Elene Naveriani: “Quis transmitir a violência através do silêncio, dos corpos, dos gestos”

A cineasta georgiana Elene Naveriani apresenta no Queer Porto 3 a sua primeira longa-metragem, 'I Am Truly a Drop of Sun on Earth'. Conversámos com ela
Elene Naveirani
©DR
Por Mariana Duarte |
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A terceira edição do festival de cinema (e não só) Queer Porto começa amanhã, quarta-feira, e termina domingo. Sexo, intimidade, fetichismo, feminismo, questões trans e emigração são alguns dos temas que atravessam o programa. I Am Truly a Drop of Sun on Earth será exibido sexta 6 às 17.00 no Rivoli.

Em que contexto surgiu a ideia para fazer este filme?

I Am Truly a Drop of Sun on Earth são palavras que fui buscar a Frantz Fanon, um escritor pós-colonial. O ponto de partida do filme foi uma visita a Tbilisi, capital da Geórgia, com a minha companheira, que é afro-suíça. Ao andar pela cidade com ela, no dia-a-dia, percebi o quão diferente é a vida para as pessoas não-brancas numa sociedade branca-patriarcal-misógina-racista-homofóbica-transfóbica-etc. Tomei ainda mais consciência do meu privilégio branco. Comecei a prestar mais atenção quando andava na rua. Era difícil ver pessoas não-brancas. Só à noite. Um dia acabei num clube africano. Nunca pensei encontrar um sítio assim, no meio da cidade. Era um espaço onde pessoas africanas, sobretudo nigerianas, se juntavam todas as noites para celebrar a sua existência. Foi neste clube que comecei a escrever o filme.

A narrativa é construída à volta de trabalhadoras do sexo e de imigrantes nigerianos. Que tipo de ligações é que quis estabelecer entre ambos?

Ambos são invisíveis durante o dia. É a noite que os liga e os torna visíveis. O que têm em comum é a necessidade de serem vistos, tocados e reconhecidos.

É verdade que os actores e as actrizes representam-se a si próprios?

Certo, eles representam-se a si próprios (à excepção de uns quantos actores profissionais). Foi como trabalhar em frente ao espelho – mas este espelho não reflecte a acção directa, reflecte como a sociedade branca patriarcal representa certos grupos.

Durante o filme aborda a violência contra as mulheres na Geórgia. Segundo dados de ONGs e outras instituições, as taxas de femicídio no país são bastante altas, bem como os crimes de ódio contra pessoas trans. Qual é a sua opinião sobre os direitos das mulheres e das pessoas LGBTQIA+ na Geórgia?

A Geórgia é um país cristão ortodoxo, onde a igreja tem poder suficiente para reforçar a misoginia, o sexismo e o ódio contra pessoas LGBTQA+. O resultado deste discurso de ódio é óbvio: todos os anos há várias mulheres assassinadas, assédio sexual numa base diária, bullying contra pessoas queer e violência física brutal contra mulheres trans, que em alguns casos acaba com homicídios. Também quis mostrar isso no filme: a violência e a tensão que estão sempre no ar e que alguém sente quando é mulher, queer, não-branco, trans... Quis transmitir esta violência em potência ao espectador através do silêncio, das ruas vazias, dos corpos, dos movimentos, dos gestos.

Quais são as posições dos habitantes de Tbilisi em relação à imigração?

Diria que depende das origens dos imigrantes. Posso falar do caso dos imigrantes africanos, cuja existência não conta para o país. Vivem numa alienação e isolamento extremos. Mesmo quando vivem há vários anos em Tbilisi, não têm amigos locais – os próprios nigerianos dizem que não querem ter amigos na Geórgia porque os georgianos têm medo deles. A imigração é vista como um perigo, a diversidade é vista como um perigo. Portanto a reacção da sociedade perante ela é de rejeição, defesa e violência.

A sua curta-metragem Gospel of Anasyrma, de 2014 – e que também tem no elenco a actriz e modelo Bianka Shigurova – influenciou, de alguma forma, I Am Truly a Drop of Sun on Earth?

A Bianka era uma activista, uma grande amiga e uma talentosa actriz. Após Gospel of Anasyrma eu queria trabalhar com ela outra vez, e ela comigo. Quando comecei a fazer este filme, ela ficou desapontada por não ter o papel de protagonista. Mais tarde perguntei-lhe que papel queria ter no filme e ela disse que queria ser uma dançarina no clube, porque era a dançar que ela se sentia mais bonita e poderosa. Foi assim que escrevi aquela cena da dança. Infelizmente a Bianka não pôde ver o filme. Antes de eu ter terminado de editar, ela foi encontrada morta no seu apartamento. As razões da sua morte ainda são misteriosas; não é claro o que aconteceu. Gostava também de dizer algumas palavras sobre o Daniel Onwuka, o amante da April, a personagem principal. Era um jovem nigeriano que foi estudar para Tbilisi para se tornar piloto. Mas em Dezembro passado faleceu por causa de maus-tratos no hospital, em Tbilisi. Morreu de pneumonia. Portanto, I Am Truly a Drop of Sun on Earth é dedicado à Bianka e ao Daniel, que não tiveram oportunidade de ver o filme terminado. Mais uma vez, a realidade deu-me uma chapada na cara e mostrou-me o meu privilégio.

* Saiba mais sobre o Queer Porto na edição de Outubro da Time Out Porto
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