trabalhados, bem característicos da moda que dominou as casas abastadas entre os séculos XVII e XIX. As duas salas de estar (uma delas com piano), a cozinha (de onde não vai querer sair), a capela revestida a azulejos e com um impressionante altar construído em pau-santo e a pequena loja que ocupa a sacristia – e onde pode encontrar à venda os doces caseiros da quinta – compõem este edifício centenário. Mas há mais para explorar.
Do outro lado da eira, a 30 metros da casa original, fica a Casa da Piscina, outrora armazém de máquinas agrícolas. É uma casa independente com sala com cozinha equipada, dois quartos duplos e uma casa de banho. Está próxima da piscina, rodeada por um extenso relvado, árvores de copas frondosas, arbustos e flores, muitas flores. Aqui cabem ainda um campo de areia para jogos de vólei e brincadeiras dos mais pequenos, dois baloiços e um bar de apoio onde, à hora de almoço, podem ser servidas refeições leves a pedido.
Há ainda a Casa da Vinha, antiga habitação dos caseiros da quinta, com uma decoração mais moderna, com sala com cozinha aberta e três quartos duplos com casa de banho; e a Casa da Mata. Recuperada em 2005, esta manteve a traça original, com as paredes em granito, o forno a lenha e uma decoração rústica a condizer. Não perdeu também a incrível vista para o rio Douro e para as vinhas que a abraçam. Com sala, casa de jantar e cozinha, tem ainda quatro quartos duplos e três casas de banho. Em dias de maior calor, é possível levar a refeição lá para fora e comer sob a pérgola, generosa na sua sombra.
Fernanda estende-nos um cesto. “Vamos ao pomar”, diz sorridente. Seguindo-lhe os passos descobrimos uma das mais bonitas quintas da região: os seus inúmeros pontos de água – o tanque, as fontes e os pequenos chafarizes onde moram solitários peixes vermelhos; as paredes graníticas adornadas de bojudas hortênsias de um azul forte desavergonhado; as rolas que nos olham curiosas através das redes do pombal. Àquela hora, indolentes abelhões polinizam as flores do jardim; Marte, o burrinho, aparece à janela atraído pelas crianças que lhe oferecem maçãs, lambendo-lhes as mãos; e o sol atravessa as folhas das árvores do pomar, conferindo um tom dourado a tudo quanto toca. Os cestos estão cheios de ameixas, pêssegos, figos e framboesas. Debaixo do braço, um ramo de flores. Há pessoas que são lugares e há lugares que ficam na história de quem chega e de quem parte.
Lugar De Miguas, Sta. Marinha Do Zêzere (Baião). 91 291 5699. Quartos a partir de 108€/noite
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