Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Porto icon-chevron-right À descoberta do shin-hanga
Arte, Xilogravura, Shin-hanga, Ave e Hera Vermelha, Ohara Koson
© DR 'Ave e Hera Vermelha' por Ohara Koson (1877-1945)

À descoberta do shin-hanga

É uma arte marcial? Uma iguaria japonesa? Uma série de manga de sucesso? Propomos alguns livros que abrem portas para uma fascinante e obscura faceta da arte nipónica.

Por José Carlos Fernandes
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Nas últimas duas ou três décadas, a popularidade no Ocidente do manga fez com que este se tivesse quase tornado sinónimo de arte visual japonesa, o que teve o efeito de obliterar, pelo menos para as gerações mais novas, a rica e longa tradição nipónica de xilogravura. As estampas japonesas clássicas (ukiyo-e) foram extremamente populares durante o xogunato Tokugawa (ditadura militar entre 1603-1868), declinaram ao longo do período Meiji (1868- 1912) e conheceram breve ressurgimento no rescaldo dos conflitos do Japão com a China (1894-5) e a Rússia (1904-5), que geraram uma moda de estampas de temática bélica e nacionalista. Algumas panorâmicas sintéticas do ukiyo-e detêm-se nos primeiros anos do século XX, esquecendo que o género teve um derradeiro (mas discreto) assomo de vitalidade nas décadas de 1920-30, que ficou conhecido como shin-hanga.

 

À descoberta do shin-hanga

Arte, Xilogravura, Shin-hanga, Tabi miyage dai nishū, Ōsaka Dōtonbori no asa, Kawase Hasui
Arte, Xilogravura, Shin-hanga, Tabi miyage dai nishū, Ōsaka Dōtonbori no asa, Kawase Hasui
©DR

Oriente-Ocidente-Oriente

As tensões entre tradição e identidade, de um lado, e modernidade e globalização, do outro, produzem resultados imprevisíveis. Quando as estampas japonesas começaram a ter difusão na Europa no final do século XIX, exerceram influência determinante nos círculos da pintura avant-garde, nomeadamente em Manet, Degas, Gauguin, Van Gogh, Toulouse-Lautrec, Whistler ou Cassat – alguns chegaram mesmo a copiá-las. Ironicamente, por essa altura, o Japão, após séculos de isolamento, atirara-se de cabeça para a corrida pela modernização e esta passava por imitar tudo o que fosse europeu. As velhas tradições foram desprezadas e o ukiyo-e passou a ser visto como arcaico, pelo que a sua popularidade declinou acentuadamente nos últimos anos do século XIX. Só ao perceber o impacto do ukiyo-e na arte ocidental, o meio artístico japonês voltou a valorizá-las.

A figura decisiva do revivalismo da estampa japonesa foi Shozaburo Watanabe (1885- 1962), um negociante de arte e editor de estampas que começou a encomendar trabalhos a novos artistas por volta de 1915, dando origem ao movimento shin-hanga (“novas estampas”). Este novo desenvolvimento teve aspectos paradoxais: não só entre os primeiros artistas contratados por Watanabe para renovar a estampa japonesa estavam o austríaco Fritz Capelari e os britânicos Charles W. Bartlett e Elizabeth Keith, como os artistas japoneses da nova geração assimilaram as técnicas, estéticas e temas ocidentais.

Arte, Xilogravura, Shin-hanga, Nihon fūkei senshū, Shimabara Tsukumojima, Kawase Hasui
Arte, Xilogravura, Shin-hanga, Nihon fūkei senshū, Shimabara Tsukumojima, Kawase Hasui
©DR

Uma Radiosa Serenidade

No que toca às temáticas tradicionais do ukiyo-e, os actores, beldades e guerreiros perderam peso no shin-hanga e a paisagem e as “aves & flores” (kacho-e) impuseram-se. As regras de perspectiva e realismo da pintura ocidental, que mestres do ukiyo-e como Hokusai e Hiroshige tinham vindo a incorporar nas suas estampas, foram abraçadas sem rebuço no shin-hanga. A tranquilidade e a harmonia usuais nas estampas de paisagens tornaram-se ainda mais marcadas, evocando um mundo idealizado, de onde foram suprimidos todos os vestígios de modernidade e fealdade, e que emana uma radiosa serenidade, quase sempre tingida de nostalgia. A figura humana foi remetida para uma presença discreta e distante, desempenhando sobretudo a função de instilar uma sensação de solidão e melancolia – lembrando os viandantes solitários errando na natureza, de Caspar David Friedrich.

O shin-hanga ganhou visibilidade nos anos 20 e teve o apogeu na década seguinte – a crescente agressividade do imperialismo japonês e a consequente degradação das relações nipo-ocidentais, que conduziria à II Guerra Mundial, acabaram por ditar o seu fim.

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Livro, Xilogravura, Shin-hanga, The complete woodblock prints
Livro, Xilogravura, Shin-hanga, The complete woodblock prints
©DR

Alguns Livros Essenciais

Shin-hanga: The new print movement of Japan oferece uma excelente panorâmica do género, a partir de estampas da colecção da Art Gallery of Greater Victoria, na British Columbia. Fresh impressions: Early modern Japanese prints é uma reedição moderna do catálogo de “A special exhibition of modern Japanese prints”, exposição colectiva organizada pelo Toledo Museum of Art, em 1930, que apresentou 343 estampas de dez artistas de shin-hanga e teve itinerância por dez cidades dos EUA; se o catálogo original ganhou o estatuto de obra de referência e foi fulcral na divulgação do shin-hanga no Ocidente, a reedição de 2013 incorpora grandes melhoramentos e é de uma qualidade gráfica sumptuosa.

As obras completas dos dois artistas com maior notoriedade do shin-hanga, Hiroshi Yoshida (1876-1950) e Hasui Kawase (1883-1957), foram compiladas em dois monumentais The complete woodblock prints (na foto). São livros caros e de tiragem limitada, mas, no caso de Kawase, existem alternativas económicas: Visions of Japan e Water and shadow , contendo cada um deles uma selecção de cerca de uma centena das mais de 600 estampas contidas na opera omnia.

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