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Espectáculo Cria
Renato MangolinEspectáculo Cria

Alice Ripoll: "Muitos bailarinos não conhecem os pais por causa da violência no Brasil"

A coreógrafa carioca traz ao DDD dois espectáculos em estreia nacional: 'aCORdo', entre 28 de Abril e 5 de Maio em Matosinhos, Porto e Gaia; e 'Cria', a 4 de Maio no Rivoli. Aqui há funk da favela e política, movimento e linguagem

Escrito por
Mariana Duarte
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Há duas frases no texto de apresentação do Cria (2017) que parecem resumir a situação de racismo sistémico no Brasil e a violência policial nas favelas: "Nóis é cria, não é criado" e "Por quê tantos filhos? Porque vocês vão matar alguns". Quiseram trabalhar essas questões?

Sim, mas não tão directamente. O espectáculo é mais abrangente. É sobre criação – na arte e as criações de filhos –, sobre paternidade, sobre como é criar um filho no Rio de Janeiro, na favela. A palavra “cria” é uma gíria que se usa muito na favela. Significa que você é nascido e criado lá, e tem respeito naquela comunidade. Claro que faz parte desse tema o facto de os jovens morrerem no Brasil, jovens que seriam possíveis pais, e tem muitos meninos que dançam na companhia que não conheceram os pais por causa da violência.

Cria é o segundo trabalho com a Companhia Suave, em que voltou a pegar no funk, no passinho e em outras danças urbanas brasileiras juntamente com dez bailarinos da favela Complexo do Alemão. Como foi este processo?

No primeiro trabalho [Suave], a ideia era misturar a minha maneira de trabalhar com a linguagem dos bailarinos. O passinho tem uma afinidade muito grande com a dança contemporânea. Tem uma coisa muito informal, um entendimento de estar em cena como se está na vida quotidiana. O Cria foi um aprofundamento disso. Eu trabalho sempre de uma maneira muito próxima da psicanálise, então, a gente desenvolve um ambiente onde eu proponho poucas coisas e escuto bastante. É um trabalho abstracto de dança, com foco no movimento e com questões que foram aparecendo naquele grupo, naquele momento. Através da improvisação, os bailarinos trouxeram os seus desejos, sonhos, questões das suas vidas. É difícil dizer se é político, se é sobre a linguagem. Ele é muita coisa junto.

Por que lhe interessa sair do vocabulário mais canónico da dança contemporânea?

Fui criada num ambiente mais burguês, mas sempre tive muito interesse nessas linguagens. A minha aproximação veio muito da música funk e do hip-hop do Rio. A dança que estava conhecendo quando estava estudando, com muita influência da dança conceptual europeia, não me interessava. Mas não são as únicas coisas com que trabalho.

O aCORdo (2017), com o grupo REC, é bastante diferente?

É, os bailarinos do aCORdo estão há muito tempo comigo. Resultou de uma encomenda da mostra Que Legado?. Nós devíamos responder à pergunta sobre que legado os eventos da Copa do Mundo e das Olimpíadas teriam deixado para o Rio e para as condições de vida das populações. Achei que a pergunta tinha de ser ampliada: não sei se estes eventos fizeram assim tanta diferença para os bailarinos que são negros e moram na favela, tendo em conta o legado que a cidade deixa para eles desde sempre. Esse foi, certamente, o trabalho mais político que já fiz. Aí começámos a pensar nas questões de uma cidade pautada pela violência, quando se é negro e da favela. Surgiu a questão da revista policial como uma acção simbólica de como se mantém esse equilíbrio de jogos de força numa cidade com tantas desigualdades.

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